O dia está frio, mas o sol que bate no ponto de ônibus esquenta a minha pele o suficiente para equilibrar a temperatura. Do outro lado da rua, a segurança do bloco D comenta sobre o tempo com a moça que está retirando o lixo em grandes sacos plásticos – ambas usando calça e uma camiseta de manga curta. Me sinto contemplada quando ela exclama:
– Tá friozinho agora, Ana Paula!
Ter alguém dizendo em voz alta essa sensação, ainda que seja unânime entre todas as pessoas pouco agasalhadas, a torna um pouco mais real. Ao redor, nada de muito incomum ocorre. Os veículos passam para lados diferentes da universidade. Alguns param por um tempo, outros param por muito. Um carro vermelho está claramente perdido, freando em um ponto e dando a volta para a direção contrária logo em seguida.
Pessoas de diferentes idades e características físicas, a pé ou de bicicleta, passam por ali. Algumas correndo com pressa, outras andando sem pressa alguma. Um senhor de camisa xadrez passa vendendo vários colares artesanais, e os oferece para estudantes. Um jovem passa comendo amendoim, diz “Opa!” e segue seu caminho. Duas mulheres se aproximam, comentando um encontro. Pelo visto (ou escutado), o rapaz foi na casa de uma delas para tomar um vinho e conversar. Foi legal, para ela, mas eles não chegaram a passar desse ponto. A história acabou para mim, infelizmente, quando ao invés de parar para esperar o ônibus elas seguiram o caminho.
Achei que nada de mais interessante aconteceria. Até que uma moça senta para esperar o ônibus. Dá um sorriso simpático e, depois de alguns minutos de silêncio, pergunta se ali passa algum ônibus rumo ao Titri. Não sei responder. Digo que não sou daqui e não cheguei a aprender os novos caminhos que o ônibus faz após a mudança de trajeto que ocorreu recentemente. Na verdade, sei que também não aprendi muitos caminhos antes disso. Curiosa sobre a minha falta de informação, ela pergunta se sou caloura e estou em Florianópolis há poucos meses. Nesse momento, minha ficha cai. Não sou caloura. Não são poucos meses. Estou aqui há um ano. E ainda não sou daqui.


