11 de outubro de 2023 – 19h04
Hospital Infantil Joana de Gusmão, bairro da Agronômica, Florianópolis. São 168
leitos espalhados por 22 mil m², que abrigam também ambulatórios e doze unidades de internação. Cai uma tempestade que prenuncia um dos meses mais chuvosos do ano. Na área externa da emergência, a parte coberta que protege da chuva não é suficiente para as 19 pessoas ali presentes. Uma menina em uma cadeira de rodas se esgueira dos respingos de chuva que caem no seu braço. A mulher ao seu lado reclama. O aplicativo de corridas cancelou mais uma das suas tentativas de ir embora do hospital.
Na chegada, me apresento para a recepcionista. Um pouco desconfiada, ela permite que eu fique. Pergunto sobre o fluxo de crianças atendidas. “Olha, moço, só hoje já foram 204, até que tá calmo”, responde. Os indicadores hospitalares anuais da Secretaria da Saúde de Santa Catarina mostram que o Joana de Gusmão atende, em média, 7.909 crianças por mês na emergência, ou seja, aproximadamente 263 por dia.
Faço uma análise visual e a recepção não está lotada, tampouco vazia. A cadeira desocupada no canto direito do salão me oferece uma visão ampla do local, onde 32 pessoas, entre adultos e crianças, esperam por atendimento. Um menino, com joelho ralado, me observa fazer anotações. Acho estranho o fato de ele estar sozinho. A mãe chega logo depois, esfregando álcool gel nas mãos. Ao vê-la, ele me esquece um pouco e seu rosto se transforma, reclamando de dor. No televisor, no centro da sala, começa a piscar um nome: Hiago Correa da Silva – Triagem. Mãe e filho se levantam prontamente, e Hiago caminha com normalidade apesar do ferimento.
Observo as crianças. Uma menina bem gripada no colo do pai tem uma pulseira
amarela. Ela espirra muito e o pai limpa o que sai do seu nariz.. Um outro pai, em pé, e nina um bebê que também usa uma pulseira amarela. Minutos depois, Hiago e sua mãe retornam da triagem, ele está com uma pulseira laranja. Segura a barriga e reclama de dor, mas sem chorar. A mãe pede paciência e acaricia sua mão. O menino quer ir ao banheiro. “De novo, meu filho?”. Ela pergunta se ele consegue ir sozinho, ele faz sinal que sim e sai, desta vez caminhando bem lentamente e ainda com a mão segurando o abdômen.
Pergunto o que ele tem. A mãe responde que a médica está suspeitando de apêndice. Ele está com muita dor e diarreia desde o começo da manhã. Hiago tem onze anos e ainda não tivera febre, por isso a pulseira laranja, que serve para casos de urgência intermediária. A mãe, Louise, coça a cabeça. “A gente fica preocupada porque ouve falar sempre que o apêndice tem que ser operado às pressas, mas fazer o quê, né? Tem que esperar”.
O nome de Hiago pisca mais uma vez na tela. Após 23 minutos, é chamado para o atendimento, um intervalo bem menor do que o das crianças com pulseira amarela, que ainda aguardam. Desejo boa sorte para os dois. Caso Hiago fosse operado, talvez eu não voltasse a ver o menino naquela noite. Louise não ligou para ninguém, ninguém lá fora a esperava. Ela e o filho seguem para dentro do hospital de mãos dadas.
11 de outubro de 2023 – 22h28
“Segura, pai, tem que segurar firme”, diz a médica. Em um intervalo de três horas, a pediatra Josiane passou cinco vezes com o mesmo medicamento nas mãos. Um inalador, com espaçador e o que comumente costumamos chamar de “bombinha”. A sala de aplicação, visível de onde eu estava sentado, permanece sempre com a porta aberta. O atendimento agora era para a menina que não parava de espirrar no colo do pai. A médica enfatiza a importância da criança não se mexer durante a aplicação para que o remédio seja eficaz. Ela entrega uma receita ao pai da menina e os dispensa. Do total de atendimentos feitos na emergência do hospital, em média, 68% são para crianças com problemas respiratórios.
Acompanho com os olhos os dois saindo, quando uma outra cena me chama atenção. Uma mulher apoia a cabeça com as duas mãos. Ela esfrega o rosto, cobre os olhos e balança a cabeça. Olha para cima e suspira. “Isso, filha, respira fundo”, diz a mãe da mulher. Sentado na cadeira ao lado, o pai dela completa: “Não pode se desesperar”. Catarina Mueller, a mãe aflita, acaba de descobrir que o filho, Bernardo, de cinco anos, vai ficar internado. Os médicos estavam suspeitando de várias coisas, inclusive leucemia. Quem me conta é a avó, Denise, depois que o marido, Volnei, entra com a filha para se despedir do neto.
“O guri é muito apegado a ele, já vai ficar chorando. Os dois, né?! Eu não entro! Por mim, quanto menos hospital, melhor”. Ela continua contando que a filha foi para emergência esperando que fosse apenas uma consulta simples. O menino tinha desmaiado e não estava conseguindo se alimentar. “Mas ela é muito nervosa. O médico disse que precisa fazer exames; daí ela já ligou nos chamando pra cá. Mas numa hora dessas…”. Volnei volta da ala de internação. “Vamos lá, que vou trazer roupas pra eles, não pode passar a noite mais ninguém, já perguntei, só a mãe”. Denise retruca. “Mas é claro que não pode passar ninguém, isso eu já sabia. Por que tu não traz essas roupas amanhã? Eles não vão trocar agora mesmo”. Os dois saem em direção ao estacionamento e seguem discutindo.
11 de outubro de 2023 – 23h36
Gael Maciel Dias é o que se pode chamar de um bebezão. Tem dois anos e quatro meses. Ele entra na emergência no colo da avó, Lorena. Ela nem parece sentir o peso da criança, tamanha a agilidade que demonstra para entregar os documentos na recepção. Beijando a testa do neto a todo momento, ela o balança tentando acalmá-lo. Mas Gael não chora, está sereno e olhando para tudo, atento. A avó continua andando de um lado para o outro, enquanto a funcionária começa a preencher a ficha. “Precisa do CEP, fala aí que eu nunca lembro”. Lorena é uma mulher de baixa estatura, mas ocupa tantos espaços, que só depois noto mais quatro pessoas atrás dela. A mãe e o pai de Gael, um casal jovem que entra abraçado; o marido de Lorena, que fica balançando as chaves do carro o tempo todo; e a filha mais nova, tia do bebê, marrenta e sem paciência. A família toda foi para a emergência. Enquanto a mãe do menino dita o CEP, me aproximo da avó.
“Sabe que isso aqui hoje ainda tá bom, já teve dias que cheguei com ele aqui e tive que ficar esperando lá fora, porque não cabia mais ninguém”. Lorena conta sobre os problemas neurológicos de Gael. O menino nasceu sem respirar e os médicos precisaram aspirar o recém-nascido para que sobrevivesse. Dois meses depois, a família descobriu que a criança tinha o baço aumentado. Como se não bastasse, Gael também desenvolveu problemas no fígado. “Na maioria dos dias eu cuido dele, quase nem fica na creche. Mas hoje eu precisava sair; daí deixamos lá, quando fui buscar, disseram que ele passou o dia caindo”. O menino não conseguia parar em pé. Lorena e o marido vão até um lugar vazio e tentam fazer com que o neto fique em pé na cadeira. Gael dobra as perninhas e antes de cair, a avó o pega no colo novamente.
“A minha vida é isso aqui, volta e meia a gente corre pra cá com ele. Tem médico e médica muito bom aí dentro, mas tem dias que não dão conta”. O avô, Edson, resolve falar. “Concentrou tudo aqui agora, é muita gente, como pode uma cidade desse tamanho ter só um hospital pra esse monte de criança?”, fala, apontando para quem aguarda atendimento. O Joana de Gusmão é o único hospital infantil de Florianópolis. Em 2022 permaneceu com 71% dos leitos ocupados, em média. A Secretaria de Saúde ainda está fechando os indicadores de 2023, mas informou que notou um incremento desde maio de 2023, data em que o Hospital Universitário (HU) fechou sua emergência pediátrica.
Os pais do menino se aproximam. A mãe se chama Bianca, o pai, Matheus. A mãe tira da bolsa uma fralda para limpar a boca do filho. A avó pega a fralda das mãos dela e limpa ela mesma. “Ele gosta desse desenho”, diz a mãe. Gael olha atentamente para Os Jovens Titãs em Ação. O nome dele pisca no televisor ao lado. Hora da triagem. Avó, mãe e filho entram. O restante da família vai esperar lá fora. Gael não volta da triagem. Passou direto para o atendimento, me diz o avô mais tarde, antes de ir embora. O menino ficaria em observação por 24 horas. A mãe permaneceu com ele, e por alguma exceção, a avó ficou também.
12 de outubro de 2023 – 03h17
Crianças são inexplicáveis. Choram por um arranhão e agem naturalmente quando estão com algo grave. Theodor, seis anos, chegou mais cedo alegre e falante. O menino vestia roupa do Homem-Aranha. Caiu na festa de Dia das Crianças da escola. Braço quebrado. Gesso. Saiu sorrindo. O herói não ia conseguir salvar a vizinhança por alguns dias. Natali, de nove anos, veio com a mãe, que segura um pano sobre seu olho irritado por um produto de limpeza. Entre a triagem e o atendimento, tiram uma selfie para registrar o momento. A bebê Gabrielly, um ano e oito meses, está de pulseira amarela. Ela me olha. Quando tosse, fecha os olhinhos, depois abre, esboçando um sorriso.
Lara e Eduarda Singer entram correndo pela emergência. As duas disputam uma corrida para ver quem senta primeiro. São gêmeas idênticas, e vestem roupas em tons Barbie. Na cabeça de Lara, uma tiara de unicórnio; na cabeça de Eduarda, uma coroa de princesa. A princesa é mais calma, perdeu a disputa e obedece à outra irmã, que fica inventando brincadeiras e dando ordens, entre uma tosse e outra. O pai e a mãe terminam de falar com a recepcionista e se juntam a elas.
Carine Singer conta que as duas têm cinco anos. Lara é mais velha por minutos. A menina está com tosse há duas semanas. O atendimento de Lara também foi rápido. Antes de entrar, ela deixa a tiara com o pai, que fica com Eduarda na espera. Pergunto porque resolveram procurar atendimento na madrugada.
“Hoje tá demais. Ela não consegue dormir, só tosse, nem o xarope tá fazendo efeito. Resolvemos vir, essas coisas não dá pra brincar”. O pai diz que preparou uma programação extensa para o feriado com as meninas. Carine volta do atendimento sem a filha. Está aflita para não deixá-la muito tempo sozinha lá dentro, veio apenas dar o recado ao marido. Lara vai tomar medicação e precisa de raio-x do pulmão, pois pode estar com pneumonia. “Só vim pegar o celular, deve demorar. Vai pra casa com ela, quando acabar a gente vai”.
Luís Cláudio Singer envolve sua esposa em um abraço demorado. Pega a filha no colo, a coloca junto deles e os três ficam grudados por um tempo. Quando se soltam, a mãe abaixa, beija a cabeça da menina, pede para ela se comportar e volta para a ala de internação. O pai, com passos que pesam como o mundo, atravessa a emergência rumo à saída. Em uma das mãos, segura a gêmea mais nova, na outra, apenas uma tiara de unicórnio.
12 de outubro de 2023 – 05h41
Fico sentado por mais algum tempo. Sinto vontade de perguntar se Hiago foi operado mesmo. Dezenas de crianças passaram por aquela emergência essa noite sem que fosse possível saber as histórias de todas. A maioria dos casos não são resolvidos de forma rápida. Passam por exames, aguardam diagnósticos. Em todas as mães, pais, avós, um mesmo sinal. As mãos tremem, se agitam, acarinham os filhos, apoiam, sustentam.
O clima no Joana de Gusmão é de acolhimento. O hospital tem esse nome em homenagem à beata Joana de Gusmão. Nascida em Santos, São Paulo, em 1688, ela viveu por um período em Santa Catarina, nas proximidades da Lagoa da Conceição, e se dedicou à construção de capelas e atendimento a crianças. Há um esforço genuíno dos 1.106 funcionários que trabalham lá em diminuir a dor das crianças e o sofrimento de quem cuida delas, apesar da evidente falta de estrutura e da necessidade de mais profissionais. Mesmo em uma madrugada considerada tranquila, a espera é inevitável.
O dia já está amanhecendo, quando resolvo ir embora. Bem afastada, do lado de fora, Lorena, a avó de Gael, está parada, olhando o dia nascer e fumando um cigarro. O menino segue em observação, fez alguns exames e vai fazer mais. “A espera é que nos mata, meu filho. Se eu chego aqui e o médico me diz, faz isso, eu vou lá e resolvo. Mas essa espera é que machuca o coração da gente”.