Familia

Família

Ninguém pede para nascer. As pessoas são postas neste mundo e é esperado delas que se encaixem em algum lugar e que sejam gratas aos que as colocaram no mundo. A vida é geralmente vista como um presente, mas parece que junto com este presente são passados traumas, expectativas, punições. Ser mãe e ser pai, implica em sempre causar alguma dor, transformar as crianças em pessoas descontentes?

Muitos pais projetam seus sonhos frustrados, tratam os filhos como uma extensão de si mesmos. Como uma segunda chance. Também tendem a traçar um plano, um modelo de vida ideal e se desapontam quando os filhos querem ser algo diferente. “Não concorda comigo? Enquanto estiver na minha casa você vai ter que respeitar.” Para onde esse filho vai, se até ter vinte anos não é certo que tenha um porto seguro além da família?

Pela informação que tenho, meus pais parecem muito melhores comigo do que seus pais foram para eles, mas não há certeza de que esse padrão continue. Acho que, pelo menos, em relação à  maioria dos preconceitos eu possa ser melhor, mas, por bem ou por mal, a família não é a única influência na mentalidade de uma pessoa. 

Nas escolas eu vejo muita violência se proliferando. O ódio e a segregação tomam várias formas, mas nesse ambiente vejo também muita melhora. Parece que cada vez as crianças estão sendo mais ativas em combater os preconceitos, em serem conscientes de seus direitos e respeitarem as diferenças. Contudo, sinto que colocamos muita responsabilidade nas próximas gerações. “As florestas foram cortadas e os rios poluídos? A violência só aumenta? Agora é com vocês, se virem. O meu tempo já passou.” Com esse discurso parece que a culpa dos problemas é somente individual e não sistêmica. 

No mercado de trabalho a maioria das ocupações, dos empregos, não vai valorizar o pensar. Quando os pais falam “Se acostuma, a vida é injusta!” o que mais reflete isso é o trabalho, viver para um sistema que não é falho como muitos pensam. Funciona muito bem do jeito que foi idealizado, desenvolve a nação, cria riquezas, mas afasta as pessoas, cria pobres e ricos. Como querer criar uma pessoa que você sabe que provavelmente vai ter que carregar esse mesmo fardo? Que vai trabalhar mais que você para se aposentar?

Junto desses pensamentos, desse desespero, também vejo algo lindo. Muitas mães e pais que aprendem com seus rebentos. Pessoas que se esforçam para dar algo que não tiveram, para amar alguém sendo que nunca ouviram “Eu te amo”, que são mais que progenitores, que não precisam ter gerado para abrirem seus corações, que são amigos e não mestres e senhores, que, antes de tudo, se questionam, deixam as certezas de lado e caminham juntos. Pessoas que conseguem construir o amor destruindo as amarras que as impediam de aceitar suas falhas e refletir sobre como suas ações afetam e suas escolhas importam.

Não consigo me ver como mãe hoje, tenho muita coisa para resolver antes de pensar nisso, mas não posso negar que espero que alguém me considere dessa maneira, que eu sirva de mãe para alguém em um futuro possível. Espero que faça por merecer, mesmo a ideia de merecimento sendo tão abstrata. Quero ter como mãe um medo que muitas filhas e filhos têm, o de desapontar. Quero uma relação sem dívidas, sem dependência. Quero que seja um sentimento genuíno, de livre arbítrio. Um amor sem ódio misturado. Como deveria ser para todos.

Davi Miranda

Davi Miranda

davi.miranda.leite@gmail.com
26.1
foto Marina Hadlich

A moça da máquina de escrever

Das 11 da manhã até a uma da tarde de toda quarta-feira, Marina Hadlich se desloca do extremo Sul de Florianópolis para escrever textos sem cobrar um centavo.

Não importa quantos graus o termômetro do calçadão da Praça XV marque, ela estará lá, com um sorriso grande para atrair as pessoas, uma máquina de escrever do século passado e uma placa que diz: “Contos de graça na máquina de escrever. Me diga uma palavra de inspiração”.

Alguns passam e estranham sua presença, outros batem ponto uma vez na semana para revelar a tal palavra. Dali saem textos inéditos, pensados na hora. Nenhum é igual, para  cada palavra, pessoa ou história, ela escreve algo diferente. Tudo depende de quem a visita e como faz o pedido. Às vezes os textos saem meio apagados, com letras comidas ou espaçamento demais, marcas da sua antiga máquina de escrever.

Herança de seu avô, ex-funcionário da Hemmer, uma fábrica de alimentos em Santa Catarina, a peça histórica foi guardada por ele quando viu a empresa migrar da datilografia para o digital. Decidiu manter  a máquina consigo, pois sabia que um dia seria valiosa. Os planos do avô eram passar a herança de geração para geração, mas Marina alegou ser a única escritora da família e, assim, provou  que a relíquia já tinha um destino certo.

Tornar-se escritora não foi uma decisão tomada por impulso. O caminho literário sempre esteve presente, ainda que em segundo plano. Com dezesseis, dezessete anos, ela gostava de ser justa, de ver a justiça acontecer nos lugares e escolheu a advocacia como profissão. Ser advogada fugia do clichê de defender ou denunciar. Para Marina, o direito era sobre criar acesso e possibilidades. 

Durante cinco anos trabalhou no Ministério Público de Santa Catarina na esfera da Infância, Juventude e Idoso. Atuou com o sistema de socioeducação e reeducação de adolescentes,  sempre esforçando-se para que os centros educativos tivessem bibliotecas com livros de literatura.

Hoje Marina é escritora independente, não atua como advogada, nem trabalha em órgão público. Não existe nenhuma norma sobre o que deva vestir, mas a camisa que usa seria facilmente seu uniforme (ou crachá). Está estampado em seu peito: “Se você acha que isso é um chapéu, precisa ler mais“, acima de uma ilustração de O Pequeno Príncipe. 

Na carreira jurídica seu desejo era levar literatura às pessoas. Como escritora sua responsabilidade é fazer todos enxergarem em sua blusa uma jiboia engolindo um elefante.. Escrever textos de graça para pessoas desconhecidas faz parte disso.

A moça decidiu deixar a advocacia em 2017 para focar totalmente na literatura e se tornar o que é hoje, uma mudança ousada, mas totalmente condizente com a Marina da adolescência. 

Quando mais nova, um acidente a obrigou a ficar de muletas e em repouso. Começou a ler  para passar o tempo e, quando se deu conta, criou um blog para falar sobre suas leituras. Engajada, saiu pedindo parcerias com editoras e uma delas aceitou. A editora Novo Conceito enviava dez livros por mês, durante cinco anos. Em uma versão atual, Marina seria uma “booktoker” ou “booktuber”.

A escritora é muito ativa no Instagram, sua vitrine virtual. Possui um feed organizado, pensado milimetricamente para cativar mais seguidores e atualizar os fieis leitores sobre as  novidades. Sendo independente, a rede social é onde ela pode se promover. Lá, chega dando bom dia nos stories e, assim como na praça, carrega um sorriso largo e a máquina de escrever.

Na  vitrine digital divulga seus quatro livros, um para chorar, outro para rir, outro para chorar e refletir e um infantil. Na praça, quem guia a escrita são os visitantes, mas, quando o assunto é uma obra de fôlego, Marina adora escrever sobre mulheres. Mães, desempregadas, casadas ou viúvas, nenhuma fica de fora. Só no seu primeiro livro são cem histórias de mulheres fictícias com problemas reais.

A realidade sempre mexeu muito com a escritora. Em suas mãos, uma geladeira estragada, uma adega antiga ou uma casinha de passarinhos ganham nova função. Com a ajuda do marido, que faz brinquedos infantis de madeira, Marina reformou esses móveis e os encheu de livros. Ali começou o projeto das bibliotecas literárias.

A geladeira foi instalada na Biblioteca Pública Estadual, localizada em Florianópolis. A antiga adega de seus pais, ficou em São José, ao lado de um cachorro quente do bairro. A casinha de passarinhos foi escolhida para a fachada da sua casa no Ribeirão da Ilha.

Cada biblioteca literária se tornou um caminho para quem não possuía o hábito da leitura pela falta de acesso aos livros. Os retornos sempre foram positivos, cartinhas de crianças agradecendo a variedade de títulos, vizinhos se interessando por leitura e até pessoas que tiveram seu primeiro contato com a literatura através do projeto. 

Entre os usuários da biblioteca literária há pessoas em situação de vulnerabilidade social, que, apesar de não terem casa ou mesmo o que comer todo dia, levam e devolvem o livro em perfeito estado. Esses encontros fortalecem a escuta atenta da escritora no dia a dia. 

Na praça, um rapaz pede a palavra amor. É um recém apaixonado e se sente muito apoiado pela amada para seguir os seus sonhos. Um outro adolescente escolhe paciência, pois essa foi a lição que sua falecida avó deixou.

Maria Elizabete, uma adolescente já conhecida pela escritora, vai  periodicamente à praça. É exigente e nunca abaixa o nível do desafio.

É assim, toda semana. Perto do meio-dia, homens e mulheres passam uniformizados, apressados, em seu  horário de almoço. Senhoras cheias de sacola caminham para pegar o ônibus e estudantes saem em polvorosa assim que o sinal ressoa. Cada um com uma felicidade, angústia e intenção diferente. Naquela quarta-feira, Marina teve de  esperar  a chuva passar para montar sua mesa.

– O que você faz aqui? – pergunta um homem, depois que tudo estava devidamente instalado.

– Eu escrevo histórias de presente para as pessoas.

Ele diz ter ficado preso e longe da família por 17 anos.

Francisco,                               

Processo…

Os lápis se misturam, as cores 

desenham sobre a cabeça e mergu-

lham no papel. Um processo que 

poucos entendem como se forma.

Como se nuvem fosse e a tempestade

de criatividade jorrasse nas te-las.

Eis a vida de intempéries de um artista.

foto Marina Bernardo

Marina Bernardo

marina.bernardobr@gmail.com
26.1
Quack

Quack

Isso é uma denúncia! Sequestraram um pilar da comunidade acadêmica e a universidade não faz nada! Absurdo! Faz sentido a segurança ser a protagonista na corrida para reitoria. 

Lela sumiu há umas duas semanas. Estava vulnerável, havia perdido suas crianças recentemente. Deixou para trás um marido preocupado, o Lelo. Era uma mãe. Uma esposa. Uma peça importante do cotidiano da Instituição.

Era uma pata, mas não uma pata qualquer.

Primeiro toda a ninhada foi devorada por lagartos – o que é triste, mas é da natureza – e depois a pobrezinha, enlutada, foi sequestrada. Pelo menos é o que dois estudantes que alimentavam o Lelo me responderam quando perguntei por ela.

Para ser sincera, nem sei se esses são seus nomes reais. Mas é divertido um casal de patos se chamar Lelo e Lela. Para que personagem de I.A. tosca quando se tem (ou tinha) esses tesouros morando no coração da Universidade?

O pato, coitado, vive uma verdadeira tragédia grega. Perdeu os filhos, a esposa foi sequestrada e é forçado a viver naquele lago. Me quebra o coração ver suas únicas companhias sendo o lixo flutuando na água e um bando de pombas que só estão atrás da sua ração.

Me revolta a universidade  não ter feito nada sobre isso. Não vi uma nota, um poster. Não é nem a primeira vez que isso acontece. Cadê o reforço nas cercas? As câmeras? Iluminação decente? Qual a rota dos seguranças noturnos? Não custa nada dar uma olhada nos patinhos. O CTC bem que podia ajudar e criar um raio laser anti-sequestradores de patos na estátua do Boitatá. Eles devem ter dinheiro para isso, sei lá.

Espero que algo seja feito. Pelo menos investigado. Minha suspeita? Aquelas pombas trombadinhas. Meu maior medo? Ter comido pata empanada no RU…

Tonnie

Tonie Paganini

atpaganini@gmail.com
26.1
Sacolas do colchão

Sacolas no colchão

Quando eu era criança, minha mãe guardava sacolas e embrulhos de presente embaixo do colchão. Era o lugar delas. Se eu precisasse levar alguma coisa diferente para a escola, embrulhar uma lembrancinha ou carregar um objeto especial, a resposta vinha rápida: olha embaixo do colchão.

Nunca estranhei guardar sacolas ali. Adultos guardam coisas, e tudo bem. O estranho era a confiança. Minha mãe parecia atravessar a vida com a serenidade de quem entendia o que estava fazendo. Sabia qual servia para cada ocasião. Na minha cabeça, os adultos tinham descoberto alguma coisa sobre a vida que eu ainda desconhecia.

Até que, dias atrás, precisei levar uma caneca de presente para alguém e, sem pensar muito, ergui o colchão da minha cama.

Lá estavam elas: minhas sacolas.

Algumas bonitas demais para jogar fora. Outras resistentes o suficiente para mais um uso.  Algumas guardadas simplesmente porque era difícil abrir mão delas. E, pela primeira vez, tive uma sensação estranha. Não de nostalgia, mas de identificação. Aquilo não era só um hábito herdado. Era perceber que, sem qualquer aviso, eu tinha me tornado adulto.

Quando somos crianças, imaginamos que crescer significa entender mais das coisas. Como se, em algum momento, um ser misterioso desse acesso a informações que os mais novos ainda não podem ter. Mas ali, olhando para aquele monte de sacolas, veio outra possibilidade.

Talvez minha mãe também não soubesse muito bem o que estava fazendo.

Talvez ela estivesse apenas vivendo, improvisando. Guardando certas coisas porque poderiam ter outra utilidade mais tarde. Tomando pequenas decisões sem imaginar que um filho, anos depois, enxergaria nelas algum tipo de sabedoria.

Quando somos crianças, imaginamos que os adultos sabem exatamente o que estão fazendo. Só mais tarde descobrimos que eles apenas inventam os próximos passos.

E acho que foi por isso que aquelas sacolas me chamaram a atenção. Não porque eram minhas, mas porque, pela primeira vez, percebi que minha mãe também aprendia enquanto vivia.

Diôgo

Diôgo Bastos

diogobastosjor@gmail.com
26.1
Desenfreado

Desenfreado

— Você tem que ter medo da máquina, se não, você morre. — Diz o homem ao volante.

O ex-caminhoneiro hoje é motorista de um tribunal estadual. Meus colegas dizem que ele trabalha lá há anos, mas nunca foi de conversar muito. Seu nome eu não sei.

— Sabem qual é o meu apelido aqui?

— Qual? — Pergunto.

— Pikachu — fala, orgulhoso, enquanto me olha pelo retrovisor e sorri. Eu e minhas colegas de trabalho, no banco de trás, rimos. Ele continua. — Quando o presidente precisa de alguém que chegue ao destino rápido, ele me chama. Os outros são tudo lerdo.

Vamos dando corda. Ele nos conta que é apaixonado por motos.

— Sabem qual é minha posição favorita para andar de moto?

— Qual? — Nós três perguntamos em uníssono.

— Em uma roda só.

Caímos na gargalhada. É difícil compreender como alguém assim conseguiu ser contratado por um órgão público tão sério e, ainda por cima, ser o favorito do presidente. 

Sem que ninguém tivesse perguntado, ele contou que foi caminhoneiro por muitos anos e era apaixonado pela profissão. O problema é que a profissão não retribuía o carinho.

 — Parei de ter medo do caminhão e tive que largar. —  Fala, enquanto acelera a van branca durante o sinal amarelo – pelo jeito, não tem medo da van também.

Pergunto o porquê, com receio da resposta.

— Você tem que ter medo da máquina, se não, você morre. Você tem que ter medo para salvar a sua vida. Se você se sobrepõe à máquina, você não tem limites. — Diz, agora mais sério.  — Eu descia a serra sem pisar no freio. Meus colegas e eu competíamos que quem colocasse o pé no freio primeiro e ativasse a luz vermelha, perdia. Quanto mais perigoso, mais graça tinha. 

— Sua mãe devia ficar preocupada. — Digo entre risadas, pensando na minha, que surta quando ando a 60km/h.

— Ela fica até hoje. Já quebrei braço, perna, costela, mas a adrenalina não te deixa parar. 

— Que bom que não foi nada grave, então. 

— Grave foi, mas Graças a Deus estou vivo. — Ele continua pisando no acelerador, como se não houvesse limite de velocidade. — Meu amigo Tomate morreu na semana passada. Tombou o caminhão na descida do morro. Acho que estou usando a camiseta dele.

Ele abre os botões do uniforme e mostra a blusa branca que está por baixo com a foto de um homem sorridente no meio e escrito Eterno Tomate Descanse em Paz

Dali pra frente, foi só silêncio.

Screenshot

Sophia Grin

sophiafeitosa1997@gmail.com
26.1
Casa de vó

Casa de vó

A casa da minha vó era grande e colorida, ganhava um visual novo praticamente todo ano, já teve muitas cores. A última foi um rosa clarinho. Acompanhou uma vida inteira, os primeiros passos da minha mãe, as primeiras palavras da minha tia, as muitas brincadeiras entre eu e minha prima. Era o local em que todas as festas de família aconteciam, tinha mesa cheia e aroma de comida temperada com amor. 

A casa da minha vó era sempre meio barulhenta, o som alto dos filmes de ação que meu avô assistia com frequência, as discussões infinitas de política entre meu pai e meu tio, as gargalhadas no quarto, onde minha avó reunia o “Clube da Luluzinha” para contar as histórias de sua juventude. A casa da minha vó não era só dela, era um pouco minha também e de todo o resto da família que sempre estava por lá. Era um dos meus lugares favoritos no mundo. 

A casa da minha vó, hoje, não tem mais tanto barulho, nem cheiro de comida boa e as risadas diminuíram. A casa já viu muito choro e algumas brigas, a mesa agora não está tão cheia e tem sempre uma cadeira vazia. O “Clube da Luluzinha” não existe mais e as datas festivas são comemoradas em diferentes lugares. As paredes são cinza e há três anos tem a mesma cor. A casa sem a presença da minha vó virou só casa, e me deixou um pouco sem lar.

Mabel Santos

Mabel Santos

mabelsantos.jorn@gmail.com
26.1
Figurinha carimbada

Figurinha carimbada

Em frente ao totem do McDonald’s, percebi alguns combos de lanche vindo com um pacote de figurinhas da Copa do Mundo. Comentei com o meu amigo que esse ano o álbum e os pacotes estavam caros demais e não pretendia colecionar, apesar de já ter completado outras quatro edições.

— Para conseguir completar o álbum, as pessoas vão gastar quase mil reais, no mínimo. 

— Isso é um absurdo! 

Encarei o totem de novo e, suspirando, escolhi o combo com o pacote. Paguei e esperei o número do pedido ser chamado, mais ansiosa do que eu queria admitir.

Quando meu pedido foi chamado, peguei o combo, coloquei o lanche na mesa, rasguei o envelope apressadamente e passei as figurinhas animada. Dentre elas, atletas desconhecidos, como um jogador do Japão e um mexicano. Os outros eram mais familiares, como Bradley Barcola, da França, Enzo Fernandez, da atual campeã, Argentina, e o time da Espanha. 

Mas a graça nunca foi conhecer todos os jogadores. Ela estava no ritual de comprar os pacotes na banca e me juntar ao meu avô para comentar cada figurinha nova. Comemorávamos como se todos os jogadores fossem craques, mesmo sem saber quem eles eram.

Olhei para as figurinhas na minha mão mais uma vez. Hoje em dia, moro em outro estado e, por conta da distância, temos novas rotinas. Mas quando vi aqueles pequenos papéis, foi impossível não lembrar dele.  

Todo sábado de manhã, meu avô me levava para trocar figurinhas em uma banca no centro da cidade. Era ele quem ficava responsável por carregar a lista das que faltavam, conferindo e riscando os números a cada troca. 

 Nem percebi meu amigo me cutucar e perguntar no que eu estava pensando enquanto olhava para as figurinhas.

Sentada naquela mesa da praça de alimentação, repeti mais uma vez que  não iria fazer o álbum da Copa por conta do preço absurdo dos pacotes – R$ 7,00, onde já se viu !?. Enquanto guardava as cinco figurinhas na carteira, porém, percebi que não era só isso. 

Eu não sei colecionar figurinhas sozinha.

Ana Carolina

Ana Carolina Rodrigues

anacrcarvalho9@gmail.com
26.1
Des-armazenando

Des-armazenando

Abro a caixa de entrada do meu email. Há 1720 mensagens. Pesquiso “ifood”, apago todas as notificações. Agora são 1690. Fuço de novo a página inicial. Tiro as do Linkedin, Uber, Shopee e de uma marca de capinhas online que não importa quanto eu tente, não consigo cancelar a assinatura. 

Entro no Whatsapp, e a tela preta com sinal de alerta aparece na minha tela: ‘não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. Suspiro irritada e abro a galeria. Apago capturas de tela com indicações de creme para cabelo, livros que nunca vou ler, maiôs que nunca vou comprar e cortes de cabelo que não vou fazer. Volto ao whatsapp: ‘não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. 

Arrasto pra cima e analiso todos os aplicativos presentes no layout do meu celular. Desinstalo Youtube e CapCut, posso usá-los  no computador. Olho pro meu jogo de cidadezinha, que passei meses construindo. Com aperto no coração, o apago. Limpo o cache de todos os aplicativos. Por garantia, entro na galeria de novo e apago alguns dos vídeos que fiz com meus amigos no restaurante mexicano. 

Com expectativa, abro o Whatsapp. ‘Não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. A notificação rende uma visita ao meu gravador. Apago entrevistas do meu primeiro semestre de faculdade com certo saudosismo, além de alguns arquivos perdidos sobre o funcionamento da divisão celular da aula de biologia do 9°ano.

Respiro fundo e pela milésima vez abro o Whatsapp. Confiro a tela agora, sim, com todas as minhas conversas. Comemoro. Clico na mensagem da minha amiga “Sábado tá de pé?”. Começo a formular a resposta quando chega outra notificação. 

“Aliás, esqueci de te mandar as fotos de semana passada, né?” – 16 notificações.

Meu celular trava, o touch não funciona e prendo a respiração quando sou obrigada a sair e entrar no aplicativo de novo. Quando abro, aquele tom de preto opaco ocupa toda a minha tela, com os dizeres escritos de forma opressora: ‘não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. Eu grito.

Ellen

Ellen Ramos

ellen.s.rammoss@gmail.com
26.1
Chega de saudade

Chega de saudade

Era dia 10 de abril quando vibrou uma notificação no meu Whatsapp. Recebi uma mensagem com tom de vitória do meu grupo de amigos de Cabo Verde. “Gente, vencemos. Só 3 mil reais a passagem ida e volta”. O texto veio acompanhado de emojis de emoção e de dois prints que confirmavam o que anos de rumores não conseguiram. O retorno de voo direto do Brasil para Cabo Verde. Criou-se uma rede de comemoração, surpresa e incredulidade. “Meus Deus, que bênção. Está realmente confirmado?”, perguntavam uns, enquanto outros já se declaravam prontos para o embarque. “Se for verdade, eu com certeza vou estar lá esse ano”. A minha reação foi de “Graças a Deus”, acompanhada de uma figurinha dizendo “me sinto pronta”

Não era exagero. Para quem vive a diáspora, o preço da passagem aérea não é apenas um dado econômico, mas, sim, um encurtamento da distância entre o país onde você precisa estar para se tornar o que você sonhou e o país de origem, onde você nasceu, cresceu e se sentiu protegida pelos seus. A conversa no grupo continuou:

“Vendo e acreditando agora”.

“Eu ainda não acredito, só estando dentro do avião a caminho”.

“Pois é, só colocando o dedo nos furos da mão de Jesus, igual o Tomé, pra crer”

Desde o ano de 2020, quando a Cabo Verde Airlines interrompeu suas viagens, o trajeto entre Brasil e o arquipélago tornou-se inacessível. Sem voos diretos, restavam apenas conexões exaustivas de até 24 horas e passagens que chegavam aos 14 mil reais em classe econômica. Para os cabo-verdianos, principalmente para os estudantes, o custo de visita à terra natal triplicou, transformando o oceano em um muro intransponível. Foram seis anos de saudades acumuladas e falsas esperanças.

Em 2026, a promessa finalmente foi cumprida. O muro que separava o povo cabo-verdiano da sua terra se transformou em uma ponte. Com a confirmação do primeiro voo direto saindo de Recife, o reencontro deixou de ser uma possibilidade para se tornar um plano concreto.

Com essa notícia, até as conversas de vídeos chamadas se tornaram diferentes. O triste “talvez no ano que vem” das mães deu lugar à ansiedade e à expectativa do reencontro. “Ô mãe, quando eu chegar vou querer comer o seu cuscuz, quero que você prepare pra mim o congo, a cachupa, frango assado, com batata frita e ketchup e maionese”. Pedir frango assado para minha mãe pode parecer até estranho, afinal, não tem frango no Brasil? Tem, mas comer o frango de cabo-verde, com o toque e o tempero da minha mãe, é algo parecido com  reconexão,  com sentir-se em casa. Meu irmão também tem seus desejos de chegada. “Estou com muita saudade da ‘Kriola’, cerveja cabo-verdiana, pode ir guardando uma caixa para mim”. “Guardo até duas, meu filho. Tudo o que vocês quiserem”. 

A expectativa é tanta que transborda para as gerações mais novas. O meu sobrinho está até imaginando como será a ceia de natal, mas já com a consciência da finitude do momento. “Nossa, vovó! Este ano será especial. Minha mãe, o tio Carlos e a tia Alaíde estarão todos aqui, só vai ser triste o dia em que eles tiverem de retornar”. 

Mas por agora o foco é outro. O caminho de volta para Cabo Verde nunca pareceu tão perto. 

Alaíde

Alaíde Gonçalves

alaidejoseanegoncalves@gmail.com
26.1
Diamante

Diamante

Do banheiro do andar de cima se ouvem os gemidos. Desço as escadas para acudir minha avó, que precisou trocar de fralda no meio da noite, e meu avô, com quase 90 anos, não consegue virá-la. É o segundo dia desde que Marlene quebrou a perna. Vai ter que ficar dois meses de cama, e ela é a última pessoa que podia ter quebrado uma perna.

Estávamos comemorando as  bodas de diamante, 60 anos de casados de Marlene e José. Ela, que na verdade prefere ser chamada de Toninha (nasceu no dia de Santo Antônio), fez um almoço para celebrar a data. Irmã, filha, neta, sobrinhos e agregados reunidos.

— Ele não foi um bom companheiro. Pai e marido tudo bem, agora, companheiro, não!

José sempre ficava quieto enquanto Toninha falava dele.

Do outro lado da mesa, a irmã mais nova de Toninha (que já não era tão nova) falava com uma sobrinha.

— A mulher recebe o cuidado da mãe até certa idade, depois, não, ela passa a ter mais responsabilidades e tem que cuidar dos outros. O homem continua recebendo, ele não aprende a dar, só a receber, por isso são dependentes da gente. Temos que agradecer por ter tido filha mulher.

Toninha continuava a falar de José:

— Ele é egocêntrico e o filho puxou ele, eles não fazem por mal, mas não conseguem ver o outro.

Depois do almoço (e de algumas  cervejas), Toninha foi entrar no quarto e tropeçou em uma poltrona, caindo de joelho no chão. Todo mundo foi ver a cena.

— Quem teve a ideia de girico de por essa poltrona aí?

— Foi ela! Graças a Deus, se não alguém ia ouvir.

— Puta que o pariu, foi minha perna boa ainda, podia ter sido a ruim — gritou Toninha, no chão.

Ela seguiu mancando até o fim da festa, quando os convidados foram embora, ficando apenas a família da filha, que a estava visitando.

— Vocês não vão sair?

— Não, eu vou ficar aqui com você, e se você precisar fazer xixi?

— Eu faço na mão e jogo no chão.

Marlene, que não é conhecida por sua paciência, tentou ao máximo dispensar a família, sem sucesso. No dia seguinte, não conseguiu fugir, teve que ir ao médico: tíbia quebrada, dois meses de cama.

– Quando a coisa mais importante da vida de alguém é  como ela vai conseguir fazer cocô, tá na hora de ir embora, mesmo.

 Sempre acostumada a fazer mil coisas, agora a idosa é tomada pela melancolia.

 — Curioso isso de você querer morrer, mas sentir vontade de fazer coisas que você sabe que não vai conseguir. É como se tivesse uma ópera que você quer ver, só que é em Moscou, você sabe que não vai. Esses dias eu vi que vai inaugurar, em 2030, o trem São Paulo – Campinas. Pensei, “puxa vida, queria estar viva pra andar”, mas eu não vou.

— Você pode sim, vó, nunca se sabe.

— Eu não quero, Deus me livre! Tadinho do meu gordo, seu avô fica preocupado, não pode acontecer nada com a faz-tudo dele. Ele não sabe fazer nada sozinho. Nada!

— Eu sou inútil — diz o avô, do outro lado do quarto, sem tirar os olhos da tv.

De noite, quando ouvi os gemidos e fui ajudar  minha avó, assumindo o lugar do meu avô, eu o vi, antes de sair do quarto,  tirando as presilhas que ela esqueceu de tirar do cabelo.

Click, clack. Fechou uma por uma.

Ela estava de olhos fechados. Ele guardou as presilhas na gaveta da mesinha do lado da cama e se deitou.

Ela abriu o olho uma última vez, antes de eu apagar a luz pra sair do quarto, e olhou para o marido.

— Obrigada, gordo.

Sofia

Sofia Verissimo

sofia.nverissimo@gmail.com
26.1