Ninguém pede para nascer. As pessoas são postas neste mundo e é esperado delas que se encaixem em algum lugar e que sejam gratas aos que as colocaram no mundo. A vida é geralmente vista como um presente, mas parece que junto com este presente são passados traumas, expectativas, punições. Ser mãe e ser pai, implica em sempre causar alguma dor, transformar as crianças em pessoas descontentes?
Muitos pais projetam seus sonhos frustrados, tratam os filhos como uma extensão de si mesmos. Como uma segunda chance. Também tendem a traçar um plano, um modelo de vida ideal e se desapontam quando os filhos querem ser algo diferente. “Não concorda comigo? Enquanto estiver na minha casa você vai ter que respeitar.” Para onde esse filho vai, se até ter vinte anos não é certo que tenha um porto seguro além da família?
Pela informação que tenho, meus pais parecem muito melhores comigo do que seus pais foram para eles, mas não há certeza de que esse padrão continue. Acho que, pelo menos, em relação à maioria dos preconceitos eu possa ser melhor, mas, por bem ou por mal, a família não é a única influência na mentalidade de uma pessoa.
Nas escolas eu vejo muita violência se proliferando. O ódio e a segregação tomam várias formas, mas nesse ambiente vejo também muita melhora. Parece que cada vez as crianças estão sendo mais ativas em combater os preconceitos, em serem conscientes de seus direitos e respeitarem as diferenças. Contudo, sinto que colocamos muita responsabilidade nas próximas gerações. “As florestas foram cortadas e os rios poluídos? A violência só aumenta? Agora é com vocês, se virem. O meu tempo já passou.” Com esse discurso parece que a culpa dos problemas é somente individual e não sistêmica.
No mercado de trabalho a maioria das ocupações, dos empregos, não vai valorizar o pensar. Quando os pais falam “Se acostuma, a vida é injusta!” o que mais reflete isso é o trabalho, viver para um sistema que não é falho como muitos pensam. Funciona muito bem do jeito que foi idealizado, desenvolve a nação, cria riquezas, mas afasta as pessoas, cria pobres e ricos. Como querer criar uma pessoa que você sabe que provavelmente vai ter que carregar esse mesmo fardo? Que vai trabalhar mais que você para se aposentar?
Junto desses pensamentos, desse desespero, também vejo algo lindo. Muitas mães e pais que aprendem com seus rebentos. Pessoas que se esforçam para dar algo que não tiveram, para amar alguém sendo que nunca ouviram “Eu te amo”, que são mais que progenitores, que não precisam ter gerado para abrirem seus corações, que são amigos e não mestres e senhores, que, antes de tudo, se questionam, deixam as certezas de lado e caminham juntos. Pessoas que conseguem construir o amor destruindo as amarras que as impediam de aceitar suas falhas e refletir sobre como suas ações afetam e suas escolhas importam.
Não consigo me ver como mãe hoje, tenho muita coisa para resolver antes de pensar nisso, mas não posso negar que espero que alguém me considere dessa maneira, que eu sirva de mãe para alguém em um futuro possível. Espero que faça por merecer, mesmo a ideia de merecimento sendo tão abstrata. Quero ter como mãe um medo que muitas filhas e filhos têm, o de desapontar. Quero uma relação sem dívidas, sem dependência. Quero que seja um sentimento genuíno, de livre arbítrio. Um amor sem ódio misturado. Como deveria ser para todos.




















