Há mais de meio século, o Paraná vivia uma tragédia climática que caiu no esquecimento
Estado de calamidade pública, ventos de 250 km/h, 90% da cidade destruída e seis vidas perdidas. Esse foi o rastro deixado pelo tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu, no sudoeste do Paraná, em outubro de 2025. Mesmo com o alerta antecipado da meteorologia, nada conteve a devastação. O que resta agora são os escombros e a pergunta entre aqueles que foram atingidos: “como pode? Nunca passamos por nada parecido”. O cenário lembra o da primeira tragédia climática registrada no Brasil, há 66 anos, no mesmo estado do Paraná.
Até hoje o que aconteceu nos extensos dois quilômetros da Fazenda Fortaleza, em Palmas, não tem definição. Tornado, furacão, ciclone, tormenta ou vendaval? A meteorologia, os alertas e a previsão do tempo não chegavam até lá. Ali o tempo era lido no canto diferente de um pássaro, na pressa das nuvens e no cheiro da chuva antes de cair. Para a ciência, nada daquilo existiu, pelo menos não oficialmente, tanto que as buscas em bases de dados não apontam qualquer artigo sobre o tema. Mas, para quem estava lá, o tornado nunca parou de passar.
Sexta-feira, 13 de agosto de 1959
Amanheceu. Era inverno, mas o sol quente e o céu limpo anunciavam que a primavera logo ia chegar. As máquinas barulhentas da serraria trabalhavam e as crianças corriam descalças pela fazenda que abrigava 12 casarões de madeira, onde moravam famílias como os Tonial e Cesca. Em volta das casas, plantações bem cuidadas, galinheiros cheios e bois que pastavam pelos gramados. Flora Tonial — carinhosamente chamada de Tata — atendia ao pedido de sua mãe e estendia roupas na cerca. O vento, típico da cidade, balançava os tecidos devagar, como quem avisava que logo estariam secos.
A mulher de 23 anos ainda não havia terminado a tarefa quando percebeu o tempo escurecer. Eram 16h e a chuva chegou mansa. Em poucos minutos, a serenidade foi se perdendo. O granizo começou a cair e o vento assobiava forte. A mãe de Tata parecia sentir o que se aproximava. “Minha filha, cuide do seu pai e dos seus irmãos, porque hoje é meu dia”, disse, com uma calma que ninguém entendeu.
Estava anoitecendo e a chuva não dava trégua. Na casa de Marilene Cesca, a mãe preparava o jantar ouvindo a chuva e as árvores que chacoalhavam do lado de fora. Perto das 19h, o vento ficou mais forte e, em segundos, tudo voou.
Tata, presa embaixo do fogão à lenha e com a mão queimada, tentava entender a destruição. Ao lado dela, seus irmãos e sua mãe estavam soterrados pelos escombros. Entre os pedidos de socorro, ela ouvia gritos distantes e choros que pareciam vir de todos os lados. Esperaram o que pareceu uma eternidade, até que, quando o vento e a chuva cessaram, o vizinho da casa ao lado chegou. Tirou Tata, sua mãe e seus irmãos dos destroços. Eram a única família sem vítimas fatais.
Ainda com dores e feridas, sem pensar, saíram para prestar socorro àqueles que também foram atingidos. A primeira casa que Tata procurou foi a de Marilene. A menina, com apenas cinco anos, estava com as duas pernas e os dois braços quebrados. Imóvel. Muito pequena, não entendia que ali havia perdido o pai, a mãe e os dois irmãos. A família inteira. A janta, preparada com o mesmo carinho de todos os dias, não estaria mais na mesa.
Aquela noite se transformou em uma corrida. Quem ainda conseguia ficar de pé deixava a própria dor de lado para ajudar quem precisava. A fazenda isolada, a quase 38km do centro de Palmas, parecia ainda mais distante sob o breu que tomou conta da região. Sem telefone, sem luz, sem qualquer forma de comunicação, os pedidos de socorro pareciam se perder no vazio.
A ajuda demorou. Os sobreviventes, agonizando, esperaram por horas. Aos poucos, começaram a chegar moradores de propriedades vizinhas e militares, chamados às pressas quando a notícia finalmente os alcançou.
O dia amanheceu e o cenário parecia irreal: árvores retorcidas, troncos arrancados pela raiz, tábuas da serraria espalhados e casas completamente destruídas. O silêncio era quebrado pelos helicópteros militares que sobrevoavam a fazenda. Um deles pousou com o objetivo de levar os feridos graves até Curitiba — Marilene entre eles.
A menina foi colocada em uma maca. Seus braços e pernas quebrados foram imobilizados do jeito que dava, diante da escassez de recursos. Ao vê-la, o médico responsável pelo transporte murmurou: “essa aqui não sobrevive”.
Palmas inteira estava desolada. Os jornais Gazeta do Povo, Diário da Tarde e O Estado do Paraná registraram que os ventos chegaram a 250 km/h; que roupas e documentos foram encontrados muito longe; que o jipe da serraria — com mais de uma tonelada — foi arremessado sobre a copa de uma árvore. Ninguém nunca tinha visto nada parecido. Muitos se apegaram à superstição naquela sexta-feira 13, buscando algum sentido no que parecia impossível de explicar.
Na tarde que se seguiu à tragédia, os corpos dos 35 mortos foram recolhidos e empilhados sobre as caçambas das caminhonetes que seguiriam rumo à cidade, que tinha 13 mil habitantes, de acordo com dados oficiais da Prefeitura. O cortejo fúnebre foi longo, silencioso e atravessou as principais ruas. Um número incontável de moradores acompanhava a passagem dos veículos, caminhando ao lado deles como quem tenta, de alguma forma, sustentar o peso do luto.
O velório aconteceu no antigo Clube Caça e Pesca, onde hoje fica o Hotel Coroados. Dentro do salão, os corpos foram dispostos lado a lado, envoltos em algodão branco. Lair Tonial, com 16 anos, estava no “coleginho”, internato de meninos no centro da cidade. Foi ali, de longe, que recebeu a notícia que não poderia compreender de imediato. “Um tornado destruiu tudo, a casa se acabou, não volte, fique e espere os corpos”, disseram. Foi com esse aviso seco que descobriu a perda do pai, da mãe e de seis dos sete irmãos.
O rapaz conhecia todos que moravam na fazenda. No velório, coube a ele fazer o reconhecimento dos corpos. Ele lembra de ter passado por cada um, dizendo os nomes ao militar que o acompanhava. Um deles era o seu irmão caçula, que, no dia anterior, havia pedido para ir junto até o coleginho. Lair tinha negado. Entre tanta dor, era o único na cidade que conseguia cumprir aquela tarefa, até hoje a mais difícil de sua vida.
Lair e sua irmã Glorisse precisaram aprender a seguir sozinhos. Tata e sua família passaram os meses seguintes tentando reconstruir aquilo que o vento havia levado. Marilene permaneceu 40 dias internada em Curitiba até se recuperar. Quando recebeu alta, foi morar com os avós. O que por décadas uniu todos eles foi a mesma dor, aquela que caiu no esquecimento da ciência, e, aos poucos, até dos moradores de Palmas. Mas quem sobreviveu não esquece. Lair, hoje com 89 anos, nunca esqueceu. Tata também não. Glorisse faleceu aos 84 anos sem nunca ter esquecido.
Em uma sexta-feira, em outubro de 2025, Marilene contou a história com longas pausas, tentando conter o choro. Mesmo pequena na época, ela sabe descrever o que viveu e o quanto sofreu nos anos que se seguiram. Com 71 anos, durante a entrevista, respirou fundo antes de dizer: “lembro de nós felizes, juntos e brincando. Todo dia 13 de agosto peço que rezem uma missa para eles. Espero que, onde estiverem, estejam bem”



















