Quack

Quack

Isso é uma denúncia! Sequestraram um pilar da comunidade acadêmica e a universidade não faz nada! Absurdo! Faz sentido a segurança ser a protagonista na corrida para reitoria. 

Lela sumiu há umas duas semanas. Estava vulnerável, havia perdido suas crianças recentemente. Deixou para trás um marido preocupado, o Lelo. Era uma mãe. Uma esposa. Uma peça importante do cotidiano da Instituição.

Era uma pata, mas não uma pata qualquer.

Primeiro toda a ninhada foi devorada por lagartos – o que é triste, mas é da natureza – e depois a pobrezinha, enlutada, foi sequestrada. Pelo menos é o que dois estudantes que alimentavam o Lelo me responderam quando perguntei por ela.

Para ser sincera, nem sei se esses são seus nomes reais. Mas é divertido um casal de patos se chamar Lelo e Lela. Para que personagem de I.A. tosca quando se tem (ou tinha) esses tesouros morando no coração da Universidade?

O pato, coitado, vive uma verdadeira tragédia grega. Perdeu os filhos, a esposa foi sequestrada e é forçado a viver naquele lago. Me quebra o coração ver suas únicas companhias sendo o lixo flutuando na água e um bando de pombas que só estão atrás da sua ração.

Me revolta a universidade  não ter feito nada sobre isso. Não vi uma nota, um poster. Não é nem a primeira vez que isso acontece. Cadê o reforço nas cercas? As câmeras? Iluminação decente? Qual a rota dos seguranças noturnos? Não custa nada dar uma olhada nos patinhos. O CTC bem que podia ajudar e criar um raio laser anti-sequestradores de patos na estátua do Boitatá. Eles devem ter dinheiro para isso, sei lá.

Espero que algo seja feito. Pelo menos investigado. Minha suspeita? Aquelas pombas trombadinhas. Meu maior medo? Ter comido pata empanada no RU…

Tonnie

Tonie Paganini

atpaganini@gmail.com
26.1
Sacolas do colchão

Sacolas no colchão

Quando eu era criança, minha mãe guardava sacolas e embrulhos de presente embaixo do colchão. Era o lugar delas. Se eu precisasse levar alguma coisa diferente para a escola, embrulhar uma lembrancinha ou carregar um objeto especial, a resposta vinha rápida: olha embaixo do colchão.

Nunca estranhei guardar sacolas ali. Adultos guardam coisas, e tudo bem. O estranho era a confiança. Minha mãe parecia atravessar a vida com a serenidade de quem entendia o que estava fazendo. Sabia qual servia para cada ocasião. Na minha cabeça, os adultos tinham descoberto alguma coisa sobre a vida que eu ainda desconhecia.

Até que, dias atrás, precisei levar uma caneca de presente para alguém e, sem pensar muito, ergui o colchão da minha cama.

Lá estavam elas: minhas sacolas.

Algumas bonitas demais para jogar fora. Outras resistentes o suficiente para mais um uso.  Algumas guardadas simplesmente porque era difícil abrir mão delas. E, pela primeira vez, tive uma sensação estranha. Não de nostalgia, mas de identificação. Aquilo não era só um hábito herdado. Era perceber que, sem qualquer aviso, eu tinha me tornado adulto.

Quando somos crianças, imaginamos que crescer significa entender mais das coisas. Como se, em algum momento, um ser misterioso desse acesso a informações que os mais novos ainda não podem ter. Mas ali, olhando para aquele monte de sacolas, veio outra possibilidade.

Talvez minha mãe também não soubesse muito bem o que estava fazendo.

Talvez ela estivesse apenas vivendo, improvisando. Guardando certas coisas porque poderiam ter outra utilidade mais tarde. Tomando pequenas decisões sem imaginar que um filho, anos depois, enxergaria nelas algum tipo de sabedoria.

Quando somos crianças, imaginamos que os adultos sabem exatamente o que estão fazendo. Só mais tarde descobrimos que eles apenas inventam os próximos passos.

E acho que foi por isso que aquelas sacolas me chamaram a atenção. Não porque eram minhas, mas porque, pela primeira vez, percebi que minha mãe também aprendia enquanto vivia.

Diôgo

Diôgo Bastos

diogobastosjor@gmail.com
26.1
Desenfreado

Desenfreado

— Você tem que ter medo da máquina, se não, você morre. — Diz o homem ao volante.

O ex-caminhoneiro hoje é motorista de um tribunal estadual. Meus colegas dizem que ele trabalha lá há anos, mas nunca foi de conversar muito. Seu nome eu não sei.

— Sabem qual é o meu apelido aqui?

— Qual? — Pergunto.

— Pikachu — fala, orgulhoso, enquanto me olha pelo retrovisor e sorri. Eu e minhas colegas de trabalho, no banco de trás, rimos. Ele continua. — Quando o presidente precisa de alguém que chegue ao destino rápido, ele me chama. Os outros são tudo lerdo.

Vamos dando corda. Ele nos conta que é apaixonado por motos.

— Sabem qual é minha posição favorita para andar de moto?

— Qual? — Nós três perguntamos em uníssono.

— Em uma roda só.

Caímos na gargalhada. É difícil compreender como alguém assim conseguiu ser contratado por um órgão público tão sério e, ainda por cima, ser o favorito do presidente. 

Sem que ninguém tivesse perguntado, ele contou que foi caminhoneiro por muitos anos e era apaixonado pela profissão. O problema é que a profissão não retribuía o carinho.

 — Parei de ter medo do caminhão e tive que largar. —  Fala, enquanto acelera a van branca durante o sinal amarelo – pelo jeito, não tem medo da van também.

Pergunto o porquê, com receio da resposta.

— Você tem que ter medo da máquina, se não, você morre. Você tem que ter medo para salvar a sua vida. Se você se sobrepõe à máquina, você não tem limites. — Diz, agora mais sério.  — Eu descia a serra sem pisar no freio. Meus colegas e eu competíamos que quem colocasse o pé no freio primeiro e ativasse a luz vermelha, perdia. Quanto mais perigoso, mais graça tinha. 

— Sua mãe devia ficar preocupada. — Digo entre risadas, pensando na minha, que surta quando ando a 60km/h.

— Ela fica até hoje. Já quebrei braço, perna, costela, mas a adrenalina não te deixa parar. 

— Que bom que não foi nada grave, então. 

— Grave foi, mas Graças a Deus estou vivo. — Ele continua pisando no acelerador, como se não houvesse limite de velocidade. — Meu amigo Tomate morreu na semana passada. Tombou o caminhão na descida do morro. Acho que estou usando a camiseta dele.

Ele abre os botões do uniforme e mostra a blusa branca que está por baixo com a foto de um homem sorridente no meio e escrito Eterno Tomate Descanse em Paz

Dali pra frente, foi só silêncio.

Screenshot

Sophia Grin

sophiafeitosa1997@gmail.com
26.1
Casa de vó

Casa de vó

A casa da minha vó era grande e colorida, ganhava um visual novo praticamente todo ano, já teve muitas cores. A última foi um rosa clarinho. Acompanhou uma vida inteira, os primeiros passos da minha mãe, as primeiras palavras da minha tia, as muitas brincadeiras entre eu e minha prima. Era o local em que todas as festas de família aconteciam, tinha mesa cheia e aroma de comida temperada com amor. 

A casa da minha vó era sempre meio barulhenta, o som alto dos filmes de ação que meu avô assistia com frequência, as discussões infinitas de política entre meu pai e meu tio, as gargalhadas no quarto, onde minha avó reunia o “Clube da Luluzinha” para contar as histórias de sua juventude. A casa da minha vó não era só dela, era um pouco minha também e de todo o resto da família que sempre estava por lá. Era um dos meus lugares favoritos no mundo. 

A casa da minha vó, hoje, não tem mais tanto barulho, nem cheiro de comida boa e as risadas diminuíram. A casa já viu muito choro e algumas brigas, a mesa agora não está tão cheia e tem sempre uma cadeira vazia. O “Clube da Luluzinha” não existe mais e as datas festivas são comemoradas em diferentes lugares. As paredes são cinza e há três anos tem a mesma cor. A casa sem a presença da minha vó virou só casa, e me deixou um pouco sem lar.

Mabel Santos

Mabel Santos

mabelsantos.jorn@gmail.com
26.1
Figurinha carimbada

Figurinha carimbada

Em frente ao totem do McDonald’s, percebi alguns combos de lanche vindo com um pacote de figurinhas da Copa do Mundo. Comentei com o meu amigo que esse ano o álbum e os pacotes estavam caros demais e não pretendia colecionar, apesar de já ter completado outras quatro edições.

— Para conseguir completar o álbum, as pessoas vão gastar quase mil reais, no mínimo. 

— Isso é um absurdo! 

Encarei o totem de novo e, suspirando, escolhi o combo com o pacote. Paguei e esperei o número do pedido ser chamado, mais ansiosa do que eu queria admitir.

Quando meu pedido foi chamado, peguei o combo, coloquei o lanche na mesa, rasguei o envelope apressadamente e passei as figurinhas animada. Dentre elas, atletas desconhecidos, como um jogador do Japão e um mexicano. Os outros eram mais familiares, como Bradley Barcola, da França, Enzo Fernandez, da atual campeã, Argentina, e o time da Espanha. 

Mas a graça nunca foi conhecer todos os jogadores. Ela estava no ritual de comprar os pacotes na banca e me juntar ao meu avô para comentar cada figurinha nova. Comemorávamos como se todos os jogadores fossem craques, mesmo sem saber quem eles eram.

Olhei para as figurinhas na minha mão mais uma vez. Hoje em dia, moro em outro estado e, por conta da distância, temos novas rotinas. Mas quando vi aqueles pequenos papéis, foi impossível não lembrar dele.  

Todo sábado de manhã, meu avô me levava para trocar figurinhas em uma banca no centro da cidade. Era ele quem ficava responsável por carregar a lista das que faltavam, conferindo e riscando os números a cada troca. 

 Nem percebi meu amigo me cutucar e perguntar no que eu estava pensando enquanto olhava para as figurinhas.

Sentada naquela mesa da praça de alimentação, repeti mais uma vez que  não iria fazer o álbum da Copa por conta do preço absurdo dos pacotes – R$ 7,00, onde já se viu !?. Enquanto guardava as cinco figurinhas na carteira, porém, percebi que não era só isso. 

Eu não sei colecionar figurinhas sozinha.

Ana Carolina

Ana Carolina Rodrigues

anacrcarvalho9@gmail.com
26.1
Des-armazenando

Des-armazenando

Abro a caixa de entrada do meu email. Há 1720 mensagens. Pesquiso “ifood”, apago todas as notificações. Agora são 1690. Fuço de novo a página inicial. Tiro as do Linkedin, Uber, Shopee e de uma marca de capinhas online que não importa quanto eu tente, não consigo cancelar a assinatura. 

Entro no Whatsapp, e a tela preta com sinal de alerta aparece na minha tela: ‘não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. Suspiro irritada e abro a galeria. Apago capturas de tela com indicações de creme para cabelo, livros que nunca vou ler, maiôs que nunca vou comprar e cortes de cabelo que não vou fazer. Volto ao whatsapp: ‘não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. 

Arrasto pra cima e analiso todos os aplicativos presentes no layout do meu celular. Desinstalo Youtube e CapCut, posso usá-los  no computador. Olho pro meu jogo de cidadezinha, que passei meses construindo. Com aperto no coração, o apago. Limpo o cache de todos os aplicativos. Por garantia, entro na galeria de novo e apago alguns dos vídeos que fiz com meus amigos no restaurante mexicano. 

Com expectativa, abro o Whatsapp. ‘Não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. A notificação rende uma visita ao meu gravador. Apago entrevistas do meu primeiro semestre de faculdade com certo saudosismo, além de alguns arquivos perdidos sobre o funcionamento da divisão celular da aula de biologia do 9°ano.

Respiro fundo e pela milésima vez abro o Whatsapp. Confiro a tela agora, sim, com todas as minhas conversas. Comemoro. Clico na mensagem da minha amiga “Sábado tá de pé?”. Começo a formular a resposta quando chega outra notificação. 

“Aliás, esqueci de te mandar as fotos de semana passada, né?” – 16 notificações.

Meu celular trava, o touch não funciona e prendo a respiração quando sou obrigada a sair e entrar no aplicativo de novo. Quando abro, aquele tom de preto opaco ocupa toda a minha tela, com os dizeres escritos de forma opressora: ‘não há armazenamento suficiente para novas mensagens’. Eu grito.

Ellen

Ellen Ramos

ellen.s.rammoss@gmail.com
26.1
Chega de saudade

Chega de saudade

Era dia 10 de abril quando vibrou uma notificação no meu Whatsapp. Recebi uma mensagem com tom de vitória do meu grupo de amigos de Cabo Verde. “Gente, vencemos. Só 3 mil reais a passagem ida e volta”. O texto veio acompanhado de emojis de emoção e de dois prints que confirmavam o que anos de rumores não conseguiram. O retorno de voo direto do Brasil para Cabo Verde. Criou-se uma rede de comemoração, surpresa e incredulidade. “Meus Deus, que bênção. Está realmente confirmado?”, perguntavam uns, enquanto outros já se declaravam prontos para o embarque. “Se for verdade, eu com certeza vou estar lá esse ano”. A minha reação foi de “Graças a Deus”, acompanhada de uma figurinha dizendo “me sinto pronta”

Não era exagero. Para quem vive a diáspora, o preço da passagem aérea não é apenas um dado econômico, mas, sim, um encurtamento da distância entre o país onde você precisa estar para se tornar o que você sonhou e o país de origem, onde você nasceu, cresceu e se sentiu protegida pelos seus. A conversa no grupo continuou:

“Vendo e acreditando agora”.

“Eu ainda não acredito, só estando dentro do avião a caminho”.

“Pois é, só colocando o dedo nos furos da mão de Jesus, igual o Tomé, pra crer”

Desde o ano de 2020, quando a Cabo Verde Airlines interrompeu suas viagens, o trajeto entre Brasil e o arquipélago tornou-se inacessível. Sem voos diretos, restavam apenas conexões exaustivas de até 24 horas e passagens que chegavam aos 14 mil reais em classe econômica. Para os cabo-verdianos, principalmente para os estudantes, o custo de visita à terra natal triplicou, transformando o oceano em um muro intransponível. Foram seis anos de saudades acumuladas e falsas esperanças.

Em 2026, a promessa finalmente foi cumprida. O muro que separava o povo cabo-verdiano da sua terra se transformou em uma ponte. Com a confirmação do primeiro voo direto saindo de Recife, o reencontro deixou de ser uma possibilidade para se tornar um plano concreto.

Com essa notícia, até as conversas de vídeos chamadas se tornaram diferentes. O triste “talvez no ano que vem” das mães deu lugar à ansiedade e à expectativa do reencontro. “Ô mãe, quando eu chegar vou querer comer o seu cuscuz, quero que você prepare pra mim o congo, a cachupa, frango assado, com batata frita e ketchup e maionese”. Pedir frango assado para minha mãe pode parecer até estranho, afinal, não tem frango no Brasil? Tem, mas comer o frango de cabo-verde, com o toque e o tempero da minha mãe, é algo parecido com  reconexão,  com sentir-se em casa. Meu irmão também tem seus desejos de chegada. “Estou com muita saudade da ‘Kriola’, cerveja cabo-verdiana, pode ir guardando uma caixa para mim”. “Guardo até duas, meu filho. Tudo o que vocês quiserem”. 

A expectativa é tanta que transborda para as gerações mais novas. O meu sobrinho está até imaginando como será a ceia de natal, mas já com a consciência da finitude do momento. “Nossa, vovó! Este ano será especial. Minha mãe, o tio Carlos e a tia Alaíde estarão todos aqui, só vai ser triste o dia em que eles tiverem de retornar”. 

Mas por agora o foco é outro. O caminho de volta para Cabo Verde nunca pareceu tão perto. 

Alaíde

Alaíde Gonçalves

alaidejoseanegoncalves@gmail.com
26.1
Diamante

Diamante

Do banheiro do andar de cima se ouvem os gemidos. Desço as escadas para acudir minha avó, que precisou trocar de fralda no meio da noite, e meu avô, com quase 90 anos, não consegue virá-la. É o segundo dia desde que Marlene quebrou a perna. Vai ter que ficar dois meses de cama, e ela é a última pessoa que podia ter quebrado uma perna.

Estávamos comemorando as  bodas de diamante, 60 anos de casados de Marlene e José. Ela, que na verdade prefere ser chamada de Toninha (nasceu no dia de Santo Antônio), fez um almoço para celebrar a data. Irmã, filha, neta, sobrinhos e agregados reunidos.

— Ele não foi um bom companheiro. Pai e marido tudo bem, agora, companheiro, não!

José sempre ficava quieto enquanto Toninha falava dele.

Do outro lado da mesa, a irmã mais nova de Toninha (que já não era tão nova) falava com uma sobrinha.

— A mulher recebe o cuidado da mãe até certa idade, depois, não, ela passa a ter mais responsabilidades e tem que cuidar dos outros. O homem continua recebendo, ele não aprende a dar, só a receber, por isso são dependentes da gente. Temos que agradecer por ter tido filha mulher.

Toninha continuava a falar de José:

— Ele é egocêntrico e o filho puxou ele, eles não fazem por mal, mas não conseguem ver o outro.

Depois do almoço (e de algumas  cervejas), Toninha foi entrar no quarto e tropeçou em uma poltrona, caindo de joelho no chão. Todo mundo foi ver a cena.

— Quem teve a ideia de girico de por essa poltrona aí?

— Foi ela! Graças a Deus, se não alguém ia ouvir.

— Puta que o pariu, foi minha perna boa ainda, podia ter sido a ruim — gritou Toninha, no chão.

Ela seguiu mancando até o fim da festa, quando os convidados foram embora, ficando apenas a família da filha, que a estava visitando.

— Vocês não vão sair?

— Não, eu vou ficar aqui com você, e se você precisar fazer xixi?

— Eu faço na mão e jogo no chão.

Marlene, que não é conhecida por sua paciência, tentou ao máximo dispensar a família, sem sucesso. No dia seguinte, não conseguiu fugir, teve que ir ao médico: tíbia quebrada, dois meses de cama.

– Quando a coisa mais importante da vida de alguém é  como ela vai conseguir fazer cocô, tá na hora de ir embora, mesmo.

 Sempre acostumada a fazer mil coisas, agora a idosa é tomada pela melancolia.

 — Curioso isso de você querer morrer, mas sentir vontade de fazer coisas que você sabe que não vai conseguir. É como se tivesse uma ópera que você quer ver, só que é em Moscou, você sabe que não vai. Esses dias eu vi que vai inaugurar, em 2030, o trem São Paulo – Campinas. Pensei, “puxa vida, queria estar viva pra andar”, mas eu não vou.

— Você pode sim, vó, nunca se sabe.

— Eu não quero, Deus me livre! Tadinho do meu gordo, seu avô fica preocupado, não pode acontecer nada com a faz-tudo dele. Ele não sabe fazer nada sozinho. Nada!

— Eu sou inútil — diz o avô, do outro lado do quarto, sem tirar os olhos da tv.

De noite, quando ouvi os gemidos e fui ajudar  minha avó, assumindo o lugar do meu avô, eu o vi, antes de sair do quarto,  tirando as presilhas que ela esqueceu de tirar do cabelo.

Click, clack. Fechou uma por uma.

Ela estava de olhos fechados. Ele guardou as presilhas na gaveta da mesinha do lado da cama e se deitou.

Ela abriu o olho uma última vez, antes de eu apagar a luz pra sair do quarto, e olhou para o marido.

— Obrigada, gordo.

Sofia

Sofia Verissimo

sofia.nverissimo@gmail.com
26.1
Primeira impressão

Primeira impressão

 Sempre ouvi que Nova York não dorme. 

No primeiro dia, achei a cidade terrivelmente barulhenta. As luzes da Times Square combinadas com as buzinas no trânsito, a risada das pessoas, os cliques e flashes de câmeras, a rapidez com que os moradores andam, a pressa com a qual todos convivem. Não entendi o que tinha de bom naquilo tudo.

No segundo dia, caminhei pelo Central Park, vi que ali as pessoas se acalmam, andam devagar, conversam tranquilas, olham ao redor. Vi famílias, casais, todas as raças e etnias do mundo, cada uma em seu piquenique.

No terceiro, peguei o barco para a Estátua da Liberdade, passei nas pontes, vi a vida normal do Brooklyn, subi no Empire State, fui no museu da imigração. Entendi a história, a força das pessoas que construíram a cidade.

No quarto dia, caminhei pela Broadway até chegar em Wall Street. No distrito comercial, vi os homens que trabalham e controlam o dinheiro do mundo todo, que decidem sem pensar no passado, que olham para o futuro como o único lugar onde querem estar. À noite, desci para um dos porões do Jazz, ouvi a música acelerada se tornar aos poucos uma melodia calma, com os trompetes e saxofones entrando em harmonia conforme o uísque descia pela minha garganta.

Vi, no quinto dia, tomar forma uma manifestação pelos direitos civis, contra a brutalidade da polícia, a favor do povo palestino, contra a eleição de Donald Trump. Vi o metrô se encher de cores quando a torcida do New York Knicks entrou, pegando a linha que levava ao Madison Square Garden para as finais da NBA. 

Vi José, o mexicano que trabalhava na conveniência na esquina do meu hotel, fazendo as mesmas pizzas sempre. Sorrindo para mim com o mesmo sorriso, do dia em que cheguei ao dia em que saí.

No oitavo dia, subi ao topo do maior edifício comercial do centro da cidade. Vendo a vista, as milhares de janelas com luzes acesas nos prédios, senti a vida pulsar na cidade como nunca senti antes em lugar algum. 

No avião, no silêncio de uma madrugada sem fuso-horário, comecei a pensar em mim. Me vi nas ruas, no trabalho, no parque, no jazz, na noite, nos bares, no metrô.

Tentei lembrar do que havia me irritado na primeira impressão que tive, mas não consegui. 

Sempre ouvi que Nova York não dorme. 

Pensando bem, realmente não tem por que dormir.

Foto Nova York
Foto da cidade de Nova York - Foto: Victor Hugo Viegas
Victor Hugo Viegas

Victor Hugo Viegas

viegas.vhs@gmail.com
26.1
Bolsas de viagem

Bolsas de viagem

Estava sentada numa cadeira branca, dessas com o braço fino demais para apoiar o antebraço ou o cotovelo de maneira confortável, por isso, permaneço com as mãos unidas entre as pernas. O ambiente tem luzes brancas e fortes, as quais não estou acostumada, e um cheiro limpo, talvez de soro fisiológico. Todas as cores que vejo ao meu redor são frias e sem graça. Azuis muito neutros, cinzas chatos, brancos sem vida.

À minha frente, minha irmã acaba de sair da sala com seu marido, ambos meio distraídos, meio não ligando para a falta de vida do lugar, meio cumprindo tabela, meio querendo ir embora. Quando restamos apenas nós duas no quarto, decido observar a senhora que já foi cheia de vida, mas hoje sequer se lembra da própria história.

Apesar da falta de proximidade com ela, quase perto de zero, começo a refletir enquanto a observo. Ela parece tão calma, tão serena. Não dorme, encara o teto com um leve sorriso no rosto e um olhar tranquilo. Imagino o que está pensando. Será que conseguiu resgatar alguma memória no fundo de sua mente?

A verdade é que meus pais sempre me botaram medo sobre a tal velhice. Que dependemos de outras pessoas. Que não pensamos por conta própria. Que nem lembramos dos momentos mais felizes de nossas vidas. Durante um tempo, isso me incomodou. Quando eu tinha por volta dos 7 ou 8 anos, quando via alguém de idade isso me ocorria. Depois de um tempo eu esqueci desse problema, nem um pouco grande naquela época.

Até me sentar na frente daquela senhora a qual mal conhecia, mas que me sentia tão compadecida como se fosse minha própria mãe. Ela estava num asilo de idosos após seus três primeiros filhos se recusarem a cuidar dela, pois dava “trabalho demais”, e o quarto filho, meu cunhado, ter recorrido àquele lugar com muita relutância após se endividar ao tentar bancar os remédios.

Começo pensando o que ela sentia ao ver os filhos que criou se recusando a cuidá-la. Depois lembro: muitas vezes, ela nem os reconhecia. Se sentia mal? Ou ao acordar, não sentia nada? Seria como recomeçar a vida todos os dias? Ou seria como se sentir aprisionada, com algo bem no fundo do inconsciente tentando te levar de volta ao passado, às coisas simples, à lógica do dia a dia, às memórias e lembranças dos momentos mais felizes e tristes, os mais marcantes?

Por um tempo, falei para meus amigos e familiares que preferia morrer jovem enquanto ainda “funcional e independente” a passar anos deitada, presa por remédios intermináveis e uma mente confusa. Hoje, olhando para aquela senhora tão doce, não sei se ainda penso o mesmo. Sua bolsa de viagem, cheia de memórias, ainda continuava com ela.

Sou arrancada de meus pensamentos profundos quando minha irmã volta ao quarto, me chamando para ir embora. Ela estranha eu ter ficado ali com sua sogra, pois fui apenas para acompanhá-la. Antes de sair, ainda no batente da porta, olho novamente aquela figura tão frágil, mas tão forte. Tão doce e, talvez, não tão perdida. Ela me olha de volta. Sinto um abismo entre nós, apesar de vê-la bem ali. 

Por um instante, penso que a velhice nunca tenha sido o esquecimento. Talvez seja apenas o momento no qual a bolsa de viagem fica pesada demais para ser carregada sozinha. As lembranças continuam todas lá, mas já não encontram o caminho de volta até a boca. Ao sair do quarto, entendi que o que mais assusta não é perder as memórias. É olhar para alguém que passou uma vida inteira enchendo essa bolsa e perceber que o mundo, por não conseguir mais abri-la, insiste em dizer que ela está vazia. Acho que a bolsa de viagens daquela senhora ainda estava inteira, e bem cheia. Talvez ela tenha só perdido o zíper.

Samara

Samarah Susie

samarahsz.oliveira@gmail.com
26.1