Tempestade (1)

O tornado passou por aqui

Há mais de meio século, o Paraná vivia uma tragédia climática que caiu no esquecimento


Estado de calamidade pública, ventos de 250 km/h, 90% da cidade destruída e seis vidas perdidas. Esse foi o rastro deixado pelo tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu, no sudoeste do Paraná, em outubro de 2025. Mesmo com o alerta antecipado da meteorologia, nada conteve a devastação. O que resta agora são os escombros e a pergunta entre aqueles que foram atingidos: “como pode? Nunca passamos por nada parecido”. O cenário lembra o da primeira tragédia climática registrada no Brasil, há 66 anos, no mesmo estado do Paraná.


Até hoje o que aconteceu nos extensos dois quilômetros da Fazenda Fortaleza, em Palmas, não tem definição. Tornado, furacão, ciclone, tormenta ou vendaval? A meteorologia, os alertas e a previsão do tempo não chegavam até lá. Ali o tempo era lido no canto diferente de um pássaro, na pressa das nuvens e no cheiro da chuva antes de cair. Para a ciência, nada daquilo existiu, pelo menos não oficialmente, tanto que as buscas em bases de dados não apontam qualquer artigo sobre o tema. Mas, para quem estava lá, o tornado nunca parou de passar.


Sexta-feira, 13 de agosto de 1959

 

Amanheceu. Era inverno, mas o sol quente e o céu limpo anunciavam que a primavera logo ia chegar. As máquinas barulhentas da serraria trabalhavam e as crianças corriam descalças pela fazenda que abrigava 12 casarões de madeira, onde moravam famílias como os Tonial e Cesca. Em volta das casas, plantações bem cuidadas, galinheiros cheios e bois que pastavam pelos gramados. Flora Tonial — carinhosamente chamada de Tata — atendia ao pedido de sua mãe e estendia roupas na cerca. O vento, típico da cidade, balançava os tecidos devagar, como quem avisava que logo estariam secos.


A mulher de 23 anos ainda não havia terminado a tarefa quando percebeu o tempo escurecer. Eram 16h e a chuva chegou mansa. Em poucos minutos, a serenidade foi se perdendo. O granizo começou a cair e o vento assobiava forte. A mãe de Tata parecia sentir o que se aproximava. “Minha filha, cuide do seu pai e dos seus irmãos, porque hoje é meu dia”, disse, com uma calma que ninguém entendeu.


Estava anoitecendo e a chuva não dava trégua. Na casa de Marilene Cesca, a mãe preparava o jantar ouvindo a chuva e as árvores que chacoalhavam do lado de fora. Perto das 19h, o vento ficou mais forte e, em segundos, tudo voou.


Tata, presa embaixo do fogão à lenha e com a mão queimada, tentava entender a destruição. Ao lado dela, seus irmãos e sua mãe estavam soterrados pelos escombros. Entre os pedidos de socorro, ela ouvia gritos distantes e choros que pareciam vir de todos os lados. Esperaram o que pareceu uma eternidade, até que, quando o vento e a chuva cessaram, o vizinho da casa ao lado chegou. Tirou Tata, sua mãe e seus irmãos dos destroços. Eram a única família sem vítimas fatais.


Ainda com dores e feridas, sem pensar, saíram para prestar socorro àqueles que também foram atingidos. A primeira casa que Tata procurou foi a de Marilene. A menina, com apenas cinco anos, estava com as duas pernas e os dois braços quebrados. Imóvel. Muito pequena, não entendia que ali havia perdido o pai, a mãe e os dois irmãos. A família inteira. A janta, preparada com o mesmo carinho de todos os dias, não estaria mais na mesa.


Aquela noite se transformou em uma corrida. Quem ainda conseguia ficar de pé deixava a própria dor de lado para ajudar quem precisava. A fazenda isolada, a quase 38km do centro de Palmas, parecia ainda mais distante sob o breu que tomou conta da região. Sem telefone, sem luz, sem qualquer forma de comunicação, os pedidos de socorro pareciam se perder no vazio.


A ajuda demorou. Os sobreviventes, agonizando, esperaram por horas. Aos poucos, começaram a chegar moradores de propriedades vizinhas e militares, chamados às pressas quando a notícia finalmente os alcançou.


O dia amanheceu e o cenário parecia irreal: árvores retorcidas, troncos arrancados pela raiz, tábuas da serraria espalhados e casas completamente destruídas. O silêncio era quebrado pelos helicópteros militares que sobrevoavam a fazenda. Um deles pousou com o objetivo de levar os feridos graves até Curitiba — Marilene entre eles.


A menina foi colocada em uma maca. Seus braços e pernas quebrados foram imobilizados do jeito que dava, diante da escassez de recursos. Ao vê-la, o médico responsável pelo transporte murmurou: “essa aqui não sobrevive”.


Palmas inteira estava desolada. Os jornais Gazeta do Povo, Diário da Tarde e O Estado do Paraná registraram que os ventos chegaram a 250 km/h; que roupas e documentos foram encontrados muito longe; que o jipe da serraria — com mais de uma tonelada — foi arremessado sobre a copa de uma árvore. Ninguém nunca tinha visto nada parecido. Muitos se apegaram à superstição naquela sexta-feira 13, buscando algum sentido no que parecia impossível de explicar.


Na tarde que se seguiu à tragédia, os corpos dos 35 mortos foram recolhidos e empilhados sobre as caçambas das caminhonetes que seguiriam rumo à cidade, que tinha 13 mil habitantes, de acordo com dados oficiais da Prefeitura. O cortejo fúnebre foi longo, silencioso e atravessou as principais ruas. Um número incontável de moradores acompanhava a passagem dos veículos, caminhando ao lado deles como quem tenta, de alguma forma, sustentar o peso do luto.


O velório aconteceu no antigo Clube Caça e Pesca, onde hoje fica o Hotel Coroados. Dentro do salão, os corpos foram dispostos lado a lado, envoltos em algodão branco. Lair Tonial, com 16 anos, estava no “coleginho”, internato de meninos no centro da cidade. Foi ali, de longe, que recebeu a notícia que não poderia compreender de imediato. “Um tornado destruiu tudo, a casa se acabou, não volte, fique e espere os corpos”, disseram. Foi com esse aviso seco que descobriu a perda do pai, da mãe e de seis dos sete irmãos.


O rapaz conhecia todos que moravam na fazenda. No velório, coube a ele fazer o reconhecimento dos corpos. Ele lembra de ter passado por cada um, dizendo os nomes ao militar que o acompanhava. Um deles era o seu irmão caçula, que, no dia anterior, havia pedido para ir junto até o coleginho. Lair tinha negado. Entre tanta dor, era o único na cidade que conseguia cumprir aquela tarefa, até hoje a mais difícil de sua vida.


Lair e sua irmã Glorisse precisaram aprender a seguir sozinhos. Tata e sua família passaram os meses seguintes tentando reconstruir aquilo que o vento havia levado. Marilene permaneceu 40 dias internada em Curitiba até se recuperar. Quando recebeu alta, foi morar com os avós. O que por décadas uniu todos eles foi a mesma dor, aquela que caiu no esquecimento da ciência, e, aos poucos, até dos moradores de Palmas. Mas quem sobreviveu não esquece. Lair, hoje com 89 anos, nunca esqueceu. Tata também não. Glorisse faleceu aos 84 anos sem nunca ter esquecido.


Em uma sexta-feira, em outubro de 2025, Marilene contou a história com longas pausas, tentando conter o choro. Mesmo pequena na época, ela sabe descrever o que viveu e o quanto sofreu nos anos que se seguiram. Com 71 anos, durante a entrevista, respirou fundo antes de dizer: “lembro de nós felizes, juntos e brincando. Todo dia 13 de agosto peço que rezem uma missa para eles. Espero que, onde estiverem, estejam bem”

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Valentina Orlandi

@valen_orlandi
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Sombras do Centro

A Figueira Centenária, no centro da Praça XV de Novembro, costumava ser um dos pontos de encontro mais populares da cidade. Foto: Ana Muniz.

Algumas pessoas ainda lembram de quando o fantástico circulava pela Ilha da Magia, conhecida pelas suas bruxas, sereias e lobisomens. Eli Ramos, rendeira manezinha de 70 anos, recorda das reuniões no engenho de farinha de seu pai, nas quais eram comuns as lendas e relatos sobrenaturais. Diz ter visto três vultos na Ponta das Almas quando era adolescente. “Depois que botaram luz elétrica, a gente não viu mais nada. Hoje é difícil ver assombrações porque elas não queriam luz, e é tudo iluminado”.

Mas existem pontos no Centro Histórico da capital que resistem às luzes e ao contemporâneo e, assim, atraem o sobrenatural. Não à toa, em seu coração repousa uma velha figueira de mais de 250 anos. Quem vai à Praça XV de Novembro com frequência provavelmente já viu turistas ou crianças circulando em torno da árvore, sob a penumbra de seus extensos galhos sustentados por hastes metálicas. Sejam uma, duas ou sete voltas (cada um tem sua versão da história), ao completar o ritual, o praticante supostamente terá mais chances de casar. Mas, cuidado: há quem diga que rodar no sentido anti-horário dá em
separação.

O que nem todo turista ou morador da ilha vê é o que acontece nas sombras do Palácio Cruz e Sousa, antes chamado de Palácio Rosado. O sobrado de dois andares com paredes cor de rosa foi “Casa de Governo” e, desde 1986, é a sede do Museu Histórico de Santa Catarina. Muitas pessoas viveram e passaram por aquele espaço — e, embora não seja mais uma residência, muitas outras ainda vivem por lá.

Veronice Nogueira tem 54 anos, 28 deles como funcionária do museu. É mediadora, recebe e guia visitantes. Tão logo começou a trabalhar no Palácio, Veronice ficou sabendo das lendas urbanas sobre fantasmas que assombram a construção rosada. No início, duvidou, chamou de “fantasias”. Agora, fala com segurança: “realmente há algo sobrenatural. Acredite ou não, mas há”.

A Figueira Centenária, no centro da Praça XV de Novembro, costumava ser um dos pontos de encontro mais populares da cidade. Foto: Ana Muniz.

Paredes contam histórias

Veronice e Simone Coelho, também mediadora do Museu, estavam sentadas nos bancos do corredor em frente à sala de música, no primeiro andar. O Palácio Cruz e Sousa deveria estar vazio naquele momento. As portas dos cômodos estavam fechadas, era período de restauração. As duas conversavam e descansavam até serem interrompidas. A porta da sala de música se abriu, mas não tinha vento. Expôs uma pequena fresta e fechou. Ao abrir pela terceira vez, Veronice disse: “parece que tem alguém nos espiando”. Mal acabou de falar e a porta bateu com força. Assustadas, as duas mediadoras se entreolharam. Foram parar na administração, onde encontraram outras funcionárias. “Gente, vocês não sabem o que aconteceu”, começou Veronice.

Experiências desse tipo não são incomuns entre quem trabalha ou trabalhou no Museu. Alguns escutam barulhos. Os salões espaçosos nos quais tudo ecoa escondem poucos ruídos. Com o devido silêncio, já conseguiram ouvir muita coisa: passos, movimentos de portas e janelas, vozes e conversas indistintas, o velho piano da sala da música sendo tocado… Um dos sons mais conhecidos são as badaladas de um relógio carrilhão que não funciona mais. Segundo os funcionários, ele tocava pontualmente às três da tarde. Quando a equipe passou a esperar pelo badalar, ninguém mais ouviu.

Eliatar Anselmo, policial militar de 55 anos, trabalhou no Palácio entre 2018 e 2021. Em julho de 2019, pela manhã, iniciou seu turno antes do edifício abrir para visitas. Além dele, apenas outro vigilante estava no Museu. Enquanto o colega buscava café no andar de cima, Eliatar permaneceu no cômodo de funcionários abaixo do terraço e começou a escutar passos. Uma voz feminina resmungava. Os sapatos de salto alto fizeram barulho no piso de madeira pelo salão do térreo, onde ficam as exposições temporárias, e pararam próximo ao banheiro. Imaginando que poderia ser uma amiga, outra funcionária, abriu a porta e gritou em direção ao cômodo, vazio naquele momento: “estás brava? Aconteceu alguma coisa?”.

O salão estava fechado. E escuro. Exibia uma exposição com diversos manequins usando vestidos de época. “Tá querendo me assustar?”, perguntou Eliatar. Por fim, alertou a quem ele pensava ser a colega que entraria no banheiro. Atravessou a porta, mas não encontrou ninguém. Voltou à salinha de funcionários e saiu para a parte externa do Palácio. De lá, perguntou gritando ao vigilante onde estava Camila. Ela ainda não havia chegado. “Nunca tinha visto nada e continuo achando que foi coisa do meu subconsciente”, afirma Eliatar.

Não são apenas os funcionários: visitantes de diversos lugares do mundo também encontram o sobrenatural dentro do sobrado rosado. Às vezes, são pessoas que nunca viram espíritos e descobrem uma sensibilidade aguçada exatamente ali. Algumas enxergam vultos as seguindo, mulheres em vestidos de época, homens sentados em locais proibidos. Mas há quem passe por experiências mais intensas.

Numa data em que o sol não quis dar as caras, Veronice guiava uma família pelo Museu. De acordo com a mediadora, os fantasmas aparecem mais em dias como aquele. “É sempre assim, chuvoso e nublado”. Na visita, apresentou uma velha caixa de som que ainda funcionava. Encantada com o dispositivo, a família pediu para ativá-lo. Assim que a música começou a ecoar, a mãe petrificou. Em seguida, chorou incontrolavelmente. Todos se desesperaram. Mas precisavam esperar o fim da música — a caixa de som não podia ser desligada. Quando o dispositivo silenciou, a mãe voltou a si. Olhava em torno, confusa. Segundo ela, fora transportada para outro lugar, outro plano. Foi a sua primeira experiência daquele tipo. “Ela não era espírita, kardecista, umbandista, nada”, diz Veronice, “foi algo que a gente não sabe explicar”.

Entre os funcionários, há uma regra: a partir das 19h, todos devem sair do Palácio. Afinal, se sua aparência já é “sugestiva”, como diz Márcia Escorteganha, restauradora do Museu, quando há sol, quem dirá à noite. Quando o Museu fecha, as luzes das áreas de visitação são apagadas. Nesse caso, as únicas regiões que escapam do escuro são as atingidas pela luz que atravessa as claraboias. Se assombrações realmente gostam do escuro, faz sentido que as do sobrado prefiram ficar pelo andar de cima, com suas sombras e móveis antigos.

Diferente de muitos da equipe, Maria Sueli de Jesus não se assustava com o andar superior. “Tinha medo dos vivos, desses daí não”, afirma. Ela foi zeladora durante uma década, até se aposentar em 2023, aos 69 anos. Durante esse período, precisou trabalhar à noite algumas vezes. Quando ocorriam eventos noturnos, ela fazia a faxina. Se as comemorações passavam das 22h, último horário do ônibus que Sueli pegava para casa, precisava passar a noite no sobrado com o vigia noturno.

Em uma dessas ocasiões, a festa não parou quando os convidados foram embora. Já era madrugada e Sueli esperava na guarita do Palácio. Estava sozinha, o vigia havia saído para tomar um café, quando percebeu que da sala de jantar, logo acima da guarita, vinham barulhos: brindes, conversas, louças batendo, pessoas dançando. Os fantasmas faziam sua própria comemoração. Quando o vigia voltou, os sons continuavam. Duraram cerca de 20 minutos. Com medo, nenhum dos dois conferiu a sala de jantar.

Há quem quebre o toque de recolher dos funcionários às 19h de vez em quando, mas alguém precisa passar a noite lá todo dia. Élcio Finger trabalhou como vigia no Museu por 18 anos, sendo os oito últimos no plantão noturno, das 19h às 7h da manhã. Durante a noite, com portas e janelas trancadas e mais ninguém no sobrado rosa, qualquer barulho é ainda mais misterioso. Passos, portas e janelas batendo, “eu ouvia tudo isso nitidamente”, afirma, “ficava um ar meio Uma Noite no Museu”. Além dos ruídos, via flashes, vultos tão rápidos que não dava nem para saber se eram gente.

Poucos reconhecem rostos nas figuras que enxergam. Porém, coincidências entre um relato e outro constroem personagens populares para o Palácio. Uma das mais famosas é Joaquina Ananias Xavier da Luz, mãe do ex-governador Hercílio Luz, falecida em 1884. Os íntimos a chamam de Dona Joaquina. Visitantes dizem avistar uma mulher vestida com trajes de época e, ao ver o quadro dela na sala de jantar, garantem: “foi essa mulher que vi”. Tanto Simone quanto Veronice testemunharam situações como essa.

A Figueira Centenária, no centro da Praça XV de Novembro, costumava ser um dos pontos de encontro mais populares da cidade. Foto: Ana Muniz.

A fantasma é tão reconhecida que, às vezes, vira brincadeira entre a equipe do Museu. “Vocês não vão dar tchau para a Joaquina?”. Márcia, a restauradora, questionou, em tom de piada, algumas colegas que passavam pela sala de música enquanto trabalhava. Se objetos e paredes de fato guardam histórias, ninguém melhor que a responsável pela preservação do espaço para entendê-las.

Seus colegas a conhecem por trabalhar com muita concentração e imersividade. Em um certo dia, restaurava o mural do salão azul, no topo de um andaime. De repente, o equipamento tremeu. Seus utensílios, pincéis, tintas, começam a cair no chão. Aos gritos, pediu para que aquilo parasse. “Por favor, eu estou arrumando, deixando o lugar bonito!”. O andaime estabilizou e as coisas pararam de cair. Márcia, então, retomou o trabalho.

A restauradora ralhava com um fantasma menos popular nas lendas urbanas que Dona Joaquina: o ex-governador Jorge Lacerda. Márcia nunca o viu nem ouviu, mas sente sua presença. O paranaense morreu em 1958, em São José dos Pinhais, no Paraná, interrompendo seu mandato no governo catarinense. Apesar da morte em seu estado natal, Lacerda passa sua pós-morte na Ilha da Magia (em corpo e espírito). Foi enterrado no Cemitério São Francisco de Assis, no bairro Itacorubi, e o esquife em que seu caixão foi colocado está no salão azul do Palácio Rosado. O cômodo recebe outros dois nomes: salão nobre ou salão fúnebre. Este último devido aos velórios de figuras políticas e religiosas que ocorreram lá — entre elas, o ex-governador Lacerda.

Segundo a restauradora, cada fantasma tem um cômodo favorito. Joaquina prefere ficar na sala de música e na de jantar. Jorge Lacerda costuma ficar no salão nobre. Outro ex-governador, Ivo Silveira, já apareceu para ela no quarto com a claraboia lanternin. Há ainda uma noiva que circula pelo andar de cima. E nem a administração, bem iluminada e moderna, escapou. Por um tempo, Márcia sentiu a presença de um vulto de criança perto de uma de suas colegas. Logo depois, a mulher engravidou.

Após tantas histórias, os funcionários começam a especular sobre o porquê desses espíritos viverem no Museu. Alguns, como Lacerda e Joaquina, figuras relevantes para a memória e a política catarinenses, parecem ter relações mais explícitas com o espaço. Outros, como a noiva, a criança e pessoas não identificadas vestidas com roupas de época, são mais enigmáticos. “Acredito serem as pessoas que viveram aqui”, opina Veronice, “não desgarram daqui e ficam circulando. Pensam que ainda estão vivos”.

 

Por incrível que pareça, os fantasmas do Palácio não assustam o público — pelo contrário, atraem visitantes. De acordo com Simone, se a imprensa fala qualquer coisa sobre as assombrações, chegam mais pessoas. Inclusive, há alguns anos, foi uma reportagem de televisão sobre a noiva do andar de cima que despertou na mediadora a vontade de conhecer o acervo. Três semanas depois, começou a trabalhar lá. Hoje, quando, nas visitas, perguntam sobre as lendas, Simone já responde brincando: “vocês acham que se eu tivesse visto um fantasma eu ia estar aqui para contar a história?”.

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Ana Muniz

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A dor maior é a espera

11 de outubro de 2023 – 19h04

Hospital Infantil Joana de Gusmão, bairro da Agronômica, Florianópolis. São 168
leitos espalhados por 22 mil m², que abrigam também ambulatórios e doze unidades de internação. Cai uma tempestade que prenuncia um dos meses mais chuvosos do ano. Na área externa da emergência, a parte coberta que protege da chuva não é suficiente para as 19 pessoas ali presentes. Uma menina em uma cadeira de rodas se esgueira dos respingos de chuva que caem no seu braço. A mulher ao seu lado reclama. O aplicativo de corridas cancelou mais uma das suas tentativas de ir embora do hospital.

Na chegada, me apresento para a recepcionista. Um pouco desconfiada, ela permite que eu fique. Pergunto sobre o fluxo de crianças atendidas. “Olha, moço, só hoje já foram 204, até que tá calmo”, responde. Os indicadores hospitalares anuais da Secretaria da Saúde de Santa Catarina mostram que o Joana de Gusmão atende, em média, 7.909 crianças por mês na emergência, ou seja, aproximadamente 263 por dia.

Faço uma análise visual e a recepção não está lotada, tampouco vazia. A cadeira desocupada no canto direito do salão me oferece uma visão ampla do local, onde 32 pessoas, entre adultos e crianças, esperam por atendimento. Um menino, com joelho ralado, me observa fazer anotações. Acho estranho o fato de ele estar sozinho. A mãe chega logo depois, esfregando álcool gel nas mãos. Ao vê-la, ele me esquece um pouco e seu rosto se transforma, reclamando de dor. No televisor, no centro da sala, começa a piscar um nome: Hiago Correa da Silva – Triagem. Mãe e filho se levantam prontamente, e Hiago caminha com normalidade apesar do ferimento.

Observo as crianças. Uma menina bem gripada no colo do pai tem uma pulseira
amarela. Ela espirra muito e o pai limpa o que sai do seu nariz.. Um outro pai, em pé, e nina um bebê que também usa uma pulseira amarela. Minutos depois, Hiago e sua mãe retornam da triagem, ele está com uma pulseira laranja. Segura a barriga e reclama de dor, mas sem chorar. A mãe pede paciência e acaricia sua mão. O menino quer ir ao banheiro. “De novo, meu filho?”. Ela pergunta se ele consegue ir sozinho, ele faz sinal que sim e sai, desta vez caminhando bem lentamente e ainda com a mão segurando o abdômen.

Pergunto o que ele tem. A mãe responde que a médica está suspeitando de apêndice. Ele está com muita dor e diarreia desde o começo da manhã. Hiago tem onze anos e ainda não tivera febre, por isso a pulseira laranja, que serve para casos de urgência intermediária. A mãe, Louise, coça a cabeça. “A gente fica preocupada porque ouve falar sempre que o apêndice tem que ser operado às pressas, mas fazer o quê, né? Tem que esperar”.

O nome de Hiago pisca mais uma vez na tela. Após 23 minutos, é chamado para o atendimento, um intervalo bem menor do que o das crianças com pulseira amarela, que ainda aguardam. Desejo boa sorte para os dois. Caso Hiago fosse operado, talvez eu não voltasse a ver o menino naquela noite. Louise não ligou para ninguém, ninguém lá fora a esperava. Ela e o filho seguem para dentro do hospital de mãos dadas.

 
11 de outubro de 2023 – 22h28

“Segura, pai, tem que segurar firme”, diz a médica. Em um intervalo de três horas, a pediatra Josiane passou cinco vezes com o mesmo medicamento nas mãos. Um inalador, com espaçador e o que comumente costumamos chamar de “bombinha”. A sala de aplicação, visível de onde eu estava sentado, permanece sempre com a porta aberta. O atendimento agora era para a menina que não parava de espirrar no colo do pai. A médica enfatiza a importância da criança não se mexer durante a aplicação para que o remédio seja eficaz. Ela entrega uma receita ao pai da menina e os dispensa. Do total de atendimentos feitos na emergência do hospital, em média, 68% são para crianças com problemas respiratórios.

Acompanho com os olhos os dois saindo, quando uma outra cena me chama atenção. Uma mulher apoia a cabeça com as duas mãos. Ela esfrega o rosto, cobre os olhos e balança a cabeça. Olha para cima e suspira. “Isso, filha, respira fundo”, diz a mãe da mulher. Sentado na cadeira ao lado, o pai dela completa: “Não pode se desesperar”. Catarina Mueller, a mãe aflita, acaba de descobrir que o filho, Bernardo, de cinco anos, vai ficar internado. Os médicos estavam suspeitando de várias coisas, inclusive leucemia. Quem me conta é a avó, Denise, depois que o marido, Volnei, entra com a filha para se despedir do neto.

“O guri é muito apegado a ele, já vai ficar chorando. Os dois, né?! Eu não entro! Por mim, quanto menos hospital, melhor”. Ela continua contando que a filha foi para emergência esperando que fosse apenas uma consulta simples. O menino tinha desmaiado e não estava conseguindo se alimentar. “Mas ela é muito nervosa. O médico disse que precisa fazer exames; daí ela já ligou nos chamando pra cá. Mas numa hora dessas…”. Volnei volta da ala de internação. “Vamos lá, que vou trazer roupas pra eles, não pode passar a noite mais ninguém, já perguntei, só a mãe”. Denise retruca. “Mas é claro que não pode passar ninguém, isso eu já sabia. Por que tu não traz essas roupas amanhã? Eles não vão trocar agora mesmo”. Os dois saem em direção ao estacionamento e seguem discutindo.

 
11 de outubro de 2023 – 23h36

Gael Maciel Dias é o que se pode chamar de um bebezão. Tem dois anos e quatro meses. Ele entra na emergência no colo da avó, Lorena. Ela nem parece sentir o peso da criança, tamanha a agilidade que demonstra para entregar os documentos na recepção. Beijando a testa do neto a todo momento, ela o balança tentando acalmá-lo. Mas Gael não chora, está sereno e olhando para tudo, atento. A avó continua andando de um lado para o outro, enquanto a funcionária começa a preencher a ficha. “Precisa do CEP, fala aí que eu nunca lembro”. Lorena é uma mulher de baixa estatura, mas ocupa tantos espaços, que só depois noto mais quatro pessoas atrás dela. A mãe e o pai de Gael, um casal jovem que entra abraçado; o marido de Lorena, que fica balançando as chaves do carro o tempo todo; e a filha mais nova, tia do bebê, marrenta e sem paciência. A família toda foi para a emergência. Enquanto a mãe do menino dita o CEP, me aproximo da avó.

“Sabe que isso aqui hoje ainda tá bom, já teve dias que cheguei com ele aqui e tive que ficar esperando lá fora, porque não cabia mais ninguém”. Lorena conta sobre os problemas neurológicos de Gael. O menino nasceu sem respirar e os médicos precisaram aspirar o recém-nascido para que sobrevivesse. Dois meses depois, a família descobriu que a criança tinha o baço aumentado. Como se não bastasse, Gael também desenvolveu problemas no fígado. “Na maioria dos dias eu cuido dele, quase nem fica na creche. Mas hoje eu precisava sair; daí deixamos lá, quando fui buscar, disseram que ele passou o dia caindo”. O menino não conseguia parar em pé. Lorena e o marido vão até um lugar vazio e tentam fazer com que o neto fique em pé na cadeira. Gael dobra as perninhas e antes de cair, a avó o pega no colo novamente.

“A minha vida é isso aqui, volta e meia a gente corre pra cá com ele. Tem médico e médica muito bom aí dentro, mas tem dias que não dão conta”. O avô, Edson, resolve falar. “Concentrou tudo aqui agora, é muita gente, como pode uma cidade desse tamanho ter só um hospital pra esse monte de criança?”, fala, apontando para quem aguarda atendimento. O Joana de Gusmão é o único hospital infantil de Florianópolis. Em 2022 permaneceu com 71% dos leitos ocupados, em média. A Secretaria de Saúde ainda está fechando os indicadores de 2023, mas informou que notou um incremento desde maio de 2023, data em que o Hospital Universitário (HU) fechou sua emergência pediátrica.

Os pais do menino se aproximam. A mãe se chama Bianca, o pai, Matheus. A mãe tira da bolsa uma fralda para limpar a boca do filho. A avó pega a fralda das mãos dela e limpa ela mesma. “Ele gosta desse desenho”, diz a mãe. Gael olha atentamente para Os Jovens Titãs em Ação. O nome dele pisca no televisor ao lado. Hora da triagem. Avó, mãe e filho entram. O restante da família vai esperar lá fora. Gael não volta da triagem. Passou direto para o atendimento, me diz o avô mais tarde, antes de ir embora. O menino ficaria em observação por 24 horas. A mãe permaneceu com ele, e por alguma exceção, a avó ficou também.

 
12 de outubro de 2023 – 03h17

Crianças são inexplicáveis. Choram por um arranhão e agem naturalmente quando estão com algo grave. Theodor, seis anos, chegou mais cedo alegre e falante. O menino vestia roupa do Homem-Aranha. Caiu na festa de Dia das Crianças da escola. Braço quebrado. Gesso. Saiu sorrindo. O herói não ia conseguir salvar a vizinhança por alguns dias. Natali, de nove anos, veio com a mãe, que segura um pano sobre seu olho irritado por um produto de limpeza. Entre a triagem e o atendimento, tiram uma selfie para registrar o momento. A bebê Gabrielly, um ano e oito meses, está de pulseira amarela. Ela me olha. Quando tosse, fecha os olhinhos, depois abre, esboçando um sorriso.

Lara e Eduarda Singer entram correndo pela emergência. As duas disputam uma corrida para ver quem senta primeiro. São gêmeas idênticas, e vestem roupas em tons Barbie. Na cabeça de Lara, uma tiara de unicórnio; na cabeça de Eduarda, uma coroa de princesa. A princesa é mais calma, perdeu a disputa e obedece à outra irmã, que fica inventando brincadeiras e dando ordens, entre uma tosse e outra. O pai e a mãe terminam de falar com a recepcionista e se juntam a elas.

Carine Singer conta que as duas têm cinco anos. Lara é mais velha por minutos. A menina está com tosse há duas semanas. O atendimento de Lara também foi rápido. Antes de entrar, ela deixa a tiara com o pai, que fica com Eduarda na espera. Pergunto porque resolveram procurar atendimento na madrugada.

“Hoje tá demais. Ela não consegue dormir, só tosse, nem o xarope tá fazendo efeito. Resolvemos vir, essas coisas não dá pra brincar”. O pai diz que preparou uma programação extensa para o feriado com as meninas. Carine volta do atendimento sem a filha. Está aflita para não deixá-la muito tempo sozinha lá dentro, veio apenas dar o recado ao marido. Lara vai tomar medicação e precisa de raio-x do pulmão, pois pode estar com pneumonia. “Só vim pegar o celular, deve demorar. Vai pra casa com ela, quando acabar a gente vai”.

Luís Cláudio Singer envolve sua esposa em um abraço demorado. Pega a filha no colo, a coloca junto deles e os três ficam grudados por um tempo. Quando se soltam, a mãe abaixa, beija a cabeça da menina, pede para ela se comportar e volta para a ala de internação. O pai, com passos que pesam como o mundo, atravessa a emergência rumo à saída. Em uma das mãos, segura a gêmea mais nova, na outra, apenas uma tiara de unicórnio.

 
12 de outubro de 2023 – 05h41

Fico sentado por mais algum tempo. Sinto vontade de perguntar se Hiago foi operado mesmo. Dezenas de crianças passaram por aquela emergência essa noite sem que fosse possível saber as histórias de todas. A maioria dos casos não são resolvidos de forma rápida. Passam por exames, aguardam diagnósticos. Em todas as mães, pais, avós, um mesmo sinal. As mãos tremem, se agitam, acarinham os filhos, apoiam, sustentam.

O clima no Joana de Gusmão é de acolhimento. O hospital tem esse nome em homenagem à beata Joana de Gusmão. Nascida em Santos, São Paulo, em 1688, ela viveu por um período em Santa Catarina, nas proximidades da Lagoa da Conceição, e se dedicou à construção de capelas e atendimento a crianças. Há um esforço genuíno dos 1.106 funcionários que trabalham lá em diminuir a dor das crianças e o sofrimento de quem cuida delas, apesar da evidente falta de estrutura e da necessidade de mais profissionais. Mesmo em uma madrugada considerada tranquila, a espera é inevitável.

O dia já está amanhecendo, quando resolvo ir embora. Bem afastada, do lado de fora, Lorena, a avó de Gael, está parada, olhando o dia nascer e fumando um cigarro. O menino segue em observação, fez alguns exames e vai fazer mais. “A espera é que nos mata, meu filho. Se eu chego aqui e o médico me diz, faz isso, eu vou lá e resolvo. Mas essa espera é que machuca o coração da gente”.

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Pablo Brito

pabloolavebrito@gmail.com
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Cartas de um senador

Claico Xavier Fernandes encerra o mandato de governador do estado de São Paulo em 2025. Natural de Imbituba, no litoral sul de Santa Catarina, o homem de 71 anos reside em Florianópolis e acumula, entre outros, os cargos de deputado federal, deputado estadual e vereador. Mas entre antigos estudantes e funcionários da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ele é conhecido mesmo como Senador.

O currículo do Senador é extenso. Foi diretor geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), criador da Organização dos Tratados do Atlântico Sul-Americano (Otasa), membro do Congresso Latino-americano e criador da Associação Internacional dos Ex-Sentenciados. Quando presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), alterou seu nome para Federação Nacional de Futebol (FNF), decisão explicitada sob o tópico “COM RELAÇÃO AOS ASSUNTOS POLÊMICOS”.

Claico concorreu, nas eleições de 2010, a uma vaga no Senado por Santa Catarina, apesar de afirmar estar no cargo em modo vitalício. No mesmo ano, concorreu a governador do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Santa Catarina e, como vice de Plínio de Arruda Sampaio, à presidência. Porém, em visita a um cartório, descobriu que Plínio foi legalmente impedido de assumir o posto. Então, agradeceu a nomeação como presidente interino da República, consequência natural enquanto vice, claro.

Indo além da atuação política, Claico contribuiu para a descoberta das luzes a laser, o desenvolvimento do adubo orgânico, da psicanálise, do macro-computador, do telefone com tela, da linguagem comum para a computação mundial, dos vidros impermeáveis, do freezer, da enceradeira que encera e lustra e “enfim, ALELUIA, outras coisas”, como destaca em documento endereçado ao Ministério da Educação.

Ao ex-Beatle George Harrison, fez um convite para a inauguração do Autódromo Internacional Ex-presidiário Claico Xavier Fernandes, o maior autódromo do mundo para realizar etapas de campeonatos de Fórmula 1, e Indy e motociclismo. Localizado na região central da Ilha, estaria ao lado do Centro de Convenções World Public Santo Profeta Claico of Republic of Brazil.

Como secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em abril de 2011, elencou a fome e a miséria como principais problemas do mundo inteiro. Também conselheiro da República, ainda noticiou a morte do então deputado federal Michel Temer, em Criciúma (SC), que teria sido fuzilado pelos seus apoiadores por tentar anular a ascensão política nacional de Claico.

Entre articulações políticas, vaidades e relatos, Claico nomeava e exonerava funcionários da UFSC durante os anos que frequentou o campus. As decisões estão documentadas em cartas ditadas por ele de 2004 a 2016, um corpus de 20 textos aos quais tive acesso. A sua passagem pela UFSC é anterior, começa, pelo menos, no fim da década de 1980. Nessa época, ele escrevia à mão, em letras pequenas, e pedia cópias aos funcionários da Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade, que mais tarde se tornaria a Agência de Comunicação (Agecom).

O Senador superou a caneta e a máquina de escrever. Chegou a carregar consigo um pen drive no qual guardava cartas e fotos. Mesmo assim, não abandonou a pasta de plástico com as cópias que pedia na Agecom e na Imprensa Universitária. Entrava nos órgãos de supetão e ia direto ao ponto. Tinha funcionários preferidos, a quem fazia os pedidos. Beatriz Prado, servidora federal, foi nomeada por ele secretária da Casa Civil, em 2016. Quando soube deste fato, Moacir Loth soltou uma risada alta e grave. “Então, ele a perdoou!”.

O ex-diretor da Agecom acreditava que Beatriz ainda estivesse exonerada. A perda do cargo aconteceu em um dia fatídico na década de 1990, quando o Senador viu uma de suas cartas na lixeira, embaixo da mesa da secretária. Dali em diante, o procurador da República, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), conselheiro da República, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), embaixador e conselheiro federal da Ordem de Advogados do Brasil (OAB), Claico Xavier Fernandes, esparsou suas visitas.

Sempre de cabelo aparado e cavanhaque, magro e com olhos azuis impositivos, o Senador caminhava pelo campus Trindade da UFSC, entrava sem cerimônias em prédios para tirar suas cópias e pedir carimbos, às vezes discursava baixinho, resmungando, sobre seu poderio, e ditava ofícios e requerimentos para estudantes nos centros acadêmicos. Frequentava também o centro da cidade, como o Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina (Sintrajusc), onde fazia os mesmos pedidos: cópias de documentos elaborados por ele.

Até que tudo parou. Por dois anos, órgãos públicos do Brasil inteiro interromperam as atividades presenciais devido à pandemia de Covid-19. No Sintrajusc, Claico não apareceu desde então: para entrar, agora é preciso passar uma catraca que exige identificação. Colegas de Míriam Santini de Abreu, que trabalha na comunicação do Sindicato, disseram ter visto o Senador deitado sob uma marquise, num fim de tarde, durante a confraternização de fim de ano de 2024. Do lado de fora, no escuro, os 22 graus de miopia de Míriam não permitiram confirmar se o homem era mesmo ele.

Antes, numa tarde de 2022, o Senador e a jornalista se encontraram na Felipe Schmidt, rua movimentada do centro. Conversa pouca. Ele se lembrava dela, que, anos antes, tinha publicado seu perfil na revista digital Pobres e Nojentas com o título Profeta para além do mundo. Moacir se refere a ele como imperador, afinal, qualquer outro cargo político seria pequeno demais. Não por acaso, a jornalista Elaine Tavares, servidora na UFSC, faz o paralelo com Policarpo Quaresma. O personagem de Lima Barreto também é um funcionário público extremamente nacionalista.

“E tá vivo?”, fui questionada logo que se lembravam do tal Senador de quem eu perguntava durante as entrevistas. “Não sei, acho que sim”. Moacir e Elaine dizem tê-lo visto no Pantanal, bairro vizinho à Universidade, recentemente. Oscar Ávilla, da Imprensa Universitária, confirma local e período. Numa das vezes que o viu, notou a distribuição de papéis pela rua. Com certeza, um de seus ofícios. Ou talvez, campanha eleitoral.

Não se sabe se Claico concorrerá em 2026. Decerto, sua disposição política se mantém. Em carta de 2010, escreveu: “É notável a trajetória de pequenos e grandes homens que fazem a história mundial acontecer, razão pela qual ao tentar consolidar os meus compromissos populares, eu tenho a certeza que estou garantindo o processo democrático”.

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Malena Lima

mahelenaalvesdelima@gmail.com
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A casa caída

Eu tenho uma casa de estimação. Ou melhor, tinha: a casa caiu. 

Na esquina da rua onde moro, uma charmosa residência térrea com paredes cor-de-rosa encantava quem passava por ali. Perdi a conta de quantas vezes falaram que ela parecia uma casa de boneca. Ela ficava bem no centro do terreno, com lindos adornos de gesso nas bordas do telhado, e era separada da rua por um caminho cuidadosamente calçado. A casa era rodeada por um florido jardim e muros tão baixos que o tornavam praticamente decorativos.  Tudo isso fazia aquele lugar parecer muito convidativo.

Quase toda manhã, um dos moradores da casa se sentava no banquinho do quintal para observar atentamente o movimento da rua. Na maioria das vezes, o meu “bom dia!” era respondido com um aceno de cabeça muito tranquilo, acompanhado de um tímido sorriso de canto de rosto. Quando passávamos por ali ao entardecer, quem nos cumprimentava eram as cheirosas damas-da-noite, um cheiro que até hoje me faz pensar em “lar”. Aquela casa era um pouco minha, também.

Segundo a minha vó, a casa cor-de-rosa está há mais tempo na nossa rua do que o asfalto. Sua delicadeza resistiu à construção de grandes prédios no seu entorno, às idas e vindas dos comércios que, em algum momento, não conseguiam mais sustentar o valor do aluguel. Em especial, as tantas farmácias passageiras que apareceram ali por perto. Ela presenciou, também, muitas mortes. E só não resistiu a uma delas.

Dona Adélia morava na casa, e em um de seus aniversários, minha avó a presenteou com uma flor. Achei engraçada a ideia desse presente para alguém que cultivava dezenas de plantas diferentes em seu quintal. Ela o recebeu como quem ganhara uma enorme riqueza, e dividiu algumas palavras bondosas com minha vó. Ali pensei que gostaria muito de conhecer aquela senhora e sua casa. 

Mas a realidade nem sempre respeita nossos planos. Em um dia qualquer, uma placa agressiva e indelicada de “vende-se” foi fincada no terreno, amargurando meu ritual diário de passagem pela casa. O terreno estava sendo oferecido por R$8 milhões, nos disseram.

O motivo da venda só foi informado depois. Dona Adélia morreu sem que eu pudesse ouvir o que ela tinha a dizer sobre nosso bairro e sua vida. Sua casa foi demolida antes mesmo de nós, os vizinhos, sabermos a causa de seu falecimento. Jamais imaginei que a casa que existia desde antes de eu nascer poderia deixar de existir. Muito menos que sua história, seus jardins floridos e as memórias de Dona Adélia seriam trocados pelo que mais tarde descobri ser uma briga da família.

Um dia, minha mãe foi sanar a curiosidade coletiva e perguntou aos vizinhos o que seria construído no lugar.

– Uma farmácia.

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Isadora Dymow

"isadoradymow@gmail.com"
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Além do que se vê

A reportagem literária vai além dos fatos: mergulha em emoções, constrói cenas e convida o leitor a sentir

Foi no final de maio que um time francês entrou para a história. O Paris Saint-Germain (PSG) consagrou-se campeão da mais importante competição de futebol europeia, a Champions League. Na última partida do torneio, a equipe enfrentou o Internazionale de Milão, que possuía a melhor defesa da temporada, e  o PSG marcou 5 gols: aos 12 minutos com Hakimi; aos 20 com Doué, que repetiu a façanha aos 63; no segundo tempo, aos 73 com Kvaratskhelia; e aos 87 com Mayulu. Durante o jogo, os cânticos da torcida fizeram a diferença ao “empurrar” os jogadores. O time francês tem um histórico de manifestações em dias de jogos, como erguer, em meio às arquibancadas, bandeiras em apoio à Palestina. Naquele sábado, 31, comemoraram a vitória com a euforia digna de quem conquista um título pela primeira vez. Mas uma homenagem especial da torcida conseguiu emocionar atletas, repórteres e, principalmente, o técnico do time. 

Uma bandeira fez os olhos dos presentes marejarem, inclusive os do técnico espanhol Luis Enrique. Nela, uma ilustração fazia alusão à foto de 2014, que mostrava pai e filha caminhando juntos de mãos dadas. A imagem estampada era real. Luis Enrique, então técnico do Barcelona, estava com sua filha Xana, falecida em 2019 em decorrência de um câncer raro. Cinco anos depois, no auge de sua carreira técnica, ao levantar a taça da Champions com o PSG, dedicou a temporada a ela, que não chegou a vê-lo como técnico da equipe francesa. 

A homenagem, explica Edvaldo Pereira Lima, pioneiro na pesquisa de jornalismo literário no Brasil, é um retrato daquilo que se precisa capturar: a sutileza que forma as histórias humanas. “Aquela bandeira não é só uma bandeira”, argumenta o pesquisador. “É também uma narrativa para quem estava ali observando. Por isso que todo mundo se emociona”. Naquele episódio, os jornalistas tinham como missão a responsabilidade de explicar não só a cena, mas o seu simbolismo, e usar técnicas literárias seria um caminho muito mais adequado que o discurso jornalístico tradicional. 

No Brasil, a prática pôde ser observada desde o começo do século passado, quando nomes como Euclides da Cunha e João do Rio fizeram da reportagem algo mais do que uma descrição do factual, e incorporaram técnicas tradicionalmente ligadas à literatura. ”Você dá ao receptor a possibilidade dele viver um pouco, mesmo que simbolicamente, a atmosfera emocional e intelectual de um acontecimento, de uma situação”, explica o pesquisador. Os diálogos, por exemplo, são reproduzidos com uma certa riqueza intencional, algumas cenas ganham destaque e os detalhes são trazidos como um complemento da história contada.

Monica Martinez, também pesquisadora e referência na área, destaca outro ponto que traria mais força a essa diferenciação entre as duas formas de produção jornalísticas. “O jornalismo literário, por exemplo, trabalha com objetivo atrelado a outro valor notícia e nunca precisou de gancho”. No jornalismo, o termo é a definição de uma característica capaz de dizer quais acontecimentos são considerados relevantes o suficiente para serem noticiados pelos veículos de referência. Segundo a pesquisadora, no jornalismo literário, o valor é dado por questões que estão presentes todo tempo, mas que passam despercebidas. Um exemplo disso está no texto “O álbum”, publicado no livro “A vida que ninguém vê”, onde a autora Eliane Brum conta a história de álbum de fotos jogado no lixo que foi achado por uma mulher que tentou traçar a história das fotos presentes nele. E, ao fazer isso, resgatou algumas memórias, afetos e identidades.

Além disso, as narrativas seriam construídas como um mosaico, em que cada peça diferente é pensada para encaixar na formação de um retrato profundo e completo do tema abordado que, para Edvaldo, pode ser montado a partir de qualquer eixo temático. “Pode ter uma reportagem da área de ciência, da área de comportamento, da área de entretenimento, da área do esporte…” A centralidade da narrativa se baseia em outro fator que não a temática em si. 

O professor propôs em suas pesquisas que o jornalismo literário tem um compromisso distinto do jornalismo considerado “tradicional”: “O objetivo é ultrapassar o nível da informação.” E, para isso, a centralidade nas pessoas ganha destaque. Na prática, isso significa que o personagem não é apenas fonte. “Ele é tratado como alguém real.” Essa atenção diferenciada à realidade é como uma fonte inesgotável de surpresa e emoção. O cotidiano oferece episódios que superam, muitas vezes, a ficção em beleza e impacto. Esse olhar mais atento ao que acontece ao redor distingue o jornalismo literário de outras práticas narrativas, justamente por revelar o potencial extraordinário das histórias aparentemente comuns. 

Embora pareça mais livre, essa é uma produção que exige muito do repórter. A construção não se trata apenas do registro das emoções ou impressões. A prática exige convívio. “Quando o jornalista permanece mais tempo com o personagem, ele ultrapassa aquela imagem inicial que o outro tenta vender de si. Ganha-se a verdade”, afirma Edvaldo. Essa diferença de ritmo redefine também a relação com o leitor. Em vez de oferecer respostas rápidas, o texto literário constrói nuances. “Você lê e sente que está participando de algo”, diz Monica. “Não como um espectador distante, mas como alguém que está dentro da cena”.

Outro ponto defendido pela pesquisadora é que o jornalista literário atua em uma zona delicada: ao lidar com seres humanos reais, é preciso estabelecer uma relação pautada pela empatia, mas sem confundir os papéis. Ela ressalta que o vínculo criado durante o processo de apuração pode gerar, por parte da fonte, a ilusão de amizade ou proximidade emocional, especialmente em uma cultura como a brasileira, marcada por relações mais calorosas. No entanto, o jornalista está ali com uma missão clara: compreender profundamente aquela realidade e amplificá-la, sem colocar em risco a integridade física ou emocional do personagem retratado. O pacto ético entre repórter e fonte, lembra Monica, deve ser transparente desde o início. A ideia é defendida por estudiosos como Mark Kramer, uma das referências na área.

Essas relações precisam ficar claras também por outro motivo. Cada reportagem demanda um tempo de apuração diferente, que pode ser de meses ou até anos. E uma rara habilidade: manter o interesse de quem a lê  ao longo de uma narrativa mais extensa. No jornalismo informativo, o tempo curto é quase regra. A pauta nasce pela manhã e precisa ser entregue antes do fim do expediente. No literário, o tempo se transforma em ferramenta de apuração. “Demora-se mais, sim, apesar de ser possível fazer jornalismo literário em menor tempo. Mas não é desperdiçado. É investimento”, defende Edvaldo. 

Se a notícia privilegia as respostas objetivas a “O Quê?”, “Quem”, “Quando?”, “Por que?” e “Onde?, a reportagem literária aposta em ambientação. “Parece um luxo ter, por exemplo, dois meses de apuração. Mas, sinceramente, para mim só vejo ganhos”. Para Edvaldo, a linguagem não se limita ao que pode ser contado e esse tempo dá ao jornalista um espaço maior para que se preocupe em como contar. “No jornalismo literário, o texto é uma peça cultural, não apenas informativa”, diz. “Ele é construído com recursos narrativos e literários para tocar o leitor não apenas pela razão, mas também pela emoção e pela intuição.”

Essa linguagem sensível, porém, não é sinônimo de subjetividade aleatória, sem propósito jornalístico. A precisão continua sendo regra, ainda que por outros caminhos. “Não se trata de inventar ou romantizar a realidade”, pontua Monica. Apesar de fazer uso dos recursos literários, em nenhum momento, o jornalismo construído a partir disso deve ficcionar nada. “Trata-se de escutar mais, de ver melhor, de transformar a complexidade da vida em palavras que o leitor possa sentir”.

Os dois pesquisadores defendem que há muito interesse na prática do jornalismo literário e veem com bons olhos as novas produções: podcasts e newsletters. “São lembretes de que a boa narrativa segue sendo desejada e possível”, afirma Monica. Exemplos são obras como “Arrastados”, “Todo dia a mesma noite” e “Holocausto brasileiro”, todas da jornalista e escritora Daniela Arbex, que, após seus lançamentos e popularidade, pautaram discussões políticas e judiciais sobre os seus respectivos casos. Arbex também fez uma excelente pesquisa documental para redação de seus livros e um deles foi a base para a produção de uma série para Netflix sobre a tragédia da Boate Kiss, no Rio Grande do Sul. 

Edvaldo enxerga nisso um cumprimento de papel: “Quando o jornalismo não se limita a reproduzir o factual e não abandona sua função de aprofundar a realidade, cumpre-se a função jornalística.” Monica concorda e tem o jornalismo literário como uma forma de resistência. “Não é um luxo. É onde o jornalismo reencontra sua vocação de testemunha e sua responsabilidade ética de escutar o outro com respeito e profundidade”. A professora vai além e instiga os profissionais, citando uma frase do premiado documentarista Eduardo Coutinho: “O que eu penso, já sei. Quero me aprofundar no que o outro pensa”. 

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Roberto Roberto Amazonas

amazonasroberto204@gmail.com
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Viva. Sim, apesar dos velórios

A crônica resiste com leitores fiéis, projetos independentes e a crença na leitura do cotidiano

A maioria dos velórios segue um ritual. Primeiro temos um morto, depois um caixão, as flores, acendemos as velas e, por último, os entes queridos chegam. O mais difícil, no entanto, é o inevitável: reconhecer que ela morreu. Era 1992, quando Otto Lara Resende, publicou, na Folha de S. Paulo, o texto: “A defunta, como vai?”. Nesse caso, quem tinha passado dessa para melhor era a crônica literária e o autor lembrava de quando, em 1972, questionou nomes como Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade sobre o “fim” da vida deste gênero tão brasileiro. As respostas foram as mais variadas: da afirmação da Clarice que o papel de cronista não lhe cabia, ao simples resmungo de Rubem Braga que Otto não entendeu. 

O questionamento de 50 anos atrás, foi se repetindo ao longo dos anos aqui e ali e, em 2023, o escritor Julian Fuks reacendeu a vela, desta vez no portal UOL. A crítica cita os ‘imperativos’ da produtividade, seja no trabalho, na diversão ou no vício, como um dos causadores da morte do gênero literário. Já que as crônicas exigem observação do cotidiano, nelas cabe a história acontecendo em uma esquina ou a fala entrecortada em um ônibus após o expediente. Mas tudo isso exige disponibilidade para parar e ver. Para o cronista, a morte estava anunciada por ela ser incapaz de competir com algoritmos, timelines e a viralização, típicos de uma vida em contínua aceleração. Isso pode até ser uma meia verdade, se pararmos para pensar no nosso tempo de atenção cada vez menor. Mas a crônica morreu?

Henrique Fendrich, jornalista e editor da revista digital Rubem, não hesita em afirmar: ela está viva. “O que falta é espaço, não qualidade. Temos cronistas excelentes espalhados pelo Brasil, gente com voz própria, escrevendo muito bem. O problema é visibilidade, não vitalidade”.

Fundada em 2012, a Rubem é uma das poucas revistas do país voltadas exclusivamente à crônica. O nome é uma homenagem ao escritor Rubem Braga, considerado um dos melhores e mais importantes cronistas do Brasil. No seu time, 14 escritores são responsáveis pelas atualizações frequentes do site, um acervo de resenhas, entrevistas e organização de prêmios literários, como o Sabiá, voltado à produção independente. A Rubem veio ao mundo fruto de uma necessidade pessoal. “Quando criei a revista, sentia o gênero ser tratado como algo menor. Críticos e jornalistas muitas vezes nem sabiam direito do que se tratava.” Fenderich enfatiza sua vontade da crônica ser tratada com a mesma seriedade dedicada ao romance e à poesia, por exemplo. 

Mais de uma década depois, ele ainda sente falta de apoio de mão obra na hora da produção dos conteúdos para o site como, por exemplo, resenhas de livros de crônicas. A gestão da Rubem é mantida por ele e pelo colega Anthony Almeida, mas sem equipe fixa, apoio institucional ou promessas de lucro. “Precisamos estar onde os leitores estão. Nosso público ainda é mais velho, mas o jovem tem interesse, sim. Só que ele está no Instagram, no TikTok. E a crônica precisa aprender a falar essa linguagem.” Segundo a pesquisa “Retratos da Literatura”, promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em 2024, entre os leitores que consomem literatura apenas por meios que não sejam livros, 18% afirmaram ler crônicas em sites e 16% pelas redes sociais. A Rubem, atualmente, conta com um perfil somente no Instagram. 

Em sua equipe, Henrique tem uma das cronistas do jornal Matinal, que narra o cotidiano e a cultura de Porto Alegre, mas seus textos vão muito além. Nathallia Protazio se descobriu cronista quando um professor apontou isso em uma oficina de escrita, na capital gaúcha, em 2019. Ela escrevia textos curtos, diretos, reflexivos, sem nem saber que aquilo era crônica. Depois, ela começou a estudar o gênero, entender suas características e, aos poucos, assumir sua identidade e ter sua própria marca como cronista. Nathallia foi a vencedora do último Prêmio Sábia, organizado pela Rubem.

A cronista despretensiosa viu naquele modo de escrever um compromisso. “Isso é a força da crônica: a voz colada no leitor, a sensação de que alguém está conversando diretamente com você”. Ela sente que, em alguns casos, a crônica pode ser “empurrada” para fora do mercado e é direta ao dizer um dos motivos para isso. “O mercado editorial brasileiro, em alguns momentos, quer imitar moda de fora. Portanto, acham que só vai vender aqui, o que vende nos Estados Unidos. Mas a crônica, como ela é, nem existe lá fora”. A escritora reforça que essa comparação não deveria existir, já que os públicos são diferentes. 

O efeito disso, segundo ela, é um apagamento do gênero pelas editoras, um mito de que crônica não vende. Pergunto: Como vai vender se não publicar? Nathallia afirma que isso pode se tornar um “ciclo vicioso”. O mercado olha para fora e esquece do leitor daqui, que lê crônica, que compra livro e se identifica com esse tipo de escrita. Há também outros dados importantes para compreendermos o comportamento do público. Na mesma pesquisa da CBL, 54% dos leitores que consomem exclusivamente literatura, afirmaram ler crônicas regularmente e por vontade própria. O número cai para 44% na categoria de leitores no geral e fica em 55% nos que leem crônicas exclusivamente fora de livros. No ano de 2024 a Companhia das Letras, por exemplo, lançou apenas um livro de crônica, de um autor não brasileiro.

Na Editora Arquipélago, Luis Henrique Pellanda acompanhou o processo de lançamento de alguns livros de crônicas. Atualmente, o editor-chefe trabalha em uma obra póstuma da cronista e jornalista Elvira Vigna, vencedora de um Prêmio Jabuti na categoria Literatura Infantil. Ele defende que o gênero é uma das formas mais potentes de observar o tempo presente, como uma lente para o cotidiano que incentiva o leitor a se ver no outro. “Na travesti da padaria, no PM da esquina, no vizinho silencioso. Não é sobre o cronista, é sobre o mundo à sua volta”. A crônica tem esse objetivo. Mostrar o compartilhamento de um “mesmo” ambiente, e a mesma tradição de histórias que faz de nós brasileiros, que faz de nós humanos.

Ele afirma que, em alguns momentos, os brasileiros deixaram isso de lado. “Na pandemia, por exemplo, as pessoas passaram a procurar textos que reafirmassem o que já pensavam. A literatura ficou em segundo plano”. Também pontua que sentiu que ela perdeu espaço nos grandes jornais, dando lugar aos artigos de opinião disfarçados de crônicas. Mas, diz, aos poucos, o interesse orgânico das pessoas voltou a aumentar. “Ela agoniza, mas não morre e, além de tudo, se adapta.” 

Como outros cronistas, Pellanda considera injusta a ideia de classificar a crônica como um “gênero menor”. “Escrever crônica exige muito. Você deve ser preciso, sensível, direto. Falar com todo mundo sem ser raso. É um texto que precisa atingir diferentes tipos de leitores – e isso é difícil. Não existe leitor ‘burro’ de crônica. Existe o desafio de escrever bem para todos”. Hoje, a crônica circula em lugares como sites, blogs, newsletters, redes sociais, mas nem por isso recebe destaque quando reunidas em livros. “Os canais para [divulgação de] literatura são mínimos”, queixa-se Pellanda.

Luis, Henrique e Nathallia não conseguem traçar com precisão um perfil do leitor de crônicas, mas concordam que há um distanciamento entre a realidade do leitor e a lógica do mercado. “Existe demanda por crônica. Porque crônica diverte, critica e preenche as lacunas sociais que outros gêneros podem deixar”, enfatiza a autora. A cronista, hoje, assume outro papel, o de professora. Organiza oficinas de crônicas para quem deseja se aprofundar no tema. As inscrições acontecem de maneira simplificada. Ela publica em suas redes sociais, as pessoas se inscrevem e, frequentemente, ocupam todas as 20 vagas.

Henrique confirma que o retorno também vem de curtidas, comentários e compartilhamentos. Os leitores gostam, reagem, sugerem… mas é tudo muito à margem. Para ele, falta ainda uma engrenagem que coloque a crônica no lugar que ela merece. 

Lá em 1972, Rachel de Queiroz foi enfática: nunca houve a morte da crônica. Encarava como maré alta ou maré baixa. Para os entrevistados de hoje, porém, a metáfora da maré talvez já não baste. A resposta é mais direta: a crônica está mais viva do que nunca. Em 2023, a também cronista Ana Elisa Ribeiro, em resposta ao texto de Fuks, pediu que os leitores continuassem a consumir crônicas, principalmente, de quem está na ativa. “Há gente bem viva mantendo a crônica ON. Mandaram, aliás, dizer que respiram sem a ajuda de aparelhos. E que não obedecem aos caprichos de escritores em dias difíceis”. A mineira de Belo Horizonte escreve com conhecimento de causa: desde 2012 já lançou quatro livros de crônicas reunidas.

O próprio Fuks, em novo texto, devolveu a provocação com lirismo e ironia: decretou “a morte da morte da crônica”. Reafirmou que nenhum cronista tem o poder de matar, ou ressuscitar,  o que sempre foi coletivo, plural e teimosamente vivo. E, segundo ele, o que a crônica precisa é de barulho: uma algazarra bonita, cotidiana, dissonante o suficiente para atravessar o tempo. “Se foi pela crônica que você se apaixonou pelo texto, não vira a casaca”, brinca Nathallia. Que assim seja, para que ninguém mais adiante seu fim.

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Roberto Roberto Amazonas

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Início de mês

Era início de mês, o salário tinha acabado de cair na conta e eu estava no cinema, esperando para comprar um ingresso, quando notei uma movimentação. A mulher que aparentava ser mãe, e estava acompanhada de uma menina, que devia ter uns 11 anos, abordava pessoa por pessoa naquele espaço. Ela perguntava algo e recebia sinais negativos. Como a fila não andava, consegui acompanhar as abordagens por tempo suficiente até chegar em mim:

– Oi, tudo bem, querida? Você passaria o cartão pra eu e minha filha assistirmos o filme do Stitch? – ela disse (bem) rápido – Eu te faço o pix agora mesmo. Viemos só para assistir o filme, mas eu esqueci o cartão em outra bolsa. 

A filha parecia envergonhada. Ela colocava a mão na cabeça, se escondia atrás da touca de cachorrinho e falava: “não acredito que a gente esqueceu o cartão, mamãe”. A mulher sorria sem graça e repetia: “é, deixamos na outra bolsa”.

– Claro. Imagina, passo sim. – respondi.

Caminhamos até o caixa juntas. Eu pagava com o cartão, enquanto ela me passava o valor pelo pix e a menina continuava a repetir de maneira envergonhada: “não acredito que esquecemos, mamãe”. 

Assim que a máquina terminou de imprimir os ingressos, ela os pegou e entregou à filha, que sorriu pela primeira vez dentro da nossa rápida  interação.

– Obrigado, viu? É que o cartão não virou ainda e eu só tinha dinheiro no pix. Sabe como é, início de mês é quando eu tenho mais condições de trazer ela ao cinema. 

Eu só concordei e desejei bom filme, não perguntei seu nome, nem o da filha. Quando me sentei sozinha na sala de cinema, dei-me conta do que queria ter dito: “Eu entendo. Minha mãe também só conseguia me levar ao cinema no início do mês”.

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Luiza Feppe

luizafepe23@gmail.com
25.1
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R$1,50

Chovia muito, já passava das 6 da tarde e eu peguei o ônibus para mais um compromisso. Estava cansada, sem muita paciência, e tudo o que eu queria naquele frio era estar em casa, debaixo das cobertas assistindo a um filme. Depois de um tempo de viagem, um rapaz entrou no ônibus e começou a falar com os passageiros. 

– Boa tarde! 

Poucas pessoas responderam.

– Vamos começar de novo. Boa tarde! 

Não mudou muita coisa, continuava sem respostas expressivas. Eu até o cumprimentei baixinho, mas não fez diferença. Ele não desistiu. 

– Boa tarde, pessoal! 

Olhei para trás, quase todo mundo de fone de ouvido ou mexendo no celular. Muitos nem tinham percebido a presença dele. Eu até tentei prestar atenção, mas estava poucas ideias para interações naquele dia. 

O moço, então, se apresentou como poeta, distribuiu um pequeno papel com uma poesia autoral e começou a declamar. Acompanhei na folha e, ao final, ele passou um potinho para contribuições espontâneas. Ninguém contribuiu. Eu sequer tinha meu tempo para oferecer, quem dirá uma moeda. 

Ele passou novamente ao meu lado e pediu para segui-lo no Instagram. Disse que iria seguir e desejei boa sorte. 

Pelo vidro da janela, vi que o rapaz sentou em um cantinho e lá ficou, com a cabeça baixa. A culpa veio, e pensei que deveria ter sido mais atenciosa. 

Na semana seguinte, peguei a mesma linha e lá estava o moço, conversando com os passageiros. O ônibus estava lotado e, de novo, ele não recebeu muita atenção. 

Eu tinha duas moedas no bolso. Quando passou o potinho, coloquei-as lá. Duas ou três pessoas contribuíram e ele aparentava estar mais contente do que da outra vez. 

Eu também fiquei mais tranquila, pensando que agora, sim, havia sido solidária. Mas, na verdade, toda essa generosidade foi comprada por R$1,50. 

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Érica Zucchi

ericamariazucchi@gmail.com
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Ônibus lotado

Estava, com outros cinco amigos, bebendo cerveja e jogando conversa fora no bar do Silvinho, que fica no começo do Morro da Cruz. O lugar é do lado das emissoras em que trabalhamos e, ao invés de voltar para a casa direto,  encontrei os guris às 22h15, um pouco depois do fim do meu turno.

Quando bateu meia noite, um deles lembrou que o último ônibus Volta ao Morro passava dali  a 15 minutos. Aquela condução é a que pegamos diariamente para voltarmos para a região da UFSC, onde a maioria de nós moramos. Descemos o morro correndo e rindo da situação. Chegamos no ponto junto do ônibus e, ao contrário da nossa expectativa, estava cheio.Tive que sentar a duas cadeiras de distância dos meus amigos, já que não havia espaço mais próximo. 

A gente começou a conversar e a falar besteira, enquanto eu observava as pessoas na condução. Um menino de boné, que estava na minha frente, observava pela a janela como se tentasse evitar encarar o resto das pessoas ao seu redor. Uma menina de fone, mais para a frente, olhava para baixo, aparentando estar muito cansada. Enquanto isso, dois rapazes conversavam fazendo o mínimo de barulho.

Nesse tempo, meus amigos estavam no fundo do ônibus causando o caos. A contradição entre a emoção deles e a falta de contato do resto das pessoas era cômica, mas eu acho que se não fosse amigo deles talvez estivesse um pouco incomodado.

Fui me dando conta: quando  pego aquele ônibus todo dia me comporto igual ao resto das pessoas, seco, vazio, sem cumprimento, sem ideias e sem relações. Mas, com eles, eu me expressava, me comportando como eu sou. As pessoas com as quais  divido o espaço no transporte público todos os dias são as mesmas, mesmo assim, não sei nada sobre elas. Seus nomes, suas ideias e nem porquê pegam aquele ônibus. Ao invés disso, assim como elas, tento evitar o contato de um jeito ridículo, já que temos de sentar juntos ou  permanecemos em pé muito próximos uns dos outros.

Talvez se no dia a dia eu me comportasse como se estivesse numa mesa de bar, brincando e contradizendo todo mundo, mostrando interesse pelas histórias, a vida fosse  mais leve. Talvez.

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João Francisco Ribeiro

joaofrancisco.rir@gmail.com
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