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Essa crônica não é sobre ônibus

Tudo perde a graça quando estamos presas a algo que não queremos. Viver aquilo todos os dias cansa. Esse era o meu sentimento em relação ao caminho que fazia para chegar ao trabalho. O ônibus, o motorista, as pessoas, os lugares, tudo era sempre o mesmo. Eu adorava aquele trajeto, mas, depois de cinco anos, sentia tristeza só de imaginar que passaria o resto da minha vida o percorrendo.

A praça que atravessamos durante o trajeto já não me encantava mais, os prédios nos quais um dia pensei em morar haviam se tornado feios, até mesmo o restaurante que, ao passarmos por ele, exalava um cheiro delicioso, já me enjoava. Existiam dias em que eu torcia para que o motorista errasse o caminho ou que eu mesma descesse no ponto errado, apenas para poder explorar outros lugares. Havia outros ônibus que me levavam ao mesmo lugar, mas que tomavam rumos diferentes. Então, por que era tão difícil escolher outra direção? Conhecer novos caminhos? O que me prendia naquele ônibus?

Eu não podia simplesmente dar as costas para tudo que construí durante aquelas viagens: a amizade com o motorista, a parceria que criei com a moça que descia no mesmo ponto que eu, o suporte que eu dava aos cobradores, avisando quando alguém precisava descer, e até mesmo o meu assento, aquele alto, do lado esquerdo, na janela. Não podia simplesmente perder essas coisas, mesmo que estivessem me fazendo muito mal.

Todas as vezes que tentava me aventurar em outra direção, ele aparecia e o sorriso do motorista me fazia entrar. Quando conto isso para alguém, ninguém entende. Eles dizem que é fácil parar de pegar aquele ônibus, que é só não subir mais aquela escada, mas não é bem assim. Não quero decepcionar aquelas pessoas. Elas esperam por mim, mesmo que isso custe a minha própria felicidade.

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Giovanna Kila

giovannakila@gmail.com
23.1

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