Uma troca de mensagens com a Lê decide nosso plano de sexta-feira: visitar o novo boteco, que passou por um rebranding quase que total. A nova localização é bem pertinho da muvuca do Centro Leste, no segundo andar de um prédio comercial. Subo os lances de escadas com uma sensação ruim nos olhos. Percebo, então, que as luzes amarelas reconfortantes foram substituídas por aquelas brancas que fazem a gente piscar para se acostumar com a claridade. Uma, duas, três piscadas. Assim, consigo enxergar rostos não tão amigáveis, mas familiares. “Ah não! Teríamos conseguido despistá-los, se não fossem essas crianças enxeridas!”, imagino o pensamento dos clientes mais antigos.
Depois da usual ida até o balcão em busca de bebida, pegamos uma mesa na frente da banda que toca pagode ao vivo. Virei para buscar uma cadeira e dei de cara com uma mulher negra, com tatuagens no corpo todo e mechas loiras no cabelo, conversando com um homem enquanto dançava. Notei que todos meus amigos não deixavam de olhar para ela. Ao contrário da Capitu, não havia nela olhos de ressaca, mas olhos de dureza, de noite mal dormida, aguçados procurando um cliente. A conversa virou uma discussão e logo descubro seu nome: “Tá doida, Gabriele!”. Ela solta alguns palavrões como resposta e vai em direção a outro cara do boteco. Parece que o próximo alvo foi atingido. Dessa vez, Gabriele ganha cerveja e cigarro no lugar de rejeição.
A cara fechada dessa figura resulta num ar máximo de respeito e imponência. Dá para notar que os homens ali sentem, ao mesmo tempo, atração e medo. Será que, com dinheiro, alguém consegue ter controle sobre ela, mesmo que apenas sexual? Ou a proposta desse one a one é outra? Meus pensamentos são interrompidos por um “Ei, você tem um isqueiro aí?”. A voz da trabalhadora é rouca, mas não me surpreendo. Desde minha chegada, já foram uns três cigarros para a conta. Depois de acender e dar uma tragada, ela me pergunta se o homem mais velho na mesa do lado está me incomodando com as cantadas. Balanço a cabeça para dizer que sim. “Não tem vergonha na cara, não? Cê tem idade pra ser vô dela, mano!”. O velho sai de perto, sentindo um pouco mais de medo do que tesão por ela.
Pagode vai e pagode vem. Cachaça vai e cachaça vem. Percebo que criamos um laço de amizade quando a patroa do boteco me oferece cerveja, ao agradecer pelo isqueiro. De pouco em pouco, a face carrancuda vai se desprendendo da mulher à minha frente. Mas, para os outros, ela continua sendo uma autoridade. É ela quem comanda a playlist durante o intervalo da banda. É também quem afugenta os caras indesejados. Depois de perguntar o meu nome, revela o seu verdadeiro. Mas deixa claro que só posso chamá-la pelo codinome. Mais uma dúvida surge em minha cabeça: “Por que escolheu Gabriele e não Gabriela?”.
De repente, sua cara fecha ao perceber uma mulher mais jovem perto de um dos seus clientes. “Vaza que essa área é minha”. Gabriele tem o boteco da Lê como local fixo de prospecção de clientes. As outras mulheres do bar procuram um romance de fim de noite. Nesses momentos, ela usa o sexo para ganhar dinheiro. Amor, tesão, desejo não entram em cena durante seu trabalho. Os olhares fixos em seu corpo e, até mesmo aqueles que se desviam por pudor, ecoam o não dito em voz alta. Puta, prostituta, vagabunda, mulher da vida, garota de programa ou apenas GP. Já são duas da manhã e decido voltar para casa com minha amiga que tem quase o mesmo nome da trabalhadora. Aviso à roomie: “Gabrieli tá dormindo no sofá”. Vários pontos de interrogação vão surgindo na minha tela do celular. “Tem problema a Gabzera dormir aqui?”, respondo, aflita. O celular vibra: “Que susto, pensei que era a GP”.


