43

Ônibus lotado

Estava, com outros cinco amigos, bebendo cerveja e jogando conversa fora no bar do Silvinho, que fica no começo do Morro da Cruz. O lugar é do lado das emissoras em que trabalhamos e, ao invés de voltar para a casa direto,  encontrei os guris às 22h15, um pouco depois do fim do meu turno.

Quando bateu meia noite, um deles lembrou que o último ônibus Volta ao Morro passava dali  a 15 minutos. Aquela condução é a que pegamos diariamente para voltarmos para a região da UFSC, onde a maioria de nós moramos. Descemos o morro correndo e rindo da situação. Chegamos no ponto junto do ônibus e, ao contrário da nossa expectativa, estava cheio.Tive que sentar a duas cadeiras de distância dos meus amigos, já que não havia espaço mais próximo. 

A gente começou a conversar e a falar besteira, enquanto eu observava as pessoas na condução. Um menino de boné, que estava na minha frente, observava pela a janela como se tentasse evitar encarar o resto das pessoas ao seu redor. Uma menina de fone, mais para a frente, olhava para baixo, aparentando estar muito cansada. Enquanto isso, dois rapazes conversavam fazendo o mínimo de barulho.

Nesse tempo, meus amigos estavam no fundo do ônibus causando o caos. A contradição entre a emoção deles e a falta de contato do resto das pessoas era cômica, mas eu acho que se não fosse amigo deles talvez estivesse um pouco incomodado.

Fui me dando conta: quando  pego aquele ônibus todo dia me comporto igual ao resto das pessoas, seco, vazio, sem cumprimento, sem ideias e sem relações. Mas, com eles, eu me expressava, me comportando como eu sou. As pessoas com as quais  divido o espaço no transporte público todos os dias são as mesmas, mesmo assim, não sei nada sobre elas. Seus nomes, suas ideias e nem porquê pegam aquele ônibus. Ao invés disso, assim como elas, tento evitar o contato de um jeito ridículo, já que temos de sentar juntos ou  permanecemos em pé muito próximos uns dos outros.

Talvez se no dia a dia eu me comportasse como se estivesse numa mesa de bar, brincando e contradizendo todo mundo, mostrando interesse pelas histórias, a vida fosse  mais leve. Talvez.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.14.53

João Francisco Ribeiro

joaofrancisco.rir@gmail.com
25.1

Comments are closed.