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Bolsinha de moedas

Depois de uma semana inteira, notei que a cada dia uma nova colega de turma surgia com uma bolsa do tamanho de um celular para carregar o troco do lanche na hora do recreio. Era um movimento de moda aparecendo no colégio regido por freiras, onde não eram permitidos shorts curtos, calças jeans e muito menos algum calçado que não fosse tênis. Mas claro que não poderíamos reclamar, usar as unhas pintadas era permitido, ao menos na escola – em casa, apenas renda ou francesinha. 

Com o crescimento do clube de meninas usando bolsas na transversal do corpo como acessório pouco útil, notei que estava por fora. Já não era considerada popular, então senti que precisava do acessório, ou, ao menos, me enturmar. Tomei coragem e disse ao meu pai, sem maiores explicações, na saída da escola: 

– Eu preciso de uma bolsa para levar as moedas e notas de dois reais para comprar meu lanche da tarde. 

Um pedido desesperado que já anunciava a impaciência, teimosia e vaidade que ficariam evidentes na adolescência. De carro, nos encaminhamos ao shopping. Rodamos por várias lojas, mas aquelas bolsinhas minúsculas, especificamente aquelas com o chaveiro de macaquinho que as outras meninas tinham, custavam um valor totalmente desproporcional ao seu tamanho e qualidade. Ah, estar na moda aos 12 anos já era caro. 

Segui levando na mão, até o caixa da cantina, o dinheiro trocado, e, no coração, a certeza de que era amada. Sem bolsa ou carteira, o punhado de moedas nas minhas mãos era a lembrança do dia em que meu pai largou todos seus planos para atender meu pedido. Nenhuma demonstração de afeto, carinho, beijos e abraços vindos dos meus pais superou o sentimento que o gesto me proporcionou. 

Até aquela idade, aquele momento, o amor era uma abstração – sabia que devia amar meus pais, minha irmã e até aquelas parentes vistos uma vez ao ano -, mas a subjetividade do amor me fazia crer que dizer “eu te amo” era a única forma de descobrir se era amada, ou que amar era mais uma obrigação como escovar os dentes ou tomar banho. Era o tipo de coisa ensinada pelos pais que deve ser feita.

Dias depois, em meio a cadernos, canecas, itens de papelaria e uma enorme variedade de mochilas e bolsas, pude experimentar e escolher a minha companheira no caminho até a lanchonete durante o ano letivo, uma bolsa do tamanho da palma da mão, preta com florzinhas rosas e laranjas, que custou o que de fato valia. Lembro de agradecer meus pais pela bolsa, mas nunca contei o que a compra significou para mim. 

Mesmo desgastada depois de muito uso, me apeguei à aquele pedaço de amor palpável. Dez anos depois, me deparei com ela perdida dentro de um saco com meus bichinhos de pelúcia favoritos.  Tê-la nas mãos foi como ser transportada de volta para quando ganhei essa bolsinha. Com as costuras desfeitas, ela perdeu sua utilidade e beleza, mas sobrou como prova do dia em que me dei conta do que é amar, ser amada e demonstrar amor.

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Isadora Camello

isadoram.camello@gmail.com
23.2

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