Existe um provérbio japonês que diz “Cultive quando fizer sol, leia quando chover”. Cansado da chuva e das quatro semanas preso aos livros, resolvi cultivar um pouco de vida. Nada melhor que um domingo de sol para semear novas lembranças. O dia ensolarado deixa as pessoas com um semblante mais animado e sorridente. Ao contrário do último final de semana, hoje o churrasquinho na frente do Terminal do Centro está a todo vapor. O cheiro de carne assada, típico de um domingo brasileiro, invade a avenida. É fumaça que não acaba mais. Mas nem só de churrasco vive um bom domingo. No camelódromo, dois trabalhadores lavam o telhado de uma das barracas. Pelo visto, as águas das últimas semanas não deram conta de eliminar a sujeira. Mas o mais provável mesmo é que eles queiram retirar o musgo. O aguaceiro foi tanto que já se via até o limo brotar sob as telhas.
Diferente do céu cinzento dos dias nublados, hoje quem veio passear no Centro deu vez às roupas coloridas. Cada peça se soma à explosão de cores dos murais de grafite nos prédios históricos. Três senhoras, caminhando em direção à ponte Hercílio Luz, são o exemplo de combinação perfeita. Resolveram apostar nas blusas florais. Se foi tudo combinado, eu não pude notar. Mas o fato é que as amigas usavam peças idênticas. Como se isso não bastasse, as três carregam bolsas pretas, revestidas por argolas de metal, presas sob o braço esquerdo. E o caminhar? Uma coreografia não ensaiada cheia de sintonia. O guarda-chuva, item que há semanas era o fator condicionante para sair de casa, sumiu do mapa. Quem deu as caras foram as casquinhas de sorvete. A recepcionista da lanchonete não para um segundo sequer. E o caldo de cana com pastel? A dupla queridinha finalmente retornou às ruas da cidade.
A paz do domingo vai chegando ao seu auge ao passo que se sobe a ladeira que leva até o Parque da Luz. Os prédios históricos ficam para trás e vem chegando a calmaria trazida pela brisa do mar, que contrasta com as risadas, apitos e a correria das crianças pelo gramado. Ali ao lado, na ponte, um grupo de dança do ventre se apresenta na cabeceira. Os turistas ainda aprendem a andar com os patinetes. E assim, já diante da luz do sol poente, cada uma daquelas pessoas cultiva novas, e talvez as melhores, lembranças do primeiro domingo ensolarado depois de quase um mês.


