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Feliz nosso dia

Faz dois anos que me obrigo a pensar que é só um exagero. Mas hoje, enquanto estava indo jantar com meu amigo o que o Restaurante Universitário oferecia para celebrar este dia específico, a ficha caiu. 

Hoje é o dia do preto, hein? Lá na minha cidade, em São Paulo, é feriado. Só aqui que não. 

Como a universidade organizou um cardápio especial, imaginei que, pelo menos, não consideravam uma data qualquer. Chegamos na fila para entrar. Dava para sentir o cheiro do calulu lá de fora.

Na verdade, você deve ser a única. – continuou, desta vez, em tom de piada. 

Meu colega, longe de me fazer rir, semeou uma pergunta na minha cabeça. Depois de alguns minutos, a refeição acabou. Estava na hora de sair. Conversa vai e conversa vem, meu amigo voltou para casa. Decidi ficar por ali e sentar no mesmo banquinho de sempre. Desta vez, não iria apenas aproveitar o tempo do intervalo em meio a uma aula. Queria reparar nos detalhes. Contar com quantos conseguia me identificar – ou não.

 Parecia que tinham sumido. Cadê os demais?

Observei os grupos grandes, mais de vinte pessoas, indo e vindo ao meu redor. Zero. Olhava também para alguns conhecidos, quem era da minha turma ou tinha sido meu professor nos semestres anteriores. Analisei aqueles que estavam parados, à espera do ônibus. Mais uma vez, zero. 

Ninguém parecido comigo estava entre eles. Que desespero. Será que sou a única mesmo? 

Um, dois… BINGO!

No meio da movimentação que caracteriza o horário das 18h, duas pessoas caminhavam na minha frente. Uma senhora, de uns 65 anos, carregando algumas sacolas de mercado. E um homem, mais jovem, de calça azul e camiseta branca, arrastando uma lixeira vazia e alguns outros utensílios de limpeza. Sequer se olham, não se conhecem. Apenas continuam seus caminhos e, na aglomeração de rostos pálidos, se desvanecem. 

Enquanto estava sentada, só vendo quem passava por lá, alguém se aproximou. Agora, na minha lista, eram três. Ele chegou mostrando seu expositor de colares. Reconheci o cabelo grisalho e a voz rouca que fala sem pressa.

Opa, boa tarde. Gostaria de dar uma olhada no meu trabalho?

Não era a primeira vez que ele me via naquele lugar, também não era a primeira vez que vinha conversar comigo. Por um momento até esqueci do dilema interno que estava enfrentando antes dele chegar. 

Obrigado, moça. E feliz nosso dia, né? 

É. A conta não bate.

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Victoria Alejandra

victoriaalejandrapradopacheco@gmail.com
23.2

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