Fazia 20 anos que eu assistia meu pai acompanhar a odisseia de um fusca vermelho desbotado. Com frequência ele chegava em casa ansioso para contar as boas novas, que para nós, pouco importavam. Contava que o Fusca tinha sido adquirido por uma pedagoga da cidade vizinha que havia ocorrido uma troca de proprietários e agora um jovem garçom era o atual dono do seu carro preferido.
O Fusca já era um velho conhecido seu. Em 1975, poucos minutos após sair novinho da concessionária da Volkswagen, meu pai já havia deixado sua marca nele fazendo xixi nos bancos recém-desembalados. O Fusca foi uma troca entre o meu avô e um vizinho por algumas toras de lenha. Nele, aprendeu a dirigir, viajou, pegou chuva pelo basculante, desafiou buracos das não-asfaltadas ruas de Grão-Pará e levou minha mãe para o meu pré-natal. Apelidou o carro com as três letras que compunham a sua placa: MAX.
O ano de 2003, porém, chegou com o meu nascimento e a sua modernidade aniquiladora personificada em um Gol branco. O carro era pálido, silencioso e a decisão de que seria melhor do que o Fusca fez sentido. Meu pai, ocupado na época com o meu nascimento e escolhendo suas batalhas, concordou:
— Ele já está muito velho mesmo.
Acontece que visões utilitaristas param de fazer sentido diante do teste do tempo. MAX percorreria quilômetros, dirigido por outros condutores, sempre sob a vigilância atenta do jovem, agora vendedor de automóveis. A nossa vida parecia apenas um passatempo enquanto o Fusca não voltava para o meu pai. Quando perdia o carro de vista — não que fosse fácil perder um fusca vermelho e barulhento em uma cidade pequena —, ia perguntar na praça sobre o paradeiro, daquilo que, na sua opinião, era a obra-prima da Volkswagen.
Quando o carro finalmente voltava para suas mãos na revenda em que trabalhava, era com um sorriso de canto, como quem desafia o destino a separá-lo da máquina vermelha e barulhenta, que ele respondia: só venderia o carro pelo dobro do que ele valia. Assim, um por um, espantava os interessados. Chegava em casa e contava como MAX conquistava a todos.
Quando um agricultor aposentado, motivado por uma pequena dose de insanidade, ofereceu o dobro do valor pela relíquia, deixou-o sem espaços para poréns. Já com o dinheiro vivo em mãos, as duas filhas para as quais ele prometera dar o melhor pareceram fazer mais sentido do que o velho MAX. Sem muito direito de escolha, aceitou:
— Ele já está muito velho mesmo.
Meu pai chegou em casa, naquele dia, melancólico. Nas mãos do agricultor, o Fusca permaneceria por anos. Até que, com a ajuda do destino, caprichoso e implacável, o Fusca voltou para meu pai em uma negociação. Max, outrora tão mais vermelho e útil, havia envelhecido como ele. Diversas foram as visitas à oficina, seguidas de uma frase esperançosa:
— Agora resolvemos de vez o problema.
A partir dali, todos os domingos eu era acordada com o barulho do polidor polindo a cor desbotada que agora lembrava muito um alaranjado. Escutávamos as rádios com toda a qualidade que um fusca de quase 50 anos podia oferecer. Como quem anuncia um novo integrante na família, a nossa programação de domingo passou a ser visitar as pessoas que guardavam memórias do MAX. Assim que reconheciam o fusca e o meu pai dentro dele, sorriam, saudosistas. Seus tios mais velhos, que muito entendem sobre memórias, pouco compreendiam o valor do automóvel, olhavam com pena, achando que o sobrinho havia empobrecido. Quando chegávamos, após os elogios, perguntavam:
— Mas vocês têm outro carro, né?
Em algum momento daquela conversa, como já sabíamos, o meu pai soltaria: “Esse Fusca aí não tem preço, tem é valor!” De fato, não tem


