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Parquinho

— Juliana Carvalho — a coordenadora da escola chamou — Sua mãe está te esperando na secretaria.

Um nó se formou na minha garganta. Não deveria ser surpresa nenhuma, minha bisavó estava inconsciente havia duas semanas. Foram quatorze dias sem nenhuma notícia de melhora. Aos 18 anos, já sabia que a próxima atualização do seu quadro tinha grandes chances de ser ruim. Ainda assim, chorei. 

Passamos em casa para vestir roupas pretas. Seguimos a viagem até o cemitério da cidade vizinha em silêncio. Meus pensamentos me levavam de volta às lágrimas vez ou outra, até retornarem às memórias de anos atrás, parando em um parquinho colorido no canto de um cemitério. 

O encontrei no primeiro velório que compareci, aos cinco anos. Ver tantos adultos chorando juntos foi um choque, porque, na época, adultos não sucumbiam à emoções como crianças da minha idade. Mas lá estava um bando deles, chorando de soluçar. 

Demorou para que eu fosse capaz de entender o que era aquela reunião de pessoas vestidas de preto. O clima triste pesava no ambiente. Me mantive quieta, seguindo  meu papel na procissão mórbida. Até ver o parquinho. 

Em meio à monocromia da tarde, o espaço no canto do cemitério parecia brilhar em cores. Enquanto os adultos seguiram seu caminho para enterrar o caixão, eu e outras crianças aproveitamos para fugir do peso daquele ritual. Brincamos até o fim da cerimônia. Quando todos estavam deixando o local, minha mãe me buscou e mostrou onde colocaram sua amiga. Não consegui acreditar. Para mim, era só um pedaço de terra batida com uma pedra lapidada em cima. Não dava para ver nem um pouco da mulher alegre que me maquiava, me deixava vestir suas roupas e brincar com as perucas que usava por conta da quimioterapia. 

Voltei a olhar para o parquinho. Pedi à minha mãe para que me deixasse brincar mais um pouco, mas já estava na hora de ir embora. 

Anos depois, enterrei meu bisavô. Algum tempo mais tarde, aos onze anos, foi o meu pai. Todas as vezes, realizei o mesmo ritual: vestia roupas pretas, aceitava palavras de pesar, evitava encarar a morte dentro de um casulo de madeira, deixava que o fechassem e esquecessem debaixo de um punhado de terra —, mas não chorava. Essa parte do ritual eu não cumpria. 

Dessa vez, no entanto, algo estava diferente. Não parei para procurar um rosto amigo que pudesse aliviar o peso do ambiente. Não tive medo de encarar a minha bisavó, sabendo que nunca mais teria oportunidade de vê-la. Não evitei as lágrimas e nem o carinho que me ofereciam. Pela primeira vez, ofereci o meu também. 

— Odeio isso — disse, mais tarde, para minha mãe. — Quero ser cremada. 

Notei que para odiar algo é preciso entender um pouco sobre aquilo, mas não desejo esse entendimento para ninguém. Se pudesse, nunca mais iria a nenhum velório, nem ao meu próprio. Mas, ah, sei que irei de novo, algum dia. 

E não haverá outro parquinho esperando por mim.

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Juliana Carvalho

julianacarvalhojc251@gmail.com
23.2

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