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Sequestro relâmpago

Em uma noite de sexta-feira, após ter jantado no RU, pretendia voltar para casa para colocar os trabalhos em dia quando fui atacado por dois sequestradores. Fui forçado a sentar-me no bar mais próximo de casa e pegar o copo que me foi oferecido. Disse a mim mesmo que seria rápido, apenas o necessário para não desagradá-los, pois não tinha como saber se me machucariam caso recusasse. Se fingiam amigáveis, me levando a questionar se, talvez, não seriam pessoas ruins. Repreendi o pensamento e, enquanto pediam outra garrafa, planejei fugir. Por azar, o atendente marcou o pedido em minha comanda – agora, seria obrigado a pagá-la e, portanto, bebê-la. 

Estava procurando tomar o controle da situação, quando um comparsa dos sequestradores surgiu. Um advogado. Como uma técnica de coerção, pagou para todos nós uma porção de pastéis, me obrigando a ficar mais, afinal, comida de graça não se nega. Por sorte, a operação criminosa não parecia tão bem planejada e o recém-chegado, já bêbado, fazia da mesa do bar um tribunal, defendendo um caso aleatório sem ninguém para debater de volta, exibindo todo seu juridiquês e incomodando os donos do estabelecimento. Possivelmente os criminosos tivessem se arrependido de envolvê-lo, pareciam incomodados e discutiam uma forma de se livrarem dele, dando-me uma chance de fugir enquanto estavam distraídos. 

Foi quando o estudante de direito inquieto fez outra vítima, um homem perdido e confuso que percebi ser mexicano. Abortei minha fuga e fui ao seu resgate, jamais poderia permitir que outra pessoa sofresse o mesmo destino trágico que o meu. Em nossa conversa furtiva revelou-me ser um turista em viagem pelo Brasil, estava convencido de que o povo do Sul não era tão receptivo quanto os cariocas ou paulistas. Um senso de bairrismo me tomou. Meu orgulho não deixaria minha terra ser mal vista, mesmo eu não sendo exatamente daqui e na realidade nem gostando tanto assim do estado. Decidi ser seu herói não requisitado, protegendo-o dos males desses sequestradores. Não o deixaria vir até aqui para ser feito refém, podemos até não ser receptivos, mas orgulhosos, com certeza! 

Cheguei a pensar se não seria uma armadilha, talvez o estranho turista fosse um infiltrado. Afinal, sempre que via o atendente, encomendava mais uma rodada. Olhei as horas pela primeira vez em muito tempo, já passava da meia-noite e havia uma quantidade comicamente grande de garrafas cheias na mesa. Seria esse o plano deles? Me fazer perder os sentidos enquanto o valor do resgate, marcado em nossas comandas, crescia? 

Quando mais um comparsa do grupo surgiu – um suposto morador de rua – percebi que já havia passado dos limites, era hora de fugir! Corri o mais rápido possível para o caixa com a intenção de pagar os 10 reais marcados ali e evitar ser cobrado pelo que não pedi, apenas consumi. Com os olhos na maquininha, fui cercado pelo grupo criminoso mais uma vez, tendo que lutar pela minha liberdade. 

Até que tudo escureceu. 

Despertei em casa, sem saber para onde todos tinham ido. Sumiram tão prontamente quanto surgiram, provavelmente fugindo da polícia. Não me lembrava de como havia escapado, sequer lembrava se o dinheiro do resgate fora pago. Chequei meu extrato, antecipando estar zerado. Para minha surpresa, nem um único centavo havia sumido, nem mesmo o valor de minha comanda. Lembrava-me vividamente de ter acertado a conta com o atendente e dele confirmar que não faltou nada. Teria sido tudo um sonho? Foi então que recebi uma mensagem pelo WhatsApp de um turista mexicano que não me lembrava bem como conheci. 

– Bar hoje? 

Entendi os sinais do universo. Naquela noite, após cumprir um juramento de responsabilidade acadêmica durante a tarde, deixe-me ser sequestrado novamente.

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Natan Balthazar

natanbalthazar@gmail.com
23.2

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