foto Marina Hadlich

A moça da máquina de escrever

Das 11 da manhã até a uma da tarde de toda quarta-feira, Marina Hadlich se desloca do extremo Sul de Florianópolis para escrever textos sem cobrar um centavo.

Não importa quantos graus o termômetro do calçadão da Praça XV marque, ela estará lá, com um sorriso grande para atrair as pessoas, uma máquina de escrever do século passado e uma placa que diz: “Contos de graça na máquina de escrever. Me diga uma palavra de inspiração”.

Alguns passam e estranham sua presença, outros batem ponto uma vez na semana para revelar a tal palavra. Dali saem textos inéditos, pensados na hora. Nenhum é igual, para  cada palavra, pessoa ou história, ela escreve algo diferente. Tudo depende de quem a visita e como faz o pedido. Às vezes os textos saem meio apagados, com letras comidas ou espaçamento demais, marcas da sua antiga máquina de escrever.

Herança de seu avô, ex-funcionário da Hemmer, uma fábrica de alimentos em Santa Catarina, a peça histórica foi guardada por ele quando viu a empresa migrar da datilografia para o digital. Decidiu manter  a máquina consigo, pois sabia que um dia seria valiosa. Os planos do avô eram passar a herança de geração para geração, mas Marina alegou ser a única escritora da família e, assim, provou  que a relíquia já tinha um destino certo.

Tornar-se escritora não foi uma decisão tomada por impulso. O caminho literário sempre esteve presente, ainda que em segundo plano. Com dezesseis, dezessete anos, ela gostava de ser justa, de ver a justiça acontecer nos lugares e escolheu a advocacia como profissão. Ser advogada fugia do clichê de defender ou denunciar. Para Marina, o direito era sobre criar acesso e possibilidades. 

Durante cinco anos trabalhou no Ministério Público de Santa Catarina na esfera da Infância, Juventude e Idoso. Atuou com o sistema de socioeducação e reeducação de adolescentes,  sempre esforçando-se para que os centros educativos tivessem bibliotecas com livros de literatura.

Hoje Marina é escritora independente, não atua como advogada, nem trabalha em órgão público. Não existe nenhuma norma sobre o que deva vestir, mas a camisa que usa seria facilmente seu uniforme (ou crachá). Está estampado em seu peito: “Se você acha que isso é um chapéu, precisa ler mais“, acima de uma ilustração de O Pequeno Príncipe. 

Na carreira jurídica seu desejo era levar literatura às pessoas. Como escritora sua responsabilidade é fazer todos enxergarem em sua blusa uma jiboia engolindo um elefante.. Escrever textos de graça para pessoas desconhecidas faz parte disso.

A moça decidiu deixar a advocacia em 2017 para focar totalmente na literatura e se tornar o que é hoje, uma mudança ousada, mas totalmente condizente com a Marina da adolescência. 

Quando mais nova, um acidente a obrigou a ficar de muletas e em repouso. Começou a ler  para passar o tempo e, quando se deu conta, criou um blog para falar sobre suas leituras. Engajada, saiu pedindo parcerias com editoras e uma delas aceitou. A editora Novo Conceito enviava dez livros por mês, durante cinco anos. Em uma versão atual, Marina seria uma “booktoker” ou “booktuber”.

A escritora é muito ativa no Instagram, sua vitrine virtual. Possui um feed organizado, pensado milimetricamente para cativar mais seguidores e atualizar os fieis leitores sobre as  novidades. Sendo independente, a rede social é onde ela pode se promover. Lá, chega dando bom dia nos stories e, assim como na praça, carrega um sorriso largo e a máquina de escrever.

Na  vitrine digital divulga seus quatro livros, um para chorar, outro para rir, outro para chorar e refletir e um infantil. Na praça, quem guia a escrita são os visitantes, mas, quando o assunto é uma obra de fôlego, Marina adora escrever sobre mulheres. Mães, desempregadas, casadas ou viúvas, nenhuma fica de fora. Só no seu primeiro livro são cem histórias de mulheres fictícias com problemas reais.

A realidade sempre mexeu muito com a escritora. Em suas mãos, uma geladeira estragada, uma adega antiga ou uma casinha de passarinhos ganham nova função. Com a ajuda do marido, que faz brinquedos infantis de madeira, Marina reformou esses móveis e os encheu de livros. Ali começou o projeto das bibliotecas literárias.

A geladeira foi instalada na Biblioteca Pública Estadual, localizada em Florianópolis. A antiga adega de seus pais, ficou em São José, ao lado de um cachorro quente do bairro. A casinha de passarinhos foi escolhida para a fachada da sua casa no Ribeirão da Ilha.

Cada biblioteca literária se tornou um caminho para quem não possuía o hábito da leitura pela falta de acesso aos livros. Os retornos sempre foram positivos, cartinhas de crianças agradecendo a variedade de títulos, vizinhos se interessando por leitura e até pessoas que tiveram seu primeiro contato com a literatura através do projeto. 

Entre os usuários da biblioteca literária há pessoas em situação de vulnerabilidade social, que, apesar de não terem casa ou mesmo o que comer todo dia, levam e devolvem o livro em perfeito estado. Esses encontros fortalecem a escuta atenta da escritora no dia a dia. 

Na praça, um rapaz pede a palavra amor. É um recém apaixonado e se sente muito apoiado pela amada para seguir os seus sonhos. Um outro adolescente escolhe paciência, pois essa foi a lição que sua falecida avó deixou.

Maria Elizabete, uma adolescente já conhecida pela escritora, vai  periodicamente à praça. É exigente e nunca abaixa o nível do desafio.

É assim, toda semana. Perto do meio-dia, homens e mulheres passam uniformizados, apressados, em seu  horário de almoço. Senhoras cheias de sacola caminham para pegar o ônibus e estudantes saem em polvorosa assim que o sinal ressoa. Cada um com uma felicidade, angústia e intenção diferente. Naquela quarta-feira, Marina teve de  esperar  a chuva passar para montar sua mesa.

– O que você faz aqui? – pergunta um homem, depois que tudo estava devidamente instalado.

– Eu escrevo histórias de presente para as pessoas.

Ele diz ter ficado preso e longe da família por 17 anos.

Francisco,                               

Processo…

Os lápis se misturam, as cores 

desenham sobre a cabeça e mergu-

lham no papel. Um processo que 

poucos entendem como se forma.

Como se nuvem fosse e a tempestade

de criatividade jorrasse nas te-las.

Eis a vida de intempéries de um artista.

foto Marina Bernardo

Marina Bernardo

marina.bernardobr@gmail.com
26.1

Comments are closed.