A reportagem literária vai além dos fatos: mergulha em emoções, constrói cenas e convida o leitor a sentir
Foi no final de maio que um time francês entrou para a história. O Paris Saint-Germain (PSG) consagrou-se campeão da mais importante competição de futebol europeia, a Champions League. Na última partida do torneio, a equipe enfrentou o Internazionale de Milão, que possuía a melhor defesa da temporada, e o PSG marcou 5 gols: aos 12 minutos com Hakimi; aos 20 com Doué, que repetiu a façanha aos 63; no segundo tempo, aos 73 com Kvaratskhelia; e aos 87 com Mayulu. Durante o jogo, os cânticos da torcida fizeram a diferença ao “empurrar” os jogadores. O time francês tem um histórico de manifestações em dias de jogos, como erguer, em meio às arquibancadas, bandeiras em apoio à Palestina. Naquele sábado, 31, comemoraram a vitória com a euforia digna de quem conquista um título pela primeira vez. Mas uma homenagem especial da torcida conseguiu emocionar atletas, repórteres e, principalmente, o técnico do time.
Uma bandeira fez os olhos dos presentes marejarem, inclusive os do técnico espanhol Luis Enrique. Nela, uma ilustração fazia alusão à foto de 2014, que mostrava pai e filha caminhando juntos de mãos dadas. A imagem estampada era real. Luis Enrique, então técnico do Barcelona, estava com sua filha Xana, falecida em 2019 em decorrência de um câncer raro. Cinco anos depois, no auge de sua carreira técnica, ao levantar a taça da Champions com o PSG, dedicou a temporada a ela, que não chegou a vê-lo como técnico da equipe francesa.
A homenagem, explica Edvaldo Pereira Lima, pioneiro na pesquisa de jornalismo literário no Brasil, é um retrato daquilo que se precisa capturar: a sutileza que forma as histórias humanas. “Aquela bandeira não é só uma bandeira”, argumenta o pesquisador. “É também uma narrativa para quem estava ali observando. Por isso que todo mundo se emociona”. Naquele episódio, os jornalistas tinham como missão a responsabilidade de explicar não só a cena, mas o seu simbolismo, e usar técnicas literárias seria um caminho muito mais adequado que o discurso jornalístico tradicional.
No Brasil, a prática pôde ser observada desde o começo do século passado, quando nomes como Euclides da Cunha e João do Rio fizeram da reportagem algo mais do que uma descrição do factual, e incorporaram técnicas tradicionalmente ligadas à literatura. ”Você dá ao receptor a possibilidade dele viver um pouco, mesmo que simbolicamente, a atmosfera emocional e intelectual de um acontecimento, de uma situação”, explica o pesquisador. Os diálogos, por exemplo, são reproduzidos com uma certa riqueza intencional, algumas cenas ganham destaque e os detalhes são trazidos como um complemento da história contada.
Monica Martinez, também pesquisadora e referência na área, destaca outro ponto que traria mais força a essa diferenciação entre as duas formas de produção jornalísticas. “O jornalismo literário, por exemplo, trabalha com objetivo atrelado a outro valor notícia e nunca precisou de gancho”. No jornalismo, o termo é a definição de uma característica capaz de dizer quais acontecimentos são considerados relevantes o suficiente para serem noticiados pelos veículos de referência. Segundo a pesquisadora, no jornalismo literário, o valor é dado por questões que estão presentes todo tempo, mas que passam despercebidas. Um exemplo disso está no texto “O álbum”, publicado no livro “A vida que ninguém vê”, onde a autora Eliane Brum conta a história de álbum de fotos jogado no lixo que foi achado por uma mulher que tentou traçar a história das fotos presentes nele. E, ao fazer isso, resgatou algumas memórias, afetos e identidades.
Além disso, as narrativas seriam construídas como um mosaico, em que cada peça diferente é pensada para encaixar na formação de um retrato profundo e completo do tema abordado que, para Edvaldo, pode ser montado a partir de qualquer eixo temático. “Pode ter uma reportagem da área de ciência, da área de comportamento, da área de entretenimento, da área do esporte…” A centralidade da narrativa se baseia em outro fator que não a temática em si.
O professor propôs em suas pesquisas que o jornalismo literário tem um compromisso distinto do jornalismo considerado “tradicional”: “O objetivo é ultrapassar o nível da informação.” E, para isso, a centralidade nas pessoas ganha destaque. Na prática, isso significa que o personagem não é apenas fonte. “Ele é tratado como alguém real.” Essa atenção diferenciada à realidade é como uma fonte inesgotável de surpresa e emoção. O cotidiano oferece episódios que superam, muitas vezes, a ficção em beleza e impacto. Esse olhar mais atento ao que acontece ao redor distingue o jornalismo literário de outras práticas narrativas, justamente por revelar o potencial extraordinário das histórias aparentemente comuns.
Embora pareça mais livre, essa é uma produção que exige muito do repórter. A construção não se trata apenas do registro das emoções ou impressões. A prática exige convívio. “Quando o jornalista permanece mais tempo com o personagem, ele ultrapassa aquela imagem inicial que o outro tenta vender de si. Ganha-se a verdade”, afirma Edvaldo. Essa diferença de ritmo redefine também a relação com o leitor. Em vez de oferecer respostas rápidas, o texto literário constrói nuances. “Você lê e sente que está participando de algo”, diz Monica. “Não como um espectador distante, mas como alguém que está dentro da cena”.
Outro ponto defendido pela pesquisadora é que o jornalista literário atua em uma zona delicada: ao lidar com seres humanos reais, é preciso estabelecer uma relação pautada pela empatia, mas sem confundir os papéis. Ela ressalta que o vínculo criado durante o processo de apuração pode gerar, por parte da fonte, a ilusão de amizade ou proximidade emocional, especialmente em uma cultura como a brasileira, marcada por relações mais calorosas. No entanto, o jornalista está ali com uma missão clara: compreender profundamente aquela realidade e amplificá-la, sem colocar em risco a integridade física ou emocional do personagem retratado. O pacto ético entre repórter e fonte, lembra Monica, deve ser transparente desde o início. A ideia é defendida por estudiosos como Mark Kramer, uma das referências na área.
Essas relações precisam ficar claras também por outro motivo. Cada reportagem demanda um tempo de apuração diferente, que pode ser de meses ou até anos. E uma rara habilidade: manter o interesse de quem a lê ao longo de uma narrativa mais extensa. No jornalismo informativo, o tempo curto é quase regra. A pauta nasce pela manhã e precisa ser entregue antes do fim do expediente. No literário, o tempo se transforma em ferramenta de apuração. “Demora-se mais, sim, apesar de ser possível fazer jornalismo literário em menor tempo. Mas não é desperdiçado. É investimento”, defende Edvaldo.
Se a notícia privilegia as respostas objetivas a “O Quê?”, “Quem”, “Quando?”, “Por que?” e “Onde?, a reportagem literária aposta em ambientação. “Parece um luxo ter, por exemplo, dois meses de apuração. Mas, sinceramente, para mim só vejo ganhos”. Para Edvaldo, a linguagem não se limita ao que pode ser contado e esse tempo dá ao jornalista um espaço maior para que se preocupe em como contar. “No jornalismo literário, o texto é uma peça cultural, não apenas informativa”, diz. “Ele é construído com recursos narrativos e literários para tocar o leitor não apenas pela razão, mas também pela emoção e pela intuição.”
Essa linguagem sensível, porém, não é sinônimo de subjetividade aleatória, sem propósito jornalístico. A precisão continua sendo regra, ainda que por outros caminhos. “Não se trata de inventar ou romantizar a realidade”, pontua Monica. Apesar de fazer uso dos recursos literários, em nenhum momento, o jornalismo construído a partir disso deve ficcionar nada. “Trata-se de escutar mais, de ver melhor, de transformar a complexidade da vida em palavras que o leitor possa sentir”.
Os dois pesquisadores defendem que há muito interesse na prática do jornalismo literário e veem com bons olhos as novas produções: podcasts e newsletters. “São lembretes de que a boa narrativa segue sendo desejada e possível”, afirma Monica. Exemplos são obras como “Arrastados”, “Todo dia a mesma noite” e “Holocausto brasileiro”, todas da jornalista e escritora Daniela Arbex, que, após seus lançamentos e popularidade, pautaram discussões políticas e judiciais sobre os seus respectivos casos. Arbex também fez uma excelente pesquisa documental para redação de seus livros e um deles foi a base para a produção de uma série para Netflix sobre a tragédia da Boate Kiss, no Rio Grande do Sul.
Edvaldo enxerga nisso um cumprimento de papel: “Quando o jornalismo não se limita a reproduzir o factual e não abandona sua função de aprofundar a realidade, cumpre-se a função jornalística.” Monica concorda e tem o jornalismo literário como uma forma de resistência. “Não é um luxo. É onde o jornalismo reencontra sua vocação de testemunha e sua responsabilidade ética de escutar o outro com respeito e profundidade”. A professora vai além e instiga os profissionais, citando uma frase do premiado documentarista Eduardo Coutinho: “O que eu penso, já sei. Quero me aprofundar no que o outro pensa”.


