Entrei pela porta dianteira do ônibus, passei meu cartão, girei a catraca e
sentei em uma poltrona ao lado da janela. Os dias na ilha são tão quentes que
ardem a pele, e tem momentos que os passageiros chegam a ficar com febre. Sou preparada e levo um leque na bolsa para me abanar durante o trajeto inteiro.
Naquela manhã, sentou ao meu lado uma senhora de um metro e meio de altura,
cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, regata e calça legging até o
joelho. Ela me ofereceu um sorriso, coisa rara no transporte público. Percebi que reparou em mim, especificamente no meu leque, e certamente no meu estado,
suada e vermelha.
– Tá muito calor, né?
Faço que sim com a cabeça, o espaço abafado do ônibus me deixa com
preguiça de conversar.
– Sabe o que é bom pro calor?
Taí, a senhorinha bacana vai me passar um conhecimento milenar, desses
que se passa de vó para neta. Diga-me, então – penso – o que amenizaria o
sentimento inevitável do desespero frente ao aquecimento global.
– Melão! Sabia que o melão é a fruta da mulher?
Não, eu não sabia, nunca tinha ouvido falar.
– Eu comi muito melão quando era novinha, e, agora, minha temperatura tá
ambiente, não sinto calor!
Tento acreditar na senhora, espero que seja verdade. Ficamos em silêncio de
novo, mas ela não para de reparar em mim.
– Você é ansiosa?
Fico assustada no assento do ônibus, não sei porque me tornei tão
interessante pra ela. Lembrei que os passageiros também ouviam aquela conversa,
e não soube como responder. Mexi a cabeça sem jeito, ela entendeu como um sim.
– Quantos anos você tem? Deve ter uns vinte, né? Você é muito nova pra ter
ansiedade – fico ainda mais encabulada, ela acertou minha idade e ainda me
repreendeu.
– Sabe o que é bom pra ansiedade? Passar argila natural nas palmas das
mãos antes de dormir, e, às vezes, até nos pés.
Tenho agora as soluções dos dois maiores problemas do século XXI, a
ansiedade e o calor. Digo que estou surpresa, não sabia de tudo isso.
– É que eu gosto de ajudar as pessoas como posso, sabe? Eu gosto de
ensinar o que sei – agradeço e voltamos ao silêncio. Ela dorme na poltrona, mas
preciso acordá-la para ir embora. Ela me dá tchau, e diz pra eu lembrar do que ouvi.
Chego no trabalho e anoto na agenda: essa semana preciso fazer mercado.


