A crônica resiste com leitores fiéis, projetos independentes e a crença na leitura do cotidiano
A maioria dos velórios segue um ritual. Primeiro temos um morto, depois um caixão, as flores, acendemos as velas e, por último, os entes queridos chegam. O mais difícil, no entanto, é o inevitável: reconhecer que ela morreu. Era 1992, quando Otto Lara Resende, publicou, na Folha de S. Paulo, o texto: “A defunta, como vai?”. Nesse caso, quem tinha passado dessa para melhor era a crônica literária e o autor lembrava de quando, em 1972, questionou nomes como Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade sobre o “fim” da vida deste gênero tão brasileiro. As respostas foram as mais variadas: da afirmação da Clarice que o papel de cronista não lhe cabia, ao simples resmungo de Rubem Braga que Otto não entendeu.
O questionamento de 50 anos atrás, foi se repetindo ao longo dos anos aqui e ali e, em 2023, o escritor Julian Fuks reacendeu a vela, desta vez no portal UOL. A crítica cita os ‘imperativos’ da produtividade, seja no trabalho, na diversão ou no vício, como um dos causadores da morte do gênero literário. Já que as crônicas exigem observação do cotidiano, nelas cabe a história acontecendo em uma esquina ou a fala entrecortada em um ônibus após o expediente. Mas tudo isso exige disponibilidade para parar e ver. Para o cronista, a morte estava anunciada por ela ser incapaz de competir com algoritmos, timelines e a viralização, típicos de uma vida em contínua aceleração. Isso pode até ser uma meia verdade, se pararmos para pensar no nosso tempo de atenção cada vez menor. Mas a crônica morreu?
Henrique Fendrich, jornalista e editor da revista digital Rubem, não hesita em afirmar: ela está viva. “O que falta é espaço, não qualidade. Temos cronistas excelentes espalhados pelo Brasil, gente com voz própria, escrevendo muito bem. O problema é visibilidade, não vitalidade”.
Fundada em 2012, a Rubem é uma das poucas revistas do país voltadas exclusivamente à crônica. O nome é uma homenagem ao escritor Rubem Braga, considerado um dos melhores e mais importantes cronistas do Brasil. No seu time, 14 escritores são responsáveis pelas atualizações frequentes do site, um acervo de resenhas, entrevistas e organização de prêmios literários, como o Sabiá, voltado à produção independente. A Rubem veio ao mundo fruto de uma necessidade pessoal. “Quando criei a revista, sentia o gênero ser tratado como algo menor. Críticos e jornalistas muitas vezes nem sabiam direito do que se tratava.” Fenderich enfatiza sua vontade da crônica ser tratada com a mesma seriedade dedicada ao romance e à poesia, por exemplo.
Mais de uma década depois, ele ainda sente falta de apoio de mão obra na hora da produção dos conteúdos para o site como, por exemplo, resenhas de livros de crônicas. A gestão da Rubem é mantida por ele e pelo colega Anthony Almeida, mas sem equipe fixa, apoio institucional ou promessas de lucro. “Precisamos estar onde os leitores estão. Nosso público ainda é mais velho, mas o jovem tem interesse, sim. Só que ele está no Instagram, no TikTok. E a crônica precisa aprender a falar essa linguagem.” Segundo a pesquisa “Retratos da Literatura”, promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em 2024, entre os leitores que consomem literatura apenas por meios que não sejam livros, 18% afirmaram ler crônicas em sites e 16% pelas redes sociais. A Rubem, atualmente, conta com um perfil somente no Instagram.
Em sua equipe, Henrique tem uma das cronistas do jornal Matinal, que narra o cotidiano e a cultura de Porto Alegre, mas seus textos vão muito além. Nathallia Protazio se descobriu cronista quando um professor apontou isso em uma oficina de escrita, na capital gaúcha, em 2019. Ela escrevia textos curtos, diretos, reflexivos, sem nem saber que aquilo era crônica. Depois, ela começou a estudar o gênero, entender suas características e, aos poucos, assumir sua identidade e ter sua própria marca como cronista. Nathallia foi a vencedora do último Prêmio Sábia, organizado pela Rubem.
A cronista despretensiosa viu naquele modo de escrever um compromisso. “Isso é a força da crônica: a voz colada no leitor, a sensação de que alguém está conversando diretamente com você”. Ela sente que, em alguns casos, a crônica pode ser “empurrada” para fora do mercado e é direta ao dizer um dos motivos para isso. “O mercado editorial brasileiro, em alguns momentos, quer imitar moda de fora. Portanto, acham que só vai vender aqui, o que vende nos Estados Unidos. Mas a crônica, como ela é, nem existe lá fora”. A escritora reforça que essa comparação não deveria existir, já que os públicos são diferentes.
O efeito disso, segundo ela, é um apagamento do gênero pelas editoras, um mito de que crônica não vende. Pergunto: Como vai vender se não publicar? Nathallia afirma que isso pode se tornar um “ciclo vicioso”. O mercado olha para fora e esquece do leitor daqui, que lê crônica, que compra livro e se identifica com esse tipo de escrita. Há também outros dados importantes para compreendermos o comportamento do público. Na mesma pesquisa da CBL, 54% dos leitores que consomem exclusivamente literatura, afirmaram ler crônicas regularmente e por vontade própria. O número cai para 44% na categoria de leitores no geral e fica em 55% nos que leem crônicas exclusivamente fora de livros. No ano de 2024 a Companhia das Letras, por exemplo, lançou apenas um livro de crônica, de um autor não brasileiro.
Na Editora Arquipélago, Luis Henrique Pellanda acompanhou o processo de lançamento de alguns livros de crônicas. Atualmente, o editor-chefe trabalha em uma obra póstuma da cronista e jornalista Elvira Vigna, vencedora de um Prêmio Jabuti na categoria Literatura Infantil. Ele defende que o gênero é uma das formas mais potentes de observar o tempo presente, como uma lente para o cotidiano que incentiva o leitor a se ver no outro. “Na travesti da padaria, no PM da esquina, no vizinho silencioso. Não é sobre o cronista, é sobre o mundo à sua volta”. A crônica tem esse objetivo. Mostrar o compartilhamento de um “mesmo” ambiente, e a mesma tradição de histórias que faz de nós brasileiros, que faz de nós humanos.
Ele afirma que, em alguns momentos, os brasileiros deixaram isso de lado. “Na pandemia, por exemplo, as pessoas passaram a procurar textos que reafirmassem o que já pensavam. A literatura ficou em segundo plano”. Também pontua que sentiu que ela perdeu espaço nos grandes jornais, dando lugar aos artigos de opinião disfarçados de crônicas. Mas, diz, aos poucos, o interesse orgânico das pessoas voltou a aumentar. “Ela agoniza, mas não morre e, além de tudo, se adapta.”
Como outros cronistas, Pellanda considera injusta a ideia de classificar a crônica como um “gênero menor”. “Escrever crônica exige muito. Você deve ser preciso, sensível, direto. Falar com todo mundo sem ser raso. É um texto que precisa atingir diferentes tipos de leitores – e isso é difícil. Não existe leitor ‘burro’ de crônica. Existe o desafio de escrever bem para todos”. Hoje, a crônica circula em lugares como sites, blogs, newsletters, redes sociais, mas nem por isso recebe destaque quando reunidas em livros. “Os canais para [divulgação de] literatura são mínimos”, queixa-se Pellanda.
Luis, Henrique e Nathallia não conseguem traçar com precisão um perfil do leitor de crônicas, mas concordam que há um distanciamento entre a realidade do leitor e a lógica do mercado. “Existe demanda por crônica. Porque crônica diverte, critica e preenche as lacunas sociais que outros gêneros podem deixar”, enfatiza a autora. A cronista, hoje, assume outro papel, o de professora. Organiza oficinas de crônicas para quem deseja se aprofundar no tema. As inscrições acontecem de maneira simplificada. Ela publica em suas redes sociais, as pessoas se inscrevem e, frequentemente, ocupam todas as 20 vagas.
Henrique confirma que o retorno também vem de curtidas, comentários e compartilhamentos. Os leitores gostam, reagem, sugerem… mas é tudo muito à margem. Para ele, falta ainda uma engrenagem que coloque a crônica no lugar que ela merece.
Lá em 1972, Rachel de Queiroz foi enfática: nunca houve a morte da crônica. Encarava como maré alta ou maré baixa. Para os entrevistados de hoje, porém, a metáfora da maré talvez já não baste. A resposta é mais direta: a crônica está mais viva do que nunca. Em 2023, a também cronista Ana Elisa Ribeiro, em resposta ao texto de Fuks, pediu que os leitores continuassem a consumir crônicas, principalmente, de quem está na ativa. “Há gente bem viva mantendo a crônica ON. Mandaram, aliás, dizer que respiram sem a ajuda de aparelhos. E que não obedecem aos caprichos de escritores em dias difíceis”. A mineira de Belo Horizonte escreve com conhecimento de causa: desde 2012 já lançou quatro livros de crônicas reunidas.
O próprio Fuks, em novo texto, devolveu a provocação com lirismo e ironia: decretou “a morte da morte da crônica”. Reafirmou que nenhum cronista tem o poder de matar, ou ressuscitar, o que sempre foi coletivo, plural e teimosamente vivo. E, segundo ele, o que a crônica precisa é de barulho: uma algazarra bonita, cotidiana, dissonante o suficiente para atravessar o tempo. “Se foi pela crônica que você se apaixonou pelo texto, não vira a casaca”, brinca Nathallia. Que assim seja, para que ninguém mais adiante seu fim.


