Eu posso ter só 20 anos, mas desde que me entendo por gente, quando penso na minha bisa, a vejo com um saquinho de supermercado cheio de linhas e uma agulha de crochê. Na casa dela, até o vaso sanitário tem uma daquelas capinhas bordadas típicas de casa de vó. Minhas primas mais velhas aprenderam com ela: sentavam ao seu lado, observavam em silêncio e, com o tempo, foram pegando o jeito.
Hoje, no auge dos seus 90 anos, ela ainda senta todos os dias na varanda para fazer o tão amado crochê. Adora bordar paninhos de louça com cores diferentes, para presentear a família ou só para passar o tempo e ocupar a mente.
O marido já se foi, os filhos já não moram mais ali, os irmãos têm suas próprias famílias. O que ficou foram as visitas de fim de semana dos filhos, netos e bisnetos enchendo a casa, e claro, o seu inseparável kit para bordar.
Ela até perdeu um pouco do jeito depois de uma cirurgia para retirar um câncer, mas nunca desistiu. Se erra um ponto, desfaz tudo e começa de novo, sem reclamar.
Dia desses, ela perdeu a agulha. Procurou pela casa inteira: revirou gavetas, armários, livros da sala.. Chamou as filhas para ajudar. Com a movimentação, perguntei o que estavam procurando há tanto tempo. Minha tia-avó respondeu:
— Bebe, a Wawá não está achando a agulha dela, tadinha.
Levantei do sofá e falei:
— Ué, gente… tá aqui na poltrona do lado de vocês, olha! — e entreguei para a minha bisa.
Acho que nunca a vi tão feliz. Deu uns pulinhos e até me abraçou – o que, vindo dela, é raro.
No fim,disse:
— Quando eu morrer, quero que coloquem uma agulha de crochê no meu caixão.
Aí eu entendi. Para ela, aquele não era só um objeto. Era companhia, era memória, era o jeito de seguir ocupada, mesmo quando tudo à volta já não era mais a mesma coisa.
E percebi que, às vezes, o que parece pequeno pode ser justamente o que segura a vida de alguém pelas bordas.


