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AMA-SECA

12:15h. Quinto dia útil do mês.  Eu me dou o luxo de comer em um restaurante quase chique. O estabelecimento fica dentro de um clube, que é chique de verdade. O ambiente estava lotado. Enquanto espero para fazer meu prato, percebo duas crianças correndo e gritando. Os meninos, gêmeos idênticos, tinham bastante energia e não queriam deixar ninguém no recinto almoçar em paz. Os cabelos cacheados loiros e os olhos azuis até passavam uma impressão angelical, que logo se desfez. Deram voltas em torno do buffet, passaram as mãos em todas as colheres da mesa de sobremesas, driblaram o garçom. “Olé!”, pensei. Depois de tanta diversão, acho que bateu a culpa. Um deles se ajoelhou no chão e começou a chorar, alto. Aquele choro infantil que escutamos na sessão de doces do mercado ou na sala de vacinação do posto de saúde. Mesmo atordoada com a situação, me sento para comer, mas, antes disso, tento caçar com os olhos onde estão os pais das ferinhas à solta. Será que só eu as notei? 

Neste momento, uma mulher negra de roupas simples e cabelos desgrenhados sai de uma das mesas e tenta acalmar a situação, sem sucesso. Os meninos fogem, se escondem atrás das cadeiras, enquanto os  pratos esfriam. Inclusive o dela. Nesta mesma mesa, um homem segue sentado. Ele dá algumas garfadas na comida, enquanto mexe no celular, com uma calma invejável. A mulher finalmente consegue capturar os garotos e colocá-los sentados para comer. O semblante dela parece até aliviado, uma vencedora, de fato. Percebo que eles vestem o uniforme de um colégio renomado, que segue os preceitos de González Pecotche, um dos maiores pedagogos da história recente. Queria muito saber da opinião dele sobre essa cena do restaurante. 

Poucos instantes depois da trégua, o homem à mesa termina de comer e se levanta. Ele pega um menino pela mão e o outro no colo, em direção ao caixa. 

Quer um chocolate, filho?

A mulher enche um garfo, coloca na boca, dá duas mastigadas apressadas e vai embora junto com a família. No prato dela, ainda sobraram algumas boas gramas de arroz e feijão. Além da sobremesa, que ela não pode experimentar. A salada de frutas estava deliciosa, mas me desceu amarga.

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Luana de Almeida Angelo

luanadealmeidaangelo@gmail.com
23.2

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