Quinta de manhã, recebi uma mensagem. Era de Cássia, uma velha amiga com quem eu costumava dividir meus sonhos mas, ultimamente, compartilhava apenas recados retóricos para que não nos convertêssemos em novas estranhas.
“Mari, quer vir no estudo de hoje? Vamos falar sobre a volta de Jesus”, dizia.
Nascida em uma família católica, cresci rezando pelo paraíso, mas a correria da vida fez com que eu parasse de me preocupar com tudo aquilo que viria depois dela.
Aceitei seu convite.
Rezar não me fazia falta, mas a companhia de Cássia, me fazia muita.
20 horas. Liguei meu computador. Abri a chamada de vídeo.
Seu rosto era tão familiar. Me sentia perto de casa, ainda que 700 quilômetros nos separassem.
Que bom te ver, Cá!
Eu tô muito feliz que você tá aqui, Mari! E Jesus também.
Ela abriu sua bíblia e perguntou se eu ainda carregava a minha.
Faz muito tempo que não vejo uma. Se Jesus voltar, eu tô ferrada!
(Meu nome é Mariana e meu sobrenome é fazer-piadas-em-momentos-desnecessários)
Quando ele voltar – me corrigiu. Mas não tem problema, a gente faz com a minha.
Começamos.
Lemos versículos e versículos.
Confesso que, por mais que já quase nem me lembrasse do “Pai Nosso”, no fundo, eu estava rezando para que parte de mim ainda acreditasse no seu significado.
Desliguei o telefone com a sensação de que me faltava algo. E, naquela noite, nada havia preenchido.
No outro dia, segui a rotina. Manhã fria. Sol brilhante. Céu azul.
Me benzi quando acordei – por hábito, não de forma sincera. Peguei minha mochila, chaveei a porta. No caminho para o trabalho, me deparei com um homem estirado no chão. Sozinho. Não tinha cama. Não tinha cobertas. Não tinha comida. Talvez até tivesse documentos mas, com certeza, já não tinha identidade.
Do lado dele, resquícios da noite anterior: algumas embalagens abertas e garrafas vazias. Sujeira. Aquilo era um bar para uns e um teto para outros.
Mas essa cena não me soava estranha. Seu corpo, mal-vestido, estava machucado. Seus olhos pareciam tristes. Seus braços se mantinham abertos em forma de cruz. Seus pés, um sobre o outro. Na cabeça, não havia coroa de espinhos mas, de longe, eu conseguia sentir o peso da cruz que aquele homem carregava.
Olhei para ele, respirei fundo. Ainda me faltavam respostas mas, ali, me sobravam perguntas. Meu silêncio gritou.
E se, na verdade, Jesus nunca tiver ido?


