— Ganhamos na loteria!
Ouço os gritos da minha mãe lá do portão, acompanhados pelo som metálico das cadeiras de praia se chocando. O barulho era uma ruptura em um verão sem muito o que contar. O mar parecia que, naquele janeiro, tinha um vai e vem mais lento, o vizinho com música alta havia se mudado, o sol não ardia tanto e os salva-vidas pouco trabalharam.
Foi então que ouvi os latidos cansados de uma cachorrinha. Os pelos emaranhados, talvez, em algum momento, foram brancos; com olhos lacrimejantes e tristes, ela apareceu nos braços da minha mãe. Enquanto providenciava água e comida, ela contava para o meu pai que a cachorrinha certamente tinha pedigree e que filhotes assim chegavam a custar até 4.500 reais. Ela foi apelidada de Belinha, na tentativa de acertar o seu nome real.
A verdade é que, apesar da inicial intenção da minha mãe de ficar com ela caso ninguém aparecesse, Belinha estava agonizante. Ela mal comia, apesar de sua clara desnutrição, passava o tempo choramingando sem forças e tinha uma cara tão triste que não combinava com aquele ambiente de férias. Fiz o que qualquer pessoa faria: pesquisei na internet sobre como fazer um cachorro feliz. Encontrei um tópico sobre passeios, peguei a coleira do meu outro cachorro e saímos para caminhar. Após apenas cinco minutos de caminhada, ela começou a ficar mais lenta. Com oito minutos, estava ofegante. Aos 10, simplesmente parou e, depois de 15 minutos, deitou no chão com as pernas trêmulas, espasmos e o corpo completamente fraco, um claro sinal de exaustão. Saí com uma cachorra triste e retornei com ela ainda mais triste e, agora, debilitada.
Na esquina da minha casa, um homem com a barriga à mostra por baixo da camiseta e segurando um cigarro me perguntou se a cachorrinha era minha. “Não, minha mãe a encontrou na praia,” respondi. Foi então que ele me contou sobre a vizinha, dona da cachorrinha, que estava desesperada, e que eu poderia levá-la de volta para ela. Ele se ofereceu para me indicar o caminho.
Quatro esquinas à frente, e eu estava diante de uma casa térrea, com um teto baixo e paredes pintadas de azul. Na área, havia cerca de cinco pessoas. Assim que apareci no portão com Belinha no colo, a cachorrinha, agora menos exausta, abanou o rabo. “É ele! É o Thor! Você o encontrou!”, elas gritaram.
Ele? Após algumas perguntas sobre como o encontrei, elas me contaram que haviam chegado antes da virada do ano, mas o cachorro não estava acostumado a andar de carro. Quando desceram do veículo, ele saiu correndo desesperadamente, e, desde então, não conseguiram mais encontrá-lo. Enquanto ouvia o relato, uma mulher de cabelos loiros pintados, presos em um coque desgrenhado, e vestindo um roupão rosa, com um esforço evidente em cada movimento, apareceu apoiada em outras duas mulheres. Elas trouxeram Rose, a mãe do Thor. Rose chorava, falava lentamente e deixava frases sem conclusão. Neste ponto, eu já estava achando que a história bonitinha estava se tornando um pouco dramática. Já dentro da casa deles, comecei a pensar que talvez fosse uma estratégia para atrair vítimas para o tráfico de órgãos. Foi então que o marido de Rose, o mais calmo naquela situação, se aproximou de mim e disse:
— Ela está dopada de calmantes, fazia dias que ela só chorava e não dormia. Não sabia mais o que fazer.
Falei três frases genéricas de consolação. Ele continuou:
— Ela o vê como um filho. O sonho da vida dela era ter filhos. Quando descobriu que não poderia engravidar, eu dei esse cachorrinho para ela. É por isso que ela está assim.
O verão continuou, ainda com os sons metálicos das cadeiras de praia, mas sem nenhum novo grito de empolgação. Acredito que, de fato, alguém tenha ganhado na Loteria, mas não foi a minha mãe.


