Bolsas de viagem

Bolsas de viagem

Estava sentada numa cadeira branca, dessas com o braço fino demais para apoiar o antebraço ou o cotovelo de maneira confortável, por isso, permaneço com as mãos unidas entre as pernas. O ambiente tem luzes brancas e fortes, as quais não estou acostumada, e um cheiro limpo, talvez de soro fisiológico. Todas as cores que vejo ao meu redor são frias e sem graça. Azuis muito neutros, cinzas chatos, brancos sem vida.

À minha frente, minha irmã acaba de sair da sala com seu marido, ambos meio distraídos, meio não ligando para a falta de vida do lugar, meio cumprindo tabela, meio querendo ir embora. Quando restamos apenas nós duas no quarto, decido observar a senhora que já foi cheia de vida, mas hoje sequer se lembra da própria história.

Apesar da falta de proximidade com ela, quase perto de zero, começo a refletir enquanto a observo. Ela parece tão calma, tão serena. Não dorme, encara o teto com um leve sorriso no rosto e um olhar tranquilo. Imagino o que está pensando. Será que conseguiu resgatar alguma memória no fundo de sua mente?

A verdade é que meus pais sempre me botaram medo sobre a tal velhice. Que dependemos de outras pessoas. Que não pensamos por conta própria. Que nem lembramos dos momentos mais felizes de nossas vidas. Durante um tempo, isso me incomodou. Quando eu tinha por volta dos 7 ou 8 anos, quando via alguém de idade isso me ocorria. Depois de um tempo eu esqueci desse problema, nem um pouco grande naquela época.

Até me sentar na frente daquela senhora a qual mal conhecia, mas que me sentia tão compadecida como se fosse minha própria mãe. Ela estava num asilo de idosos após seus três primeiros filhos se recusarem a cuidar dela, pois dava “trabalho demais”, e o quarto filho, meu cunhado, ter recorrido àquele lugar com muita relutância após se endividar ao tentar bancar os remédios.

Começo pensando o que ela sentia ao ver os filhos que criou se recusando a cuidá-la. Depois lembro: muitas vezes, ela nem os reconhecia. Se sentia mal? Ou ao acordar, não sentia nada? Seria como recomeçar a vida todos os dias? Ou seria como se sentir aprisionada, com algo bem no fundo do inconsciente tentando te levar de volta ao passado, às coisas simples, à lógica do dia a dia, às memórias e lembranças dos momentos mais felizes e tristes, os mais marcantes?

Por um tempo, falei para meus amigos e familiares que preferia morrer jovem enquanto ainda “funcional e independente” a passar anos deitada, presa por remédios intermináveis e uma mente confusa. Hoje, olhando para aquela senhora tão doce, não sei se ainda penso o mesmo. Sua bolsa de viagem, cheia de memórias, ainda continuava com ela.

Sou arrancada de meus pensamentos profundos quando minha irmã volta ao quarto, me chamando para ir embora. Ela estranha eu ter ficado ali com sua sogra, pois fui apenas para acompanhá-la. Antes de sair, ainda no batente da porta, olho novamente aquela figura tão frágil, mas tão forte. Tão doce e, talvez, não tão perdida. Ela me olha de volta. Sinto um abismo entre nós, apesar de vê-la bem ali. 

Por um instante, penso que a velhice nunca tenha sido o esquecimento. Talvez seja apenas o momento no qual a bolsa de viagem fica pesada demais para ser carregada sozinha. As lembranças continuam todas lá, mas já não encontram o caminho de volta até a boca. Ao sair do quarto, entendi que o que mais assusta não é perder as memórias. É olhar para alguém que passou uma vida inteira enchendo essa bolsa e perceber que o mundo, por não conseguir mais abri-la, insiste em dizer que ela está vazia. Acho que a bolsa de viagens daquela senhora ainda estava inteira, e bem cheia. Talvez ela tenha só perdido o zíper.

Samara

Samarah Susie

samarahsz.oliveira@gmail.com
26.1

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