Sinto um desconforto enquanto o som da tv preenche o consultório.
– Olha só gente, mais um caso de racismo. A moradora de um condomínio acusa sua vizinha de insultos raciais…
É um gosto salgado que não dá pra ignorar. O jato de bicarbonato é substituído pela água. Faço bochecho e cuspo, um pouco de alívio antes de seguir em frente.
– A vítima disse ter sido chamada de macaca e prestou queixa à polícia por injúria racial.
É frio. O metal gelado passeia pela minha boca enquanto a saliva acumula. A dentista exclama intrigada:
– Meu Deus…
O aspirador de saliva começa a trabalhar. O barulho parece interromper a TV e o pensamento da dentista. Com minha boca seca, a doutora continua:
– Olha… É inacreditável isso, sabe…
Pausa. Já sei o próximo passo, aí vem os arames. Essas linhas de ferro são colocadas na minha boca com tanta sutileza, que só percebo quando machuca. Não é a primeira vez que passo por isso, o procedimento sempre é o mesmo. Tão repetitivo que acabo prevendo o que vem a seguir.
– Realmente não dá para acreditar… Esse negócio de racismo, sabe? Como que esse negócio ainda existe?
Minhas sobrancelhas levantam. Sinto um aperto forte nos dentes, dói. Aos poucos a sensação alivia, o costume me ensinou a ignorar. O aparelho precisa mexer em todos os dentes para corrigir alguns erros. A mudança é lenta, mas acontece. Paciência. Água, bochecho e cuspe, seguimos em frente.
A televisão muda de assunto, começa a falar sobre esportes. A dentista vira de costas e volta com uma cartela de pequenos elásticos nas mãos.
– Qual cor, Marcos?
– Acho que preto…
Reabro a boca, hora de fixar os arames. Todas as borrachinhas são colocadas no
seu devido lugar. Não dói, mas a pressão continua.
– Vê se não tem nenhuma pontinha solta machucando.
Passo a língua nos dentes e respondo que não, com a cabeça. Levanto e me despeço. A manutenção custou 130 reais e alguns minutos. Saio e esqueço do troco.
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