Em Santo Amaro da Imperatriz, o arremate de massas transforma promessas individuais em tradição coletiva
As vozes vinham de todos os cantos do salão. Perto da porta, alguém deu um lance. Ao lado da janela, outro fez o mesmo. Entre sorrisos e risadas, alguém gritava “vinte e cinco” antes mesmo de o leiloeiro, um homem de aproximadamente 40 anos, vestido com uma camisa de moletom cinza, terminar a contagem.
Eram oito da noite, em Santo Amaro da Imperatriz, cidade com cerca de 27 mil habitantes, a 40 km ao sul de Florianópolis. Naquela quarta-feira, 13 de maio, cerca de 150 moradores reuniram-se no salão de festas da Paróquia São Francisco de Assis. O cenário, porém, era uma exceção à tradição. As novenas do Divino costumam acontecer nas casas dos moradores, reunindo a comunidade em salas e garagens. Desta vez, a celebração foi transferida para um local maior, para acomodar mais pessoas.
A mesa de madeira ocupava o centro do salão. Simples, comprida, coberta por uma toalha de cor clara. Sobre ela, dezenas de massas lado a lado. Pães trançados, figuras humanas, pés, braços e corações anatômicos moldados à mão. Símbolos do agradecimento pelas graças alcançadas.
“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três”. Rapidamente outro pacote já atravessava o salão nos braços de um homem que tentava estimular novos lances. Mulheres entre 70 e 80 anos caminhavam devagar ao redor da mesa, observando os pães com atenção. Algumas conversavam baixinho entre si, outras apenas acompanhavam com olhar atento. Alguém gritou “cinquenta”, com um sorriso de orelha a orelha, enquanto cumprimentava um conhecido. “Vendida”.
Entre os presentes, crianças correndo do lado de fora e jovens de moletom, encostados perto da porta. Os idosos se vestiam como quem ia para um evento social: camisa, sapato engraxado e casacos pesados, apesar do calor dentro do salão. Muitas mulheres carregavam travessas cobertas por pano de prato e estavam com cabelos cuidadosamente arrumados. Alguns homens mantinham as mãos cruzadas atrás das costas, enquanto observavam o movimento.
O perfume forte das senhoras e o da comida que seria servida após o leilão misturavam-se ao cheiro das massas recém-assadas. Todas estavam embaladas em saco transparente, fechado com etiquetas vermelhas onde se lia o nome dos festeiros. De longe, pareciam produtos comuns em uma vitrine de padaria. Mas não eram.
Naquela noite, durante o leilão, foram arrecadados R$ 15,9 mil. A quantia seria somada ao valor obtido nas demais novenas realizadas em outros bairros e comunidades da cidade e destinada às melhorias das igrejas locais.
Duas semanas depois daquele encontro, a cidade voltaria a se reunir para a Festa do Divino, realizada na Igreja Matriz. A celebração começa na sexta-feira que antecede o domingo de Pentecostes, uma das datas mais importantes do calendário litúrgico, e termina na segunda-feira. Entre os moradores, a crença é de que deve-se vestir roupas novas para a ocasião. No último dia da Festa do Divino, a cidade vive um feriado municipal.
Em 2026, 41 casais da pequena cidade carregaram a bandeira do Divino para a casa dos moradores, levando bênçãos para os lares, e abriram as portas de suas próprias casas para receber a comunidade católica e rezar. Foram 63 novenas, iniciadas no domingo de Páscoa. A tradição de origem açoriana chegou a Santo Amaro há mais de 70 anos. Ali, quase todo mundo conhece alguém que já recebeu a bandeira, organizou uma novena ou preparou uma massa para o leilão.
Tradição
A comunidade presente no salão da paróquia já sabia, portanto, o roteiro. Na última semana, os moradores tinham participado de até três novenas por dia. O ritual era sempre o mesmo.
Durante 40 minutos, a devoção tomou conta do salão paroquial. Os festeiros Gilsineia de Souza e Tarcísio de Souza foram os anfitriões. As vozes acompanhavam as orações em sintonia. Pai-nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai, Vinde Espírito Santo.
Quase ninguém estava sozinho. Famílias inteiras ocupavam o salão e o pátio. Após a reza, o Terno de Reis se apresentou, enquanto a bandeira vermelha do Divino Espírito Santo era erguida diante dos moradores.
Foi quando o padre olhou para os fiéis e sorriu:
— Agora chegou a hora do leilão de massas, né?
Todos se levantaram, puxaram cadeiras e procuraram conhecidos, atravessando o salão para abraçar alguém que não viam há semanas.
“Trinta real. Trinta real. Quem dá mais?”
As palavras saíam rápidas, arrastadas pelo sotaque típico de uma cidade pequena. O leiloeiro ria, enquanto batia de leve na embalagem da massa em formato de coração antes de entregá-la ao comprador.
Ao lado dele, um homem mais jovem equilibrava outra massa em formato de pão trançado nos braços. O rosto estava vermelho, por causa do movimento entre as pessoas.
“Cinquenta. Cinquenta reais”.
Uma mulher levantou a mão.
“Cem”.
“Vendida”.
Sobre a mesa, ainda havia um pé a ser leiloado. Norma dos Passos diz que a filha mandou fazê-lo. O pai enfrentava problemas havia meses. A promessa veio durante uma oração do Divino Espírito Santo. Se ele melhorasse, a família entregaria uma massa no formato da parte do corpo machucada. Deu certo. “Às vezes fazem braço, perna, fazem até um boneco inteiro. Quando a pessoa melhora, é uma forma de agradecer”.
Na cozinha, uma mulher de touca branca ajudava a terminar o jantar que seria servido logo mais. Enquanto organizava os pratos apressadamente, me contou que também havia doado uma massa naquela noite. “Pedi a graça pelos meus três filhos”.
Ela interrompeu o que fazia para procurar uma foto no celular. Na tela, três bonecos moldados em massa, com braços, pernas e olhos feitos com bagas de feijão. Aquela era sua forma de agradecer pela saúde dos meninos.
Ano após ano, cada formato carrega uma história que, muitas vezes, só a própria família conhece. Ainda assim, no momento do leilão, as promessas – e as graças alcançadas – deixam de ser individuais. Passam de mão em mão, atravessam a sala, são disputadas em voz alta e divididas entre a comunidade.
Eram dez da noite quando as pessoas começaram a deixar o local. Logo mais haverá outra novena, todos sabem e deixam isso claro durante a despedida. O ciclo do divino marca o tempo de quem mora em Santo Amaro da Imperatriz.
*Reportagem produzida em maio de 2026













