Chega de saudade

Chega de saudade

Era dia 10 de abril quando vibrou uma notificação no meu Whatsapp. Recebi uma mensagem com tom de vitória do meu grupo de amigos de Cabo Verde. “Gente, vencemos. Só 3 mil reais a passagem ida e volta”. O texto veio acompanhado de emojis de emoção e de dois prints que confirmavam o que anos de rumores não conseguiram. O retorno de voo direto do Brasil para Cabo Verde. Criou-se uma rede de comemoração, surpresa e incredulidade. “Meus Deus, que bênção. Está realmente confirmado?”, perguntavam uns, enquanto outros já se declaravam prontos para o embarque. “Se for verdade, eu com certeza vou estar lá esse ano”. A minha reação foi de “Graças a Deus”, acompanhada de uma figurinha dizendo “me sinto pronta”

Não era exagero. Para quem vive a diáspora, o preço da passagem aérea não é apenas um dado econômico, mas, sim, um encurtamento da distância entre o país onde você precisa estar para se tornar o que você sonhou e o país de origem, onde você nasceu, cresceu e se sentiu protegida pelos seus. A conversa no grupo continuou:

“Vendo e acreditando agora”.

“Eu ainda não acredito, só estando dentro do avião a caminho”.

“Pois é, só colocando o dedo nos furos da mão de Jesus, igual o Tomé, pra crer”

Desde o ano de 2020, quando a Cabo Verde Airlines interrompeu suas viagens, o trajeto entre Brasil e o arquipélago tornou-se inacessível. Sem voos diretos, restavam apenas conexões exaustivas de até 24 horas e passagens que chegavam aos 14 mil reais em classe econômica. Para os cabo-verdianos, principalmente para os estudantes, o custo de visita à terra natal triplicou, transformando o oceano em um muro intransponível. Foram seis anos de saudades acumuladas e falsas esperanças.

Em 2026, a promessa finalmente foi cumprida. O muro que separava o povo cabo-verdiano da sua terra se transformou em uma ponte. Com a confirmação do primeiro voo direto saindo de Recife, o reencontro deixou de ser uma possibilidade para se tornar um plano concreto.

Com essa notícia, até as conversas de vídeos chamadas se tornaram diferentes. O triste “talvez no ano que vem” das mães deu lugar à ansiedade e à expectativa do reencontro. “Ô mãe, quando eu chegar vou querer comer o seu cuscuz, quero que você prepare pra mim o congo, a cachupa, frango assado, com batata frita e ketchup e maionese”. Pedir frango assado para minha mãe pode parecer até estranho, afinal, não tem frango no Brasil? Tem, mas comer o frango de cabo-verde, com o toque e o tempero da minha mãe, é algo parecido com  reconexão,  com sentir-se em casa. Meu irmão também tem seus desejos de chegada. “Estou com muita saudade da ‘Kriola’, cerveja cabo-verdiana, pode ir guardando uma caixa para mim”. “Guardo até duas, meu filho. Tudo o que vocês quiserem”. 

A expectativa é tanta que transborda para as gerações mais novas. O meu sobrinho está até imaginando como será a ceia de natal, mas já com a consciência da finitude do momento. “Nossa, vovó! Este ano será especial. Minha mãe, o tio Carlos e a tia Alaíde estarão todos aqui, só vai ser triste o dia em que eles tiverem de retornar”. 

Mas por agora o foco é outro. O caminho de volta para Cabo Verde nunca pareceu tão perto. 

Alaíde

Alaíde Gonçalves

alaidejoseanegoncalves@gmail.com
26.1

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