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Comunidade

Eu estava saindo da faculdade quando recebi uma notificação do grupo da família:

“(Mensagem encaminhada) Morreu há pouco a vizinha Maria. Vamos providenciar uma coroa de flores em nome do condomínio, que tristeza.”

Não entendi. Eu tenho uma vizinha chamada Maria? 

Tinha.

Pensei em esquecer o assunto, afinal, nem a conhecia. Mas fiquei incomodado. Como eu não sabia quem ela era, apesar de morar no mesmo prédio há quase seis anos? Pedi para meus pais enviarem uma foto, alguma descrição. Enquanto isso, eles encaminhavam mensagens de outros vizinhos, falando que a viam todos os dias na academia que eu frequento, outro dizendo que ela era uma ótima pessoa e que sempre ia pra área comum do prédio, onde fico diariamente. A cada mensagem, me sentia  mais frustrado. Só eu não conhecia minha vizinha?

Entrei no carro, coloquei o cinto e fui para casa, frustrado. No caminho, tentei imaginar Maria. Quantos anos ela tinha? Eu já a havia visto? Era alta, baixa, loira, ou morena? Tentei criar uma imagem mental dela, mas, mesmo dessa forma, não achava um rosto que eu conhecesse. Será que ela era aquela senhora que eu vi passeando com o cachorro? Ou outra que vi quando fui jogar o lixo fora?

Maria havia se tornado uma figura da minha imaginação. Ela tinha olhos claros, baixinha, com a pele um pouco marcada como quem frequentava muito a praia, mas não passava protetor. Morava sozinha no prédio, mas sempre frequentava os eventos do condomínio, quem sabe para preencher algum vazio ou porque ela era muito simpática. Sim, acho que já tinha visto essa moça. Em um dia que não me lembro, em um passado do qual não fiz parte. Ela era do meu pretérito mais que perfeito, morreu antes de eu  conhecê-la. 

Cheguei no portão de casa e acenei para o porteiro sem tirar meus olhos do celular, lendo as mensagens que meus pais enviaram enquanto eu estava no caminho. Eles continuavam explicando quem era Maria, descrevendo como aconteceu a morte e como os vizinhos estavam tristes com a perda. Eu também estava, mas pela morte em si, não pela perda de um alguém. Ou talvez pela perda da vizinha que criei na minha mente.

Pedi o elevador. Quando as portas abriram, já tinha alguém ali dentro. Disse bom dia, enquanto lia as mensagens no grupo da família. Uma delas era uma foto de Maria. Enquanto era feito o download da imagem, minha mente tentava adaptar o rosto da minha vizinha mental a algo mais parecido com aquele borrão. A porta do elevador abriu e a foto carregou. Não a reconheci. Fiquei tão chocado que sequer me despedi do vizinho que estava comigo no elevador. Eu não sei o nome dele.

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Victor Lebarbenchon

victorblbr@gmail.com
23.2

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