Aconteceu num dia comum. Entre uma pausa e outra, abri o Floripa Mil Grau e dei de cara com um vídeo difícil de ignorar: pessoas em situação de rua sendo agredidas por policiais, em plena “Ilha da Magia”.
O vídeo já era revoltante. Mas os comentários o tornaram ainda pior. Reviraram o meu estômago.
“Isso mesmo! Criminosos a gente tem que queimar vivo.”
Corri pro meu Instagram falso e comecei a responder. Um por um. Não sei se adiantou. Fiquei um pouco menos engasgada.
No dia seguinte, mais um vídeo. Mais uma pessoa em situação de rua apanhando, em Florianópolis. Viralizou.
Abri o fake de novo. O primeiro comentário dizia:
“Deveriam estar afastados da sociedade, em uma fazenda cheia de amor. Presos a uns 300 km daqui, pra aprenderem a se comportar que nem gente.”
Bloqueei o celular. Ainda não aprendi que é melhor não ler os comentários.
Era sábado. Dia de visitar minha mãe. Ia ter churrasco.
Tomei banho, me arrumei, apressei meu colega de apê. No mercado, compramos pão de alho e batata. Antes do caixa, pegamos flores pra ela.
Chegando lá, minha mãe está ocupada, ansiosa com a salada de batata, ou maionese, como chamam aqui no Sul. Vou ajudar. Noto que ela descasca as batatas de um jeito estranho, meio exagerado.
— Ô mãe, tu tira quase metade da batata quando descasca, né?
— Ah, filha, não sei fazer diferente. Aprendi com a tua avó e nunca mudei.
— Mas por que ela fazia assim?
— Acho que foi costume. Quando a gente morava na rua, comia resto de mercado. Ela cortava bem para tirar qualquer parte estragada.
— E tu tinha quantos anos?
— Uns cinco.
Ficamos em silêncio por um instante, mas logo voltamos à conversa. Fofocas, risadas, a lida na cozinha segue. As batatas ficaram prontas, nos sentamos. O almoço era simples, gostoso, cheio de barulho e cheiro bom.
Ao dar a primeira garfada, senti um alívio. Era a melhor maionese que já tinha comido.
Por sorte, ainda tenho estômago.


