— Você tem que ter medo da máquina, se não, você morre. — Diz o homem ao volante.
O ex-caminhoneiro hoje é motorista de um tribunal estadual. Meus colegas dizem que ele trabalha lá há anos, mas nunca foi de conversar muito. Seu nome eu não sei.
— Sabem qual é o meu apelido aqui?
— Qual? — Pergunto.
— Pikachu — fala, orgulhoso, enquanto me olha pelo retrovisor e sorri. Eu e minhas colegas de trabalho, no banco de trás, rimos. Ele continua. — Quando o presidente precisa de alguém que chegue ao destino rápido, ele me chama. Os outros são tudo lerdo.
Vamos dando corda. Ele nos conta que é apaixonado por motos.
— Sabem qual é minha posição favorita para andar de moto?
— Qual? — Nós três perguntamos em uníssono.
— Em uma roda só.
Caímos na gargalhada. É difícil compreender como alguém assim conseguiu ser contratado por um órgão público tão sério e, ainda por cima, ser o favorito do presidente.
Sem que ninguém tivesse perguntado, ele contou que foi caminhoneiro por muitos anos e era apaixonado pela profissão. O problema é que a profissão não retribuía o carinho.
— Parei de ter medo do caminhão e tive que largar. — Fala, enquanto acelera a van branca durante o sinal amarelo – pelo jeito, não tem medo da van também.
Pergunto o porquê, com receio da resposta.
— Você tem que ter medo da máquina, se não, você morre. Você tem que ter medo para salvar a sua vida. Se você se sobrepõe à máquina, você não tem limites. — Diz, agora mais sério. — Eu descia a serra sem pisar no freio. Meus colegas e eu competíamos que quem colocasse o pé no freio primeiro e ativasse a luz vermelha, perdia. Quanto mais perigoso, mais graça tinha.
— Sua mãe devia ficar preocupada. — Digo entre risadas, pensando na minha, que surta quando ando a 60km/h.
— Ela fica até hoje. Já quebrei braço, perna, costela, mas a adrenalina não te deixa parar.
— Que bom que não foi nada grave, então.
— Grave foi, mas Graças a Deus estou vivo. — Ele continua pisando no acelerador, como se não houvesse limite de velocidade. — Meu amigo Tomate morreu na semana passada. Tombou o caminhão na descida do morro. Acho que estou usando a camiseta dele.
Ele abre os botões do uniforme e mostra a blusa branca que está por baixo com a foto de um homem sorridente no meio e escrito Eterno Tomate Descanse em Paz.
Dali pra frente, foi só silêncio.


