Do banheiro do andar de cima se ouvem os gemidos. Desço as escadas para acudir minha avó, que precisou trocar de fralda no meio da noite, e meu avô, com quase 90 anos, não consegue virá-la. É o segundo dia desde que Marlene quebrou a perna. Vai ter que ficar dois meses de cama, e ela é a última pessoa que podia ter quebrado uma perna.
Estávamos comemorando as bodas de diamante, 60 anos de casados de Marlene e José. Ela, que na verdade prefere ser chamada de Toninha (nasceu no dia de Santo Antônio), fez um almoço para celebrar a data. Irmã, filha, neta, sobrinhos e agregados reunidos.
— Ele não foi um bom companheiro. Pai e marido tudo bem, agora, companheiro, não!
José sempre ficava quieto enquanto Toninha falava dele.
Do outro lado da mesa, a irmã mais nova de Toninha (que já não era tão nova) falava com uma sobrinha.
— A mulher recebe o cuidado da mãe até certa idade, depois, não, ela passa a ter mais responsabilidades e tem que cuidar dos outros. O homem continua recebendo, ele não aprende a dar, só a receber, por isso são dependentes da gente. Temos que agradecer por ter tido filha mulher.
Toninha continuava a falar de José:
— Ele é egocêntrico e o filho puxou ele, eles não fazem por mal, mas não conseguem ver o outro.
Depois do almoço (e de algumas cervejas), Toninha foi entrar no quarto e tropeçou em uma poltrona, caindo de joelho no chão. Todo mundo foi ver a cena.
— Quem teve a ideia de girico de por essa poltrona aí?
— Foi ela! Graças a Deus, se não alguém ia ouvir.
— Puta que o pariu, foi minha perna boa ainda, podia ter sido a ruim — gritou Toninha, no chão.
Ela seguiu mancando até o fim da festa, quando os convidados foram embora, ficando apenas a família da filha, que a estava visitando.
— Vocês não vão sair?
— Não, eu vou ficar aqui com você, e se você precisar fazer xixi?
— Eu faço na mão e jogo no chão.
Marlene, que não é conhecida por sua paciência, tentou ao máximo dispensar a família, sem sucesso. No dia seguinte, não conseguiu fugir, teve que ir ao médico: tíbia quebrada, dois meses de cama.
– Quando a coisa mais importante da vida de alguém é como ela vai conseguir fazer cocô, tá na hora de ir embora, mesmo.
Sempre acostumada a fazer mil coisas, agora a idosa é tomada pela melancolia.
— Curioso isso de você querer morrer, mas sentir vontade de fazer coisas que você sabe que não vai conseguir. É como se tivesse uma ópera que você quer ver, só que é em Moscou, você sabe que não vai. Esses dias eu vi que vai inaugurar, em 2030, o trem São Paulo – Campinas. Pensei, “puxa vida, queria estar viva pra andar”, mas eu não vou.
— Você pode sim, vó, nunca se sabe.
— Eu não quero, Deus me livre! Tadinho do meu gordo, seu avô fica preocupado, não pode acontecer nada com a faz-tudo dele. Ele não sabe fazer nada sozinho. Nada!
— Eu sou inútil — diz o avô, do outro lado do quarto, sem tirar os olhos da tv.
De noite, quando ouvi os gemidos e fui ajudar minha avó, assumindo o lugar do meu avô, eu o vi, antes de sair do quarto, tirando as presilhas que ela esqueceu de tirar do cabelo.
Click, clack. Fechou uma por uma.
Ela estava de olhos fechados. Ele guardou as presilhas na gaveta da mesinha do lado da cama e se deitou.
Ela abriu o olho uma última vez, antes de eu apagar a luz pra sair do quarto, e olhou para o marido.
— Obrigada, gordo.


