No caminho para a universidade, me permito colocar meu fone e ir para outra realidade, acompanhada apenas de sons, melodias e pensamentos. Chego na aula e me sinto desatualizada, preciso checar o celular. Acidentalmente se foram 30 minutos. Uma mulher falava sem parar, talvez eu devesse dar mais atenção a ela, porém deslizar os dedos pela tela é muito mais sedutor, a delícia de não saber o que vem a seguir. Desastre climático, famosa traída ou bala perdida? desce mais um pouco…
Ergo o olhar, até que a professora está falando algo interessante. Ela fica feliz em ver minha atenção à sua fala, meu coração aperta. Olho ao redor e vejo pescoços curvados. Celulares e notebooks roubam a cena. (In)felizmente, sou daquelas que repara em tudo. Grupos e conversas de Whatsapp lideram as minhas observações nas telas alheias. Reels do Instagram aparecem em segundo lugar. Quando é vídeo de bichinho fofo, fico um pouco derretida, confesso. Mesmo assim, me questiono: por que estamos aqui se de fato não estamos? Na chamada, todos estão presentes.
Um dia os papéis se inverteram. É a minha vez de apresentar o trabalho que passei semanas produzindo, apurando, editando, surtando. A crítica alheia me causa medo, já sou ferrenha comigo mesma. Mas, neste caso, o julgamento ainda seria um bom sinal, um indício de atenção. A realidade é que ninguém deu a mínima para o que eu fiz. Me senti idiota, falando para o nada e argumentando com o silêncio. A professora incentivou o debate:
E ai pessoal, o que acharam?
Nenhuma resposta. De repente, um som de risada alta atravessou o ar. Todos olharam para a dona da gargalhada, e ela olhava para o celular. Deve ter visto algo engraçado e não se controlou. Criou-se uma atmosfera de vergonha alheia.
Compartilha com a gente, também queremos rir!! – provocou a professora.
A aluna de graduação soltou o celular e conteve o riso. As apresentações seguiram e eu pude voltar para a minha carteira. Em que momento deixamos essas coisinhas com luz azul dominarem nossas vidas? Será que eu realmente concordo com os termos de uso? Bom, agora já é tarde para moralismos. A jovem risonha também apresenta o seu trabalho. Eu não dou a mínima.


