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Faz o pix

Às vezes, na vida do pobre, tem certas oportunidades de dinheiro fácil que não tem como negar. Caminhando para o evento, Dona Yara e eu engajamos numa rápida conversa: 

– Tem certeza que não é golpe? – pergunto

– Claro que não, já participei antes! Você estudou?

– Estudei. Mas eu tô aqui faz cinco meses só, Dona Yara.

Estávamos, agora, a duas horas dos prometidos 100 reais. Chegamos e sentamos, junto com mais 10 mulheres, ao redor de uma mesa coberta de aperitivos… Ao meu lado, a coordenadora explicou o fluxo da reunião. Cada uma das participantes supostamente conhecia a carreira política de alguma candidata a deputada federal por Santa Catarina e deveria responder às perguntas sobre mulheres na política. Eu, que havia feito o dever de casa sobre apenas duas deputadas, me preocupava com o que teria para acrescentar.

O debate começou hesitante, com poucas falas. Yara iniciou seus discursos. Só se calava para ouvir a próxima pergunta e levar os quitutes da mesa à boca. Estava agora se deliciando com um biscoito, enquanto prestava atenção à fala de uma mulher que parece ser apaixonada por uma deputada.

– Não sei não. Ela não fez nada para mim – interrompeu Yara, limpando a boca com o guardanapo.

– Como assim? – perguntou a mulher. 

– Não fez nada. Eu ando na minha rua e não tem um buraco que foi tapado por ordem dela. Ela só fala e não faz nada.

– Mas para mim ela fez. Se as coisas que ela fez não chegaram à senhora é porque não… 

– Não votei nela – interrompe novamente.

A mediadora desconversou. Muda a pergunta para algo genérico, que, em tese, não deveria provocar discussão.

– Vocês acham que as mulheres deveriam ocupar mais espaços na política?

– Sim. Aliás, eu acho que o que estamos fazendo aqui é ótimo! Debatendo política! Sendo cidadãs! É isso, é pra isso que eu estou aqui. E nos damos muito bem, nós, mulheres. Por isso que o Brasil tá desse jeito, só tem homem interesseiro no poder.

Mais alguns segundos de discurso foram proferidos por Dona Yara. Eu mesma falei, por mais que pensasse que não teria muito o que contribuir. Discurso vai, discurso vem, e mais de duas horas se passaram. As perguntas da mediadora acabaram e as participantes avaliaram a conversa: se realmente tinha sido efetivo, se tinham aproveitado o encontro, refletido. 

Formamos uma fila para sair. Parada na porta, a mediadora do debate no celular. Uma por uma, recebíamos o pix e saímos. Estávamos retornando para casa, 100 reais menos pobres, quando questionei Yara:

– Por que será que nos pagaram pra fazer isso?

– Temos que ser cidadãs políticas! A recompensa é só um agrado.

– Se fosse de graça você iria?

– Ainda teria os salgadinhos!

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Karolaine Heckler

heckler.karolaine@gmail.com
23.1

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