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Hora do rush

Tem gente que diz que a ponte Hercílio Luz lembra a Golden Gate, em São Francisco, na Califórnia. Eu não acho. A velha senhora é única. Mas, apesar da distância, se tem uma coisa capaz de unir duas grandes metrópoles, essa é a agitação de fim de tarde na região central. Ainda mais em uma quarta-feira, véspera de feriado prolongado. Por aqui não temos o famoso Pier 39 que vejo pelas telinhas, mas opção turística é o que não falta. Perto das 18h, as badaladas do sino da catedral anunciam o fim do expediente. A essa hora já é difícil encontrar um bom lugar nos bares. As mesas invadem as ruas na disputa por espaço com os carros. Em um dos estabelecimentos, avaliado no Google como local que serve bebidas “estupidamente” geladas, trabalhadores da construção civil com uniformes azuis se unem a homens de terno e gravata que aparentam ter acabado de sair de um filme com James Bond.

A garoa fina e o céu cinza anunciam que o feriado será molhado. Desânimo para aqueles que ainda estão com as torres de Chopp intactas sentados à beira da calçada,  mas não para os vendedores de capa de chuva. Três deles surgem como num passe de mágica junto da multidão que atravessa na faixa entre o Mercado Público e o terminal de ônibus. O tempo que o semáforo fica fechado para os carros, suficiente para travessia no meio tarde, agora já não dá conta de deixar fluir as dezenas de pessoas que se agrupam nos dois lados da via. Para sorte de quem aguarda a leva de veículos passar, “três pacotes de bolacha é dez”, anuncia o vendedor de polvilho. Quando o semáforo fica verde para os pedestres, a inquietação daqueles que mal têm tempo para uma cerveja se traduz em passos apressados rumo ao terminal. Afinal, os ônibus já estão partindo do outro lado da Avenida.

Perto das 19h, é a vez do Rei encerrar o expediente. Hoje quem encontrou uma mesa vazia para beber nas proximidades do Mercado, escolheu curtir o happy hour no embalo de samba e pagode. De paletó azul, o cover de Roberto Carlos segue despercebido rumo à plataforma de ônibus. Nem mesmo a rosa, presa ao bolso direito da roupa, faz com que os passantes o reconheçam. Assim como o caminhar frenético dos pedestres, rapidamente a vida boêmia toma conta da região. A essa hora o caminho que leva até o terminal já não tem mais aglomerações. Os vendedores de capa de chuva e polvilho se foram. E o semáforo, que foi o centro das atenções durante o dia todo, voltou a lidar com a falta de gente.

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Robson Ribeiro

ribeiro.robson.grad@gmail.com
23.2

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