– Ora pois, precisamos cantar alguma música bué da fixe juntos.
Senti um turbilhão de emoções com aquele rapaz que tinha acabado de conhecer. Era a primeira vez em dois anos que eu escutava o sotaque de Portugal e isso me trouxe um sentimento de identificação que eu jurei que nunca teria. Cresci em Cabo Verde. Um país rico em cultura, tradições e valores. Porém, percebo que devido ao pouco tempo de independência, ainda lidamos com muitas influências da colônia que recaem na construção da nossa identidade. Isso despertava em mim um misto de rebeldia e resistência, alimentando um sentimento de desprezo pela cultura, pela língua e até mesmo pelos nativos portugueses.
Quando cheguei no Brasil, um país com a mesma história, mas que se desvencilhou, de certa forma, das amarras culturais portuguesas, foi um alívio muito grande. É lindo ver a autenticidade da cultura brasileira e a língua portuguesa falada de forma única. Quando me deparei com um português, cidadão que representava tudo o que eu repudiava e criticava, e senti algo tão familiar, me espantei. Eram sentimentos muito confusos. O ódio se misturava com a familiaridade e a resistência confrontava a saudade. Sempre soube que quem está longe costuma dar mais valor às virtudes da sua terra. Nunca precisei disso para valorizar a minha cultura. Só não achei que a minha questão seria reconhecer e admitir as minhas raízes.
Enquanto eu estava muito perplexa, o português estava muito animado. Ele me mostrou uma lista de músicas em seu celular que eu não ouvia há quase dois anos. Meu coração se preencheu com uma nostalgia que derrubou todas as paredes de orgulho que havia construído a vida toda. Era uma noite de karaokê como toda quinta-feira. Enquanto eu cantava aquela música portuguesa que eu ouvia repetidamente quando adolescente, percebi como o verdadeiro desafio não é negar completamente os elementos impostos, mas, sim, entender que a identidade não se limita a rótulos pré-estabelecidos. Ela é uma junção de experiências, memórias afetivas e construções individuais. A verdadeira liberdade está na capacidade de abraçar as nuances da nossa história, aceitando que a identidade é um espectro de sentimentos, no qual o amor e a repulsa podem coexistir, revelando um caminho de aceitação e compreensão de nós mesmos.


