Era um sábado à noite. Eu tinha decidido não sair naquele dia, estava sem dinheiro e queria aproveitar para ficar sozinha depois de muito tempo. Ver um filme, comer pipoca e tomar um chocolate quente aproveitando a chuva, mesmo com o termômetro não baixando menos de 20ºC.
Mas ela não bateu na porta. Não mandou nenhuma mensagem. Ou, como sempre, nem avisou que chegaria. Mas quando achei que passaria uma noite sozinha, me vi acompanhada por alguém – ou algo – incômodo.
Eu já devia estar acostumada com a sua presença, ela tem sido a minha companhia nos últimos dias. Já apareceu em diferentes momentos, chegou em uma piada, quando, andando na rua, vi um restaurante novo que queria provar, e até mesmo em uma fofoca, que quis compartilhar, ou um vídeo nas redes sociais que queria enviar.
Naquela noite, acho que foi o perfume na almofada do meu sofá. Ou minha comida conforto talvez a tenha convidado. Ou o filme que escolhi. Nunca saberei. Até porque o convite não tinha sido feito por mim. Mas ela chegou como quem mora ali, mesmo quando achei que já tínhamos terminado. Antes era alguém que era comum estar por perto, hoje era uma visita indesejada.
Ela ficou ali comigo, enquanto o filme rodava e a pipoca esfriava. Em algum momento, percebi que não estava mais lutando contra sua presença. Deixei que se sentasse ao meu lado. A verdade é que talvez eu fosse meio ridícula por sentir tanto por alguém que já nem faz parte do meu roteiro, e, ainda assim, estar presa em cenas que repito mentalmente como se pudesse mudar o final.
Na tela, a protagonista também encarava o fim. Chorava, ria, tropeçava nas próprias memórias e, no final, encontrava algo dela mesma no meio do caos. Me vi ali, sozinha e acompanhada, um clichê ambulante de comédia romântica. Em algum momento, me peguei rindo sozinha. Era bobo, eu sei. Mas acho que esse é o primeiro passo: rir. Mesmo que seja do próprio drama.
Talvez a saudade seja isso: um lembrete cruel de que algo foi especial. Talvez a saudade não vá embora hoje. Nem amanhã. Mas, ao menos agora, quando ela bater na porta, ou entrar sem ser convidada, eu já não vou estranhar. Só vou deixar que fique o tempo que precisar.
Apaguei a luz, guardei a xícara, fui dormir. A visita ainda estava por perto. Mas, pela primeira vez, não me senti mal por isso.


