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Início de mês

Era início de mês, o salário tinha acabado de cair na conta e eu estava no cinema, esperando para comprar um ingresso, quando notei uma movimentação. A mulher que aparentava ser mãe, e estava acompanhada de uma menina, que devia ter uns 11 anos, abordava pessoa por pessoa naquele espaço. Ela perguntava algo e recebia sinais negativos. Como a fila não andava, consegui acompanhar as abordagens por tempo suficiente até chegar em mim:

– Oi, tudo bem, querida? Você passaria o cartão pra eu e minha filha assistirmos o filme do Stitch? – ela disse (bem) rápido – Eu te faço o pix agora mesmo. Viemos só para assistir o filme, mas eu esqueci o cartão em outra bolsa. 

A filha parecia envergonhada. Ela colocava a mão na cabeça, se escondia atrás da touca de cachorrinho e falava: “não acredito que a gente esqueceu o cartão, mamãe”. A mulher sorria sem graça e repetia: “é, deixamos na outra bolsa”.

– Claro. Imagina, passo sim. – respondi.

Caminhamos até o caixa juntas. Eu pagava com o cartão, enquanto ela me passava o valor pelo pix e a menina continuava a repetir de maneira envergonhada: “não acredito que esquecemos, mamãe”. 

Assim que a máquina terminou de imprimir os ingressos, ela os pegou e entregou à filha, que sorriu pela primeira vez dentro da nossa rápida  interação.

– Obrigado, viu? É que o cartão não virou ainda e eu só tinha dinheiro no pix. Sabe como é, início de mês é quando eu tenho mais condições de trazer ela ao cinema. 

Eu só concordei e desejei bom filme, não perguntei seu nome, nem o da filha. Quando me sentei sozinha na sala de cinema, dei-me conta do que queria ter dito: “Eu entendo. Minha mãe também só conseguia me levar ao cinema no início do mês”.

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Luiza Feppe

luizafepe23@gmail.com
25.1

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