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O gás

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três pessoas chamamos de casa. Quatro jovens adultos começando a vida em uma cidade nova. Era inevitável: compartilhar a rotina nos tornaria amigos – e nos tornou. Na primeira semana, eu e uma dessas pessoas fizemos um bolo. Maria foi o primeiro nome que gravei, enquanto ela ria do bolo que deu errado. Confessei que estava nostálgica, pois quando vi meus amigos semana passada na cidade que morava, não notei que era a última vez. “Às vezes, o fim chega antes que a gente perceba ele se aproximando”, Maria disse. “Mas quando tudo isso passar, vamos ficar bem”. 

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três amigos chamamos de casa. Mas, apenas uma vez, ele quase não foi mais. Em uma terça-feira qualquer, a proprietária avisou que o colocaria à venda. O nosso contrato já estava acabando, então os quatro foram procurar outras opções. Alguns conflitos vieram à tona, brigas desnecessárias começaram a acontecer. Maria já não ria dos meus bolos, nem das piadas. A pessoa que eu considerava mais próxima, já não estava mais tão próxima assim. Não me preocupo. Quando tudo isso passar, vamos ficar bem. 

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três amigos chamamos de casa. E quando está perto de não ser mais, começo a notar que ele ocupa um lugar maior que o esperado no meu coração. Até as manchas da parede me fazem chorar por apego. A vista da janela, que por tantas vezes encarei tomando um vinho e sentindo tudo que podia sentir com o vento batendo no rosto, parecia cada vez mais bonita. Não faço mais bolos com Maria. Na verdade, tenho preferido comprar pronto para não esbarrar com ela na cozinha. E dói. Mas ainda não me preocupo. Quando tudo isso passar, vamos ficar bem. 

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três pessoas chamamos de casa. Na primeira semana, fiz um bolo de chocolate para comemorar. Então, na semana que seria a última, decidi fazer outro. Separo os ingredientes que tenho no armário, vou ao mercado comprar os que faltam. Misturo tudo, coloco na forma, reclamo que esqueci de pré-aquecer o forno. Tento uma, duas, três vezes. E nada. O forno simplesmente não acende. Será que o gás acabou? Abro a porta em que deixamos o botijão e… ele não está lá. Vou até o

quarto de Maria. Não estamos conversando, mas essa situação com certeza vai puxar um diálogo, pensei. Quando a porta se afasta com meu toque, vejo que ela não está lá. Nem as coisas dela. Nem o botijão. Não acredito que ela foi embora e levou a porra do botijão. Não acredito que ela não estava lá para rir do bolo. Às vezes, o fim chega antes que a gente o perceba se aproximando. Quando tudo isso passar, vamos ficar bem?

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Thais Kethlen

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23.1

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