Não importa o horário, sempre tem alguém reunido ao redor do laguinho da UFSC. Dessa vez, não foi diferente. Quatro meninos com chuteiras nas mãos se debruçaram no guarda corpo de madeira. Não pareciam estudantes da universidade, afinal, tinham não mais que 12 anos. Cansados, pois haviam acabado de sair de uma partida de futebol. O frio daquela manhã de outono não era páreo para a adrenalina de correr atrás de uma bola pela quadra de esportes do projeto social do qual participavam, driblando outros meninos da mesma idade e, finalmente, fazendo um gol. Mas o jogo de futebol não era o assunto entre os amigos. Os patos do lago, que quase pareciam filhotes de avestruzes de tão grandes e gordos, chamaram a atenção dos rapazes.
– Quack, quack! – um dos meninos, de cabelos escuros e enrolados, gritou, com a voz fina de quem ainda não tinha sequer passado pela puberdade. A camiseta branca e azul, com patrocínios nas costas, se diferenciava das dos demais.
– Ô, feio! Olha ali o filhotinho do peixe! – outro menino do grupo gritou. Todos riram, enquanto se voltavam para o lago.
– É verdade, olha como ele é pequenininho!
– Será que se eu jogar a minha chuteira na água, ela afunda?
– Claro que não, né, feio? Vai boiar, não sabe não?
Todos do grupo riram. Sem prestar muita atenção, o menino de camiseta azul e branca foi até uma árvore ao lado para pegar frutos cor de laranja. O cacho carregado logo começou a ser balançado pelo garoto, que parecia saber muito bem o que estava fazendo. Talvez já tenha feito isso outras vezes.
– Ô feio! Pega umas para mim aí, tô com fome! – pediu o menino sem camiseta.
– É, pra mim também.
Quem estava do outro lado do rio conseguia ouvir a conversa. Logo o menino voltou, com as mãos carregadas de frutas. Se sentaram no chão de madeira e começaram a comer. Um vento mais forte balançou as folhas das árvores e o menino sem camiseta sentiu frio.
– Nossa, véi, agora eu tô tremendo – os outros riram, mas ele não colocou a camiseta.
Às 10 horas da manhã é intenso o vai e vem de pessoas ao redor do lago, que fica bem no meio da Universidade. Muitos se deslocam até suas salas de aula na volta do intervalo. Vendo o movimento, os meninos começaram a gritar:
– Ô, moça!
– Olha aquele cara! Oi, moço!
Ninguém respondia. Ninguém dava atenção. Um aluno, que vestia um terno branco e andava com confiança, chamou a atenção do grupo.
– Advogado? Preciso! – um deles gritou em direção ao homem mas, ao mesmo tempo, não parecia que ele queria que só aquele estudante o escutasse.
– Ô, moço! Meu pai tá batendo na minha mãe – o de camiseta azul e branca também resolveu gritar. Os outros meninos ouviram e riram. Como podem rir?
Um deles levou a sério:
– Cara, se meu pai tentar bater na minha mãe, eu mato ele – novamente, risadas.
O homem de terno não respondeu. Continuou seu caminho, sem dar atenção, assim como todas as pessoas que continuaram passando pelos rapazes. Os meninos, então, voltaram a gritar.
– Ô, moça, ô moça! – eles me chamaram quando me levantei do banco.
Eu também não lhes dei atenção.


