Sempre ouvi que Nova York não dorme.
No primeiro dia, achei a cidade terrivelmente barulhenta. As luzes da Times Square combinadas com as buzinas no trânsito, a risada das pessoas, os cliques e flashes de câmeras, a rapidez com que os moradores andam, a pressa com a qual todos convivem. Não entendi o que tinha de bom naquilo tudo.
No segundo dia, caminhei pelo Central Park, vi que ali as pessoas se acalmam, andam devagar, conversam tranquilas, olham ao redor. Vi famílias, casais, todas as raças e etnias do mundo, cada uma em seu piquenique.
No terceiro, peguei o barco para a Estátua da Liberdade, passei nas pontes, vi a vida normal do Brooklyn, subi no Empire State, fui no museu da imigração. Entendi a história, a força das pessoas que construíram a cidade.
No quarto dia, caminhei pela Broadway até chegar em Wall Street. No distrito comercial, vi os homens que trabalham e controlam o dinheiro do mundo todo, que decidem sem pensar no passado, que olham para o futuro como o único lugar onde querem estar. À noite, desci para um dos porões do Jazz, ouvi a música acelerada se tornar aos poucos uma melodia calma, com os trompetes e saxofones entrando em harmonia conforme o uísque descia pela minha garganta.
Vi, no quinto dia, tomar forma uma manifestação pelos direitos civis, contra a brutalidade da polícia, a favor do povo palestino, contra a eleição de Donald Trump. Vi o metrô se encher de cores quando a torcida do New York Knicks entrou, pegando a linha que levava ao Madison Square Garden para as finais da NBA.
Vi José, o mexicano que trabalhava na conveniência na esquina do meu hotel, fazendo as mesmas pizzas sempre. Sorrindo para mim com o mesmo sorriso, do dia em que cheguei ao dia em que saí.
No oitavo dia, subi ao topo do maior edifício comercial do centro da cidade. Vendo a vista, as milhares de janelas com luzes acesas nos prédios, senti a vida pulsar na cidade como nunca senti antes em lugar algum.
No avião, no silêncio de uma madrugada sem fuso-horário, comecei a pensar em mim. Me vi nas ruas, no trabalho, no parque, no jazz, na noite, nos bares, no metrô.
Tentei lembrar do que havia me irritado na primeira impressão que tive, mas não consegui.
Sempre ouvi que Nova York não dorme.
Pensando bem, realmente não tem por que dormir.


