No dia em que pensei em escrever uma crônica sobre ser preto em uma sociedade racista, aconteceu. Senti medo de morrer por causa da minha cor. Pra ser sincero, acontece sempre. Era 11 de agosto de 2023, uma sexta-feira. Tive minha primeira aula de Texto V nesse dia. Saí do trabalho às 19h e estava indo encontrar dois amigos em um barzinho da Avenida Hercilio Luz. É meu “sextou” preferido.
O camburão da PM estava parado a algumas ruas do meu trabalho. Dois policiais, para dobrar o meu medo. Lembro que minhas mãos suaram e meus olhos desnortearam. Contato visual nunca é uma opção. Atravessei para o outro lado da rua e a cada passo tentava tranquilizar a mim mesmo.
Calma, Carlos. Você está bem vestido. Está voltando do trabalho.
Isso é ilusão, eu sei. Um preto pode estar de terno, ser bem sucedido e mesmo assim estará fadado ao medo, à truculência da polícia. Talvez até a alguns tiros de advertência por existir.
O camburão cruzou por mim depois que atravessei a rua. Foi para a via de cima, como quem rodeia sua presa. É uma sensação de insignificância. Parece que serei mais um “caso isolado” a qualquer momento.
Cresci em uma vila simples, em São José (SC). A polícia batia direto na frente da casa do Vando, meu quase vizinho. Era o point, se é que me faço entender. Eu conseguia ver tudo, pois o lugar onde eu morava fica em uma subidinha com vista privilegiada para a esquina. Precisava passar pela casa dele para ter acesso à rua principal. Toda vez pedia a Deus para não trombar com a polícia e ser “confundido”. Sim, esse texto faz mais sentido com aspas.
Tive a “sorte” de ser enquadrado apenas duas vezes em 23 anos. Algo me protege. Com meus dois amigos de infância e vizinhos não foi a mesma coisa. Eles são irmãos e tomavam enquadros seguidos, com xingamentos e agressões. Nunca se envolveram em nada ilícito. Seu crime é terem a pele escura.
Desde quando entendi o que minha cor significa em uma sociedade racista, lá pelos meus 16 anos, comecei a sentir receio de lugares e de pessoas brancas. No dia 11 de agosto, eu cheguei no bar. Me enchi de cerveja e de risadas pra fingir que estava bem. Temo não conseguir chegar a tempo algum dia – no bar, em casa ou num destino seguro qualquer.


