Chovia muito, já passava das 6 da tarde e eu peguei o ônibus para mais um compromisso. Estava cansada, sem muita paciência, e tudo o que eu queria naquele frio era estar em casa, debaixo das cobertas assistindo a um filme. Depois de um tempo de viagem, um rapaz entrou no ônibus e começou a falar com os passageiros.
– Boa tarde!
Poucas pessoas responderam.
– Vamos começar de novo. Boa tarde!
Não mudou muita coisa, continuava sem respostas expressivas. Eu até o cumprimentei baixinho, mas não fez diferença. Ele não desistiu.
– Boa tarde, pessoal!
Olhei para trás, quase todo mundo de fone de ouvido ou mexendo no celular. Muitos nem tinham percebido a presença dele. Eu até tentei prestar atenção, mas estava poucas ideias para interações naquele dia.
O moço, então, se apresentou como poeta, distribuiu um pequeno papel com uma poesia autoral e começou a declamar. Acompanhei na folha e, ao final, ele passou um potinho para contribuições espontâneas. Ninguém contribuiu. Eu sequer tinha meu tempo para oferecer, quem dirá uma moeda.
Ele passou novamente ao meu lado e pediu para segui-lo no Instagram. Disse que iria seguir e desejei boa sorte.
Pelo vidro da janela, vi que o rapaz sentou em um cantinho e lá ficou, com a cabeça baixa. A culpa veio, e pensei que deveria ter sido mais atenciosa.
Na semana seguinte, peguei a mesma linha e lá estava o moço, conversando com os passageiros. O ônibus estava lotado e, de novo, ele não recebeu muita atenção.
Eu tinha duas moedas no bolso. Quando passou o potinho, coloquei-as lá. Duas ou três pessoas contribuíram e ele aparentava estar mais contente do que da outra vez.
Eu também fiquei mais tranquila, pensando que agora, sim, havia sido solidária. Mas, na verdade, toda essa generosidade foi comprada por R$1,50.


