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Relação anônima

Almoçar no restaurante universitário da UFSC é uma experiência antropológica. Todos os dias, centenas de pessoas comem nas mesas compartilhadas em um grande salão, a maioria delas não se conhecem. Geralmente, pequenos grupos se formam para comer juntos, sejam colegas de sala ou amigos de outros contextos. Como a maioria dos estudantes, encontro-me neste ambiente quase todos os dias. O motivo? Consigo citar três: não tenho tempo para cozinhar, não tenho dinheiro para cozinhar e não sei cozinhar. Sinto falta da comida da minha mãe, mas não estou aqui hoje para reclamar dos temperos ou, no caso, da falta que eles fazem na comida.

Queria falar sobre essa tal experiência antropológica que citei. Depois de dois anos, tornaram-se raros os dias em que almoço sozinho, sempre acabo encontrando algum conhecido. Nas raras exceções, recordo-me de quando era recém-chegado na cidade, comia todos os dias apenas com a minha própria companhia. A fim de me entreter, desenvolvi o estranho hábito de observar as pessoas neste ambiente e tentar imaginar de onde elas vieram e para onde elas vão.

São muitas as figurinhas marcadas que sempre encontro no restaurante. O cara que todos os dias almoça de terno e gravata e está com gel no cabelo, ele tem uma bolsa de couro e carrega todos os estereótipos do graduando em direito. O intercambista angolano que almoça na mesma mesa junto a outras pessoas de fora, nunca o vi sozinho, gosto de imaginar que ele voltará com muitas histórias dos bons momentos que viveu no Brasil. O rapaz de bigode e boina é quase impossível esquecê-lo, seu estilo excêntrico se mistura ao seu olhar desconfiado, me faz crer que ou ele anda estressado com as aulas do semestre ou planeja uma revolução trotskista em sigilo. 

Encontrei-me almoçando sozinho certa vez e observava as pessoas como de costume. Estava entretido com a minha própria imaginação observando as pessoas do restaurante quando escutei uma voz.  

– Posso pegar essa cadeira aqui? 

Uma garota morena, cabelo preto e olhos tão escuros que tornava praticamente impossível discernir sua íris de sua retina me fez voltar da minha própria imaginação e ver o que estava acontecendo na minha frente. 

Ela só queria pegar a cadeira da frente, eu sorri e afirmei com a cabeça.

Algo aconteceu nessa simples interação, de modo que ela passou a ser uma personagem das minhas histórias do RU. Nos vemos praticamente todos os dias no restaurante desde então. Sempre que nossos olhares se encontram em meio a multidão, nós sorrimos um para o outro. 

Queria saber ao menos o nome dela, e aos poucos fui juntando algumas pistas que me permitissem encontrá-la nas redes sociais. 

Descobri que ela faz biologia porque, certo dia, a vi com as tradicionais camisetas etiquetas da UFSC

Durante o jantar, encontrei-a com um uniforme de vôlei com seu suposto nome nas costas: Yasmin.  Era isso, a última peça que faltava do meu quebra cabeça. Precisava agora bancar o jornalista investigativo e pesquisar pelo seu nome em perfis do curso de Biologia da UFSC nas redes sociais 

Mas e depois? É essa história de como nós nos conhecemos que eu vou contar para os nossos filhos? Eu a persegui virtualmente como um stalker? Decidi não ir atrás dela. Aprecio essa relação que desenvolvemos. Nós não nos conhecemos, mas a gente se conhece. Ela sabe quem eu sou e eu sei quem ela é nós não somos dois anônimos. Uma rara relação que não é oriunda das redes. Algo que não me foi entregue através dos algoritmos.

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Felipe Bramucci

fgbramucci@gmail.com
23.1

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