Quando eu era criança, minha mãe guardava sacolas e embrulhos de presente embaixo do colchão. Era o lugar delas. Se eu precisasse levar alguma coisa diferente para a escola, embrulhar uma lembrancinha ou carregar um objeto especial, a resposta vinha rápida: olha embaixo do colchão.
Nunca estranhei guardar sacolas ali. Adultos guardam coisas, e tudo bem. O estranho era a confiança. Minha mãe parecia atravessar a vida com a serenidade de quem entendia o que estava fazendo. Sabia qual servia para cada ocasião. Na minha cabeça, os adultos tinham descoberto alguma coisa sobre a vida que eu ainda desconhecia.
Até que, dias atrás, precisei levar uma caneca de presente para alguém e, sem pensar muito, ergui o colchão da minha cama.
Lá estavam elas: minhas sacolas.
Algumas bonitas demais para jogar fora. Outras resistentes o suficiente para mais um uso. Algumas guardadas simplesmente porque era difícil abrir mão delas. E, pela primeira vez, tive uma sensação estranha. Não de nostalgia, mas de identificação. Aquilo não era só um hábito herdado. Era perceber que, sem qualquer aviso, eu tinha me tornado adulto.
Quando somos crianças, imaginamos que crescer significa entender mais das coisas. Como se, em algum momento, um ser misterioso desse acesso a informações que os mais novos ainda não podem ter. Mas ali, olhando para aquele monte de sacolas, veio outra possibilidade.
Talvez minha mãe também não soubesse muito bem o que estava fazendo.
Talvez ela estivesse apenas vivendo, improvisando. Guardando certas coisas porque poderiam ter outra utilidade mais tarde. Tomando pequenas decisões sem imaginar que um filho, anos depois, enxergaria nelas algum tipo de sabedoria.
Quando somos crianças, imaginamos que os adultos sabem exatamente o que estão fazendo. Só mais tarde descobrimos que eles apenas inventam os próximos passos.
E acho que foi por isso que aquelas sacolas me chamaram a atenção. Não porque eram minhas, mas porque, pela primeira vez, percebi que minha mãe também aprendia enquanto vivia.


