Sento em um restinho de sombra que bate em um dos bancos de concreto próximo ao Mercado Público. Espero impacientemente por meia hora. Ela não chega. Mas não preciso ter outra conversa com ela, sei exatamente o que fazer. Retiro da bolsa meu bloco de notas e começo a anotar tudo o que aconteceu nesse tempo de espera.
Uma figura bem conhecida aqui no Largo da Alfândega aparece com o mesmo sorriso de sempre. “E aí, minha querida? Querex um alfajorzinho hoje?”. Não sei o nome dele, mas sempre que estou por aqui ele aparece para vender seus alfajores de dulce de leche, ou doce de leite uruguaio. Reconheço ele pelo bordão “Educação vem de berço, né?” que solta sempre que alguém decide escutá-lo. Não tem como deixar de comprar seu alfajor uruguaio. Ele segue abordando outras pessoas e eu sigo esperando por ela.
Uma senhora, suponho que tenha cerca de setenta anos, para em minha frente. “Um docinho pra ajudar a vovó?”. Seus cabelos loiros misturados com os fios brancos voam em seu rosto, mas ela não parece se importar. Compro uma bala de goma. “Ah, se eu contasse minha história para você… Tô tentando a aposentadoria há alguns anos, mas enquanto não consigo me viro do jeito que dá, né?”, fala erguendo o suporte vermelho de doces que está ligado ao corpo por uma corda no pescoço e outra na cintura. Tento conversar por mais tempo, mas a necessidade e a pressa para correr contra o relógio não a deixam permanecer.
Um pouco depois, um senhor surge vendendo piercings, alargadores, anéis e colares. Ele para do meu lado e pergunta se eu não quero dar uma olhadinha. “Você não quer trocar esse seu piercing da boca? Eu sou body piercing já faz uns cinco anos”. Com seu óculos escuro, cabelo grisalho cortado na máquina dois e todo estiloso, sempre está pelo entorno do Mercado Público. Ele também é trabalhador de rua. “Não tem como manter um estúdio em Floripa, sabe? É muito caro o aluguel da sala. E a gente precisa se manter também”.
Quando estava quase desistindo de esperar, outra figura aparece. O encontrei diversas vezes no Centro, mas ainda não sei seu nome. Na primeira vez em que nos vimos ele parou para me vender seu CD de Reggae. Com seu cabelo inconfundível, dreads que alcançam a cintura, um abrigo verde e chinelo de dedo, sempre andando sem nenhuma pressa, ele senta ao meu lado e acende um cigarro. “Opa, nossa vereadora! Tudo bem, querida?”. Dessa vez ele não está sozinho. Com ele vêm mais três pessoas. “Você fuma? Chega aí com a gente.” Entre conversas com temas pessoais e preocupações sociais e políticas, a roda do beck é evitada por todos aqueles que passam pelo Largo. Não é a primeira vez que reparo o medo e a repulsa das pessoas em volta dele. Questiono o motivo do meu apelido e descubro que é porque paro para conversar com as pessoas que, normalmente, não recebem atenção por ali. Se eles soubessem que sou jornalista talvez o apelido fosse diferente. O cigarro acaba, e eles seguem para suas casas. Eu continuo à espera da senhora da paçoca.
Estou esperando há meia hora. Combinei de conversar com ela aqui, onde costumamos nos encontrar, enquanto ela vende suas paçocas para ajudar na renda de casa. Desde que foi demitida do seu antigo emprego, seu trabalho tem sido esse. Pelo o que conversamos anteriormente, seu marido é quem paga o aluguel da casa em que moram no Norte da ilha. Mas essa é a única conta que têm certeza que vai ser paga no fim do mês, graças à aposentadoria dele. Enquanto isso, ela espera pela sua aposentadoria vendendo as paçocas no Largo da Alfândega.
Não posso ficar por mais tempo. Guardo meu bloco de notas e a caneta na bolsa. Levanto do banco e sigo em direção ao Terminal de ônibus. São três da tarde e, no caminho, passo por alguns trabalhadores da peixaria do Mercado Público. O cheiro de peixe faz com que eu ande mais rápido que o normal e acabo escutando apenas uma pequena parte da conversa deles. “Se eu pudesse estaria em casa. Mas a gente precisa colocar comida na mesa, né?”. É.


