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Tempo

O caminho entre a Praia da Armação e o centro de Florianópolis nunca havia sido tão longo. 

Buzinas, pneus arrancando, murmurinho: eu conseguia ouvir muita coisa, mas só o que eu enxergava era o teto branco da ambulância. 

Fechei os olhos. Quando os abri, estava entre as paredes do Hospital Governador Celso Ramos, em uma maca no corredor. Junto a mim, outros vários como eu. 

Na minha frente, um menino vestido todo de branco: camisa branca, calça branca e botas brancas. A única coisa que destoava era a faixa tingida de vermelho que estancava uma amputação no braço direito. O que me chamou atenção, no entanto, era o que ele segurava. Em sua mão esquerda havia um celular. Nele, o garoto assistia vídeos de outros garotos, tão jovens quanto ele, andando de skate. Interrompido por uma enfermeira, foi levado para fazer exames. Nesse momento, as paredes conversaram alto e eu, esperando por atendimento, prestei atenção. Seu nome era Miguel. Miguel tinha 17 anos e trabalhava num açougue com o pai. 

Para ocupar o lugar dele no corredor, entrou outro homem, de vinte e poucos anos. Seu cabelo estava, em partes, raspado e seu rosto carregava hematomas. Nessa hora, me faltavam forças até para chorar – a dor insistia em me lembrar do porquê de eu estar onde estava.

Calma, moça – ele me consolou. Eu quase morri. Eles me deixaram vivo porque quiseram. Eu poderia estar morto agora. 

Obrigada – agradeci, com a voz embargada.

Miguel, então, voltou ao cômodo abarrotado de gente, à espera de um leito. Entra turno, sai turno e minhas roupas molhadas já haviam secado.

Vamos te colocar na cadeira de rodas para facilitar a locomoção – me avisou uma enfermeira.

Vai ser agora! – pensei, tentando me conformar.

Então fomos, desviando de gente deitada com semblantes entristecidos, que me faziam questionar qual era o preço da dignidade. 

Agora você vai esperar aqui. Tem algum familiar lá fora?

Balancei a cabeça, para avisar que sim, me referindo aos meus pais, que aguardavam em frente ao hospital desde que cheguei.

Mais espera. Aquilo, definitivamente, não era o que eu queria ouvir. 

Assim, os minutos se converteram em horas, as horas pareciam semanas… E lá estava eu, ainda, entre o barulho das sirenes. 

Mais rostos, mais histórias. Histórias essas que, naquela altura, quem podia contar, contava. Quem não podia…

Moça – parei uma enfermeira no corredor. Falta muito? Eu já estou aqui há cinco horas sem atendimento. Eu nem pude ir ao banheiro por conta do meu acidente.

Tem mais quatro pacientes na sua frente, que estão aqui desde a manhã. 

Alcança a comadre para ela – disse outra enfermeira, vestida de azul, que passava por ali. 

Eu não vou conseguir fazer xixi na frente de todas essas pessoas – avisei.

Meu pai, então, foi, finalmente, liberado para entrar. Veio até mim com um olhar incrédulo, se agachou e me ajudou a suspender a perna, que eu mal conseguia mexer. Com um lençol branco sobre meu corpo machucado, esperamos os dois, ao lado da sala de sutura. 

Enquanto isso, uma mulher de meia idade, que parecia ansiosa, nos mostrou seu celular. Era uma foto de seu irmão. 

Ele tá aberto assim desde de manhã. Deve ter uns 20 centímetros esse corte. E tá sendo atendido só agora. Caiu andando de moto e me chamou porque não tem esposa – desabafou ela.

Logo, aquele homem saiu por aquela porta que eu tanto ansiava entrar. Socorrido. Suturado. Medicado. O tempo de espera dele havia acabado.

Então, ouvi meu nome.

Mariana? Sua vez – disse um médico, que parecia tão jovem quanto eu.

Então fui. Entrei na sala. Era minha hora. Socorrida. Suturada. Medicada. E, pela primeira vez, algo ali tinha passado rápido. Saí, cruzei a fachada daquele hospital e, honestamente, me senti livre. 

Pude ir para casa e deitar em uma cama decente. Sozinha. Em silêncio. No entanto, que inocência a minha achar que aquele terror me deixaria livre tão cedo. Hoje, exatos dois meses depois, não há uma noite sequer que eu não pense em Miguel e em todos aqueles que ficaram.

Esperando.

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Mariana Franco

rosafrancomari@gmail.com
23.2

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