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Churrasco de domingo

“Churrasco e bom chimarrão, fandango, trago e mulher, é disso que o velho gosta, é isso que o velho quer”. A música da compositora gaúcha Berenice Azambuja é a trilha sonora dos almoços de domingo na minha casa. Só que, ao contrário do tal velho da música, eu não gosto e nem quero churrasco. Infelizmente (para mim), minha família adora preparar um bom assado todo santo fim de semana, sem exceção. Dessa vez não seria diferente.

Lá pelas onze horas da noite de sábado eu já começo a me preparar mentalmente para o dia seguinte. O almoço desta vez é na casa do meu tio. Mal botamos os pés na casa dele e o homem já começa oferecer os aperitivos que havia preparado em frente à churrasqueira.

– Aceita um coraçãozinho?

– Não, obrigada, é que eu não como carne.

– E uma linguicinha?

– Não tio, obrigada.

– E uma asinha?

– Não, é que eu não como…

– Mas como não? E uma costelinha?

– Não, eu não como carne, nenhuma delas.

– Nem uma carninha de gado?

– Não.

– Então tá.

Depois disso, ele deixa pra lá.. Enfim, paz. Só que não. Minutos depois começo a ouvir um burburinho sobre a minha pessoa e meus hábitos alimentares. Toda vez isso. “Essa menina não come nada”, dizem. Os anos se passam e ainda assim continuo recebendo olhares atravessados na hora do almoço. Parece até que estão descobrindo agora que não como carne. Não é como se já não fizesse cinco anos.

Bom, se eu desse ouvidos para tudo que a minha família fala nesse breve espaço de tempo que dura um almoço eu já teria procurado um médico, porque aparentemente muito em breve eu vou ficar doente e morrer. Estou muito bem, viva, “ao contrário dos animais na mesa”, penso. Rindo do meu próprio pensamento mórbido, vejo meu tio se aproximando mais uma vez:

– Já sei.

– O que tio?

– Que tal uma ovelha?

 

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Manuella Wallerius

manuwrower@gmail.com
23.1
2

Boquiaberto

Sinto um desconforto enquanto o som da tv preenche o consultório.

– Olha só gente, mais um caso de racismo. A moradora de um condomínio acusa sua vizinha de insultos raciais…

É um gosto salgado que não dá pra ignorar. O jato de bicarbonato é substituído pela água. Faço bochecho e cuspo, um pouco de alívio antes de seguir em frente.

– A vítima disse ter sido chamada de macaca e prestou queixa à polícia por injúria racial.

É frio. O metal gelado passeia pela minha boca enquanto a saliva acumula. A dentista exclama intrigada:

– Meu Deus…

O aspirador de saliva começa a trabalhar. O barulho parece interromper a TV e o pensamento da dentista. Com minha boca seca, a doutora continua:

– Olha… É inacreditável isso, sabe…

Pausa. Já sei o próximo passo, aí vem os arames. Essas linhas de ferro são colocadas na minha boca com tanta sutileza, que só percebo quando machuca. Não é a primeira vez que passo por isso, o procedimento sempre é o mesmo. Tão repetitivo que acabo prevendo o que vem a seguir.

– Realmente não dá para acreditar… Esse negócio de racismo, sabe? Como que esse negócio ainda existe?

Minhas sobrancelhas levantam. Sinto um aperto forte nos dentes, dói. Aos poucos a sensação alivia, o costume me ensinou a ignorar. O aparelho precisa mexer em todos os dentes para corrigir alguns erros. A mudança é lenta, mas acontece. Paciência. Água, bochecho e cuspe, seguimos em frente.

A televisão muda de assunto, começa a falar sobre esportes. A dentista vira de costas e volta com uma cartela de pequenos elásticos nas mãos.

– Qual cor, Marcos?

– Acho que preto…

Reabro a boca, hora de fixar os arames. Todas as borrachinhas são colocadas no

seu devido lugar. Não dói, mas a pressão continua.

– Vê se não tem nenhuma pontinha solta machucando.

Passo a língua nos dentes e respondo que não, com a cabeça. Levanto e me despeço. A manutenção custou 130 reais e alguns minutos. Saio e esqueço do troco.

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Marcos Andrade

andrademarcosvinicius18@gmail.com
23.1
5

Ardendo de um jeito novo

Sempre detestei pimenta. Não importava quantas tentativas fazia, se alguma comida tinha esse tempero, eu deixava de lado. Indo para o México, sabia que a gastronomia seria um grande desafio a enfrentar.

O plano era me preparar para a ardência, então parei de reclamar das refeições levemente apimentadas que minha mãe cozinhava, na esperança de me adaptar mais facilmente ao que estava por vir. Mas como a pimenta ainda estava longe de ser meu condimento predileto, pensei em evitá-la ao máximo. Não por um acaso, minha primeira refeição no México, foi em um restaurante italiano.

Escolhi meu prato favorito, espaguete ao pomodoro. Sem erros, pensei. Na primeira garfada, quebrei a cara. Foi o macarrão mais apimentado que comi na minha vida. Não entendi aquilo, como poderia uma comida igual a que eu como no Brasil ser tão diferente?

Mesmo as comidas típicas precisam ser adaptadas para a cultura local – explicou minha prima. Refleti e notei que fazia sentido. Me convenci de que comeria muito mais pimenta do que pretendia.

Terminei o almoço lacrimejando, em partes pela ardência, em partes temendo não conseguir adaptar meu paladar. A rainha do drama que há em mim já estava se perguntando como eu iria me alimentar ao longo daqueles seis meses. Recebi uma dica de ouro: sempre que fizer um pedido em restaurantes, peça sem pimenta.

Na segunda refeição fora de casa, fui fazer meu pedido cheia de esperança. Analisei o cardápio e escolhi. 

Rollos de pollo sin pica, por favor.

Quando o garçom colocou a bandeja em minha frente, estava ansiosa para provar aquela “panqueca de frango com abacate”. Sem pimenta, como eu havia pedido. Mordi o primeiro pedaço e me espantei. por que tinha pimenta se eu pedi para vir sem?

Má, desiste – minha prima falou – Sin pica, na verdade, quer dizer que eles não vão colocar tanto tempero, mas sempre vai ter pelo menos um pouco porque aqui colocam pimenta em tudo e até o pouco para os mexicanos pode ser muito para os brasileiros.

Respirei fundo e, acompanhada de um copo d’água bem grande, comi tudo. Não queria estragar minha experiência em outro país implicando com os costumes da culinária local…

Mas não é fácil. Parece que tudo no nosso entorno conspira para que a gente se adeque a uma nova realidade. Fui ao cinema e pedi pipoca. Veio com molho de pimenta por cima. No mercado, comprei um pacote de salgadinho exatamente igual ao que compro no Brasil. A fórmula mexicana leva pimenta.

Comecei a comer tanta pimenta que, depois de alguns meses, acabei me acostumando. Continuava pedindo “sin pica” em todos os restaurantes, mas passei a apreciar o sabor do tempero depois que a ardência inicial acabava. Aliás, a ardência nem incomodava mais tanto assim… Senti a diferença entre tipos de pimenta e descobri quais – e quanto – eu gostava. 

No final das contas, percebi que há mudanças contra as quais não adianta lutar. Elas virão. Se eu não tivesse dado o braço a torcer, não teria provado tantos pratos típicos deliciosos, não teria vivido a cultura local por completo e não teria percebido meu gosto mudar ao ponto de, hoje, colocar pimenta em praticamente tudo que preparo na cozinha.

A cultura mexicana me forçou a abrir meu paladar. Mudar meu gosto me fez sentir o condimento que eu mais odiava ardendo de um jeito novo. Um jeito bom, muito melhor do que eu havia experimentado nos meus 17 anos de vida.

 

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Maria Clara Lima

maclaraldasilva@gmail.com
23.1
4

20 minutos

O dia está frio, mas o sol que bate no ponto de ônibus esquenta a minha pele o suficiente para equilibrar a temperatura. Do outro lado da rua, a segurança do bloco D comenta sobre o tempo com a moça que está retirando o lixo em grandes sacos plásticos – ambas usando calça e uma camiseta de manga curta. Me sinto contemplada quando ela exclama: 

– Tá friozinho agora, Ana Paula! 

Ter alguém dizendo em voz alta essa sensação, ainda que seja unânime entre todas as pessoas pouco agasalhadas, a torna um pouco mais real. Ao redor, nada de muito incomum ocorre. Os veículos passam para lados diferentes da universidade. Alguns param por um tempo, outros param por muito. Um carro vermelho está claramente perdido, freando em um ponto e dando a volta para a direção contrária logo em seguida. 

Pessoas de diferentes idades e características físicas, a pé ou de bicicleta, passam por ali. Algumas correndo com pressa, outras andando sem pressa alguma. Um senhor de camisa xadrez passa vendendo vários colares artesanais, e os oferece para estudantes. Um jovem passa comendo amendoim, diz “Opa!” e segue seu caminho. Duas mulheres se aproximam, comentando um encontro. Pelo visto (ou escutado), o rapaz foi na casa de uma delas para tomar um vinho e conversar. Foi legal, para ela, mas eles não chegaram a passar desse ponto. A história acabou para mim, infelizmente, quando ao invés de parar para esperar o ônibus elas seguiram o caminho. 

Achei que nada de mais interessante aconteceria. Até que uma moça senta para esperar o ônibus. Dá um sorriso simpático e, depois de alguns minutos de silêncio, pergunta se ali passa algum ônibus rumo ao Titri. Não sei responder. Digo que não sou daqui e não cheguei a aprender os novos caminhos que o ônibus faz após a mudança de trajeto que ocorreu recentemente. Na verdade, sei que também não aprendi muitos caminhos antes disso. Curiosa sobre a minha falta de informação, ela pergunta se sou caloura e estou em Florianópolis há poucos meses. Nesse momento, minha ficha cai. Não sou caloura. Não são poucos meses. Estou aqui há um ano. E ainda não sou daqui.

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Thaís Kethlen

thais.keth2001@gmail.com
23.1
3

Gatus Rock Bar no sábado?

Minhas amigas dizem que eu sou de me apaixonar fácil, talvez eu seja mesmo. Dessa vez, porém, não tinha paixão. Tinha atração, tinha diversão, tinha ansiedade, mas paixão não tinha. Por isso que dentre os homens de Floripa, decidi falar desse. Numa manhã de sábado qualquer recebi pelo direct do Instagram: “Oi, gatinho. Como você tá?”. Parei por alguns segundos. A mensagem era do menino que eu já havia beijado, nada além disso. Nunca tínhamos conversado, era tudo muito físico e só. Naquele dia, um convite. “A gente falou sobre isso ontem e eu pensei que realmente poderíamos sair juntos”. Meu coração parou e, de pronto, respondi que seria uma ótima ideia. Afinal, o que poderia dar errado? 

A semana que antecedeu ao nosso encontro ou, na linguagem jovem, o “date”, foi desesperadora. Segunda-feira foi dia de compartilhar a informação com as minhas amigas… “Ai, amigo. Eu não acho boa ideia você sair com ele” , disse Aléxia, sem pestanejar. Manuella foi mais esperançosa: “Acho que não tem problema, não. É só um date”. Na terça-feira não teve jeito, eu continuava a pensar e falar sobre isso a quase todo momento. Estávamos na tentativa de decidir onde iríamos. “Gatus Rock Bar é uma boa opção. Tem a melhor caipirinha de maracujá do Centro Leste”. O bar tem sido meu favorito nos últimos meses e talvez tenha sido arriscado querer levá-lo no local onde sempre estou. Vai que ele também se apaixone, não por mim, mas pelo bar – como eu disse, nessa história não há paixão. Na quarta-feira comprei uma blusa: “Essa vai ficar perfeita com uma calça que eu tenho para usar no sábado quando for sair com ele”. Nesse dia fui engolido por vários pensamentos e criei alguns cenários na cabeça. Pensei em que roupa ele usaria, arrisquei que seria camisa de algum time de futebol. Pensei sobre o tipo de conversa que a gente teria. Era 8 ou 80: a gente ia se gostar muito ou se odiar. 

Na quinta-feira, fui ao Gatus Rock Bar comemorar o aniversário da Ana Beatriz. Lá pelas tantas decidi que era hora de tomar mais um “pancadão”, a bebida promocional da noite.  O pior é que eu já havia tomado alguns “pancadões”. Na fila do bar, senti a necessidade de dizer para a dona que no sábado estaria novamente ali. 

– Eu amo o Gatus. Sábado eu venho aqui e vou trazer o rapaz que pode ser o homem da minha vida. 

Ela deu risada: 

– A gente fica feliz de ver vocês vivendo seus amores por aqui. 

Sexta-feira chegou. Ufa! Contei os segundos para aquele dia passar mais rápido. E, pela primeira vez em semanas, decidi que não ia fazer nada demais.. Optei por preservar a minha integridade para o dia seguinte. “Gatus Rock Bar no sábado, 19h30?” – era o texto da minha última mensagem para ele, sexta à noite.

Finalmente sábado! O momento que eu tanto esperei e o acontecimento que seria pauta da semana seguinte entre nosso grupo. Durante a manhã, decidi que era hora de botar em dia os trabalhos da faculdade. Assim fiz. Escrevi tentativas de crônicas, almocei no RU, tomei um sol, voltei para os trabalhos. As horas iam passando e nada da confirmação do date, mas estava tentando não ficar aflito. “Homem é assim mesmo, devagar. Sempre confirma em cima da hora”, foi o que me disse Ana Beatriz. Ela estava certa. Eu sou homem e sempre confirmo “em cima do laço”. Separei a roupa nova que ia usar e decidi quais acessórios estariam na composição do look. Pensei em nada muito espalhafatoso para não destoar dele com a camisa do Avaí. No sábado , a bebida da noite era caipirinha de maracujá e eu tinha certeza que falaríamos sobre o placar do jogo, sobre como é fazer jornalismo, sobre os caminhos que nos levaram até aquele momento após tantos beijos durante o ano. Mas a vida é feita de incertezas. 

Um pouco antes das 17h recebo um “Oii, é que acabou rolando um imprevisto. Não vou ter como sair hoje”. Fico no aguardo que ele continue e fale o motivo de desmarcar tão em cima, mas nada vem. Apenas um pedido de desculpas. A minha roupa nova não foi usada. A caipirinha não foi tomada. Ele não ia com a blusa do time do coração. Mas se engana quem pensa que naquela semana eu não tive um encontro. Ele não apareceu, mas ela, sim. 

Tive um date com a ansiedade.

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Roberto Roberto Amazonas

23.1