25

Comunidade

Eu estava saindo da faculdade quando recebi uma notificação do grupo da família:

“(Mensagem encaminhada) Morreu há pouco a vizinha Maria. Vamos providenciar uma coroa de flores em nome do condomínio, que tristeza.”

Não entendi. Eu tenho uma vizinha chamada Maria? 

Tinha.

Pensei em esquecer o assunto, afinal, nem a conhecia. Mas fiquei incomodado. Como eu não sabia quem ela era, apesar de morar no mesmo prédio há quase seis anos? Pedi para meus pais enviarem uma foto, alguma descrição. Enquanto isso, eles encaminhavam mensagens de outros vizinhos, falando que a viam todos os dias na academia que eu frequento, outro dizendo que ela era uma ótima pessoa e que sempre ia pra área comum do prédio, onde fico diariamente. A cada mensagem, me sentia  mais frustrado. Só eu não conhecia minha vizinha?

Entrei no carro, coloquei o cinto e fui para casa, frustrado. No caminho, tentei imaginar Maria. Quantos anos ela tinha? Eu já a havia visto? Era alta, baixa, loira, ou morena? Tentei criar uma imagem mental dela, mas, mesmo dessa forma, não achava um rosto que eu conhecesse. Será que ela era aquela senhora que eu vi passeando com o cachorro? Ou outra que vi quando fui jogar o lixo fora?

Maria havia se tornado uma figura da minha imaginação. Ela tinha olhos claros, baixinha, com a pele um pouco marcada como quem frequentava muito a praia, mas não passava protetor. Morava sozinha no prédio, mas sempre frequentava os eventos do condomínio, quem sabe para preencher algum vazio ou porque ela era muito simpática. Sim, acho que já tinha visto essa moça. Em um dia que não me lembro, em um passado do qual não fiz parte. Ela era do meu pretérito mais que perfeito, morreu antes de eu  conhecê-la. 

Cheguei no portão de casa e acenei para o porteiro sem tirar meus olhos do celular, lendo as mensagens que meus pais enviaram enquanto eu estava no caminho. Eles continuavam explicando quem era Maria, descrevendo como aconteceu a morte e como os vizinhos estavam tristes com a perda. Eu também estava, mas pela morte em si, não pela perda de um alguém. Ou talvez pela perda da vizinha que criei na minha mente.

Pedi o elevador. Quando as portas abriram, já tinha alguém ali dentro. Disse bom dia, enquanto lia as mensagens no grupo da família. Uma delas era uma foto de Maria. Enquanto era feito o download da imagem, minha mente tentava adaptar o rosto da minha vizinha mental a algo mais parecido com aquele borrão. A porta do elevador abriu e a foto carregou. Não a reconheci. Fiquei tão chocado que sequer me despedi do vizinho que estava comigo no elevador. Eu não sei o nome dele.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (3)

Victor Lebarbenchon

victorblbr@gmail.com
23.2
24

Carne de panela

Era domingo, dia de bater o ponto na casa da minha avó para o almoço de família. A senhora de 73 anos estava preparando a carne cozida do jeito que só ela consegue fazer — colocou a carne congelada em uma panela de pressão com água, temperou, tampou e acendeu a boca do fogão. Não me preocupei. No fim, contra toda a lógica, fica uma delícia. 

Enquanto ela cozinhava, eu e meu irmão jogávamos cartas na mesa oval da cozinha. Quando ganhei mais uma partida, ele deixou transparecer a dor de cotovelo:

— Sorte no jogo, azar no amor. 

Foi a deixa que minha avó precisava. Assim que notei onde a conversa ia parar, levantei o olhar para o meu irmão. Desde que eu era pequena, ela sempre começa a história do mesmo jeito, pela metade: 

 

— Eu estava na janela quando ele chegou, montado num cavalo branco — antes de jogar outra carta, meu irmão fez alguma piada sobre o homem ter sido um príncipe encantado. A senhora deu risada — Ele bateu na porta e pediu pro meu pai a permissão pro casório. 

A afirmativa veio rápido.  Minha avó não conta, mas, nos anos 60, seu pai não via a hora de ter uma boca a menos para alimentar. Com 19 anos, ela se casou com um homem de 23, mudou de cidade e deixou tudo o que conhecia para trás. Tudo, menos seu marido, claro.

— A gente ia para onde tinha trabalho. Era triste porque eu não conhecia ninguém e era muito tímida. Mas logo fiz amizade com a filha do dono de uma fazenda. Ela era mais nova que eu, a gente brincava o dia inteiro.

O bom humor da senhora escondia as partes ruins da história. Fui entendendo as sombras da ambiguidade enquanto crescia: o homem com quem casou não era fiel, bebia demais, nunca estava em casa. Até hoje a cidade o conhece pela sua fama. Se você citar o apelido “Zezão” para qualquer morador na faixa da terceira idade, eles vão ter ao menos uma história para contar. 

Minha avó, no entanto, sempre conta a mesma. Começa no cavalo branco e segue com seu marido em um pano de fundo. De príncipe, ele passa a ser um acessório. 

— A gente já estava na cidade quando seu tio nasceu. Depois de dar à luz eu voltei para casa. Sua mãe e tia tinham derrubado o armário da cozinha inteirinho! As louças todas quebradas, tudo porque elas queriam pegar uma cesta de doce que eu deixei no alto. Criança é o trem mesmo, viu! 

Ela passou por dois partos assim: indo para o hospital sozinha quando sentia contrações e voltando a pé no dia seguinte. Quando comentamos o absurdo dessa situação, ela respondeu:

— Ué, mas era normal na minha época. E eu não voltava sozinha, voltava com um filho nos braços. 

Um deles, o terceiro de cinco, a gente não cita e ela nunca conta. Seu marido não estava em casa e ela já sentia dor demais para conseguir andar. Vivia em uma região onde existia um espaço de ao menos 500 metros entre uma casa e outra, era quase impossível pedir socorro aos gritos. O menino nasceu morrendo sufocado. 

Me pergunto se foi por isso que ela começou a ir até o hospital sozinha nos partos seguintes. Me pergunto, mas nunca pergunto para ela. A história não é sobre isso. 

— O Zezão entrou nos bombeiros e aprontava um monte. Mas depois que o seu tio, Marcos, nasceu, a gente já estava assentado na cidade. Ficou tudo bem. 

A história sempre mantém a mesma essência. A senhora não passa pano, mas também não condena. Narra o enredo com a mesma passividade com a qual o viveu. Às vezes, me dá raiva de ouvir. O final sempre soa feliz na voz tranquila, mas deixa um gosto agridoce na minha boca. Gosto que queria empurrar para baixo enquanto engolia o almoço. 

— Mas aí veio o AVC — meu irmão disse, apertando os lábios. — E ele precisou sossegar. 

A raiva se dissipou devagar. Me lembrei de quem tocava violão e cantava em todas as festas de família, quem escolheu meu nome e carregou meu irmão nos ombros durante toda a infância. Lembrei de quem está acamado hoje, incapaz de andar sem uma cadeira de rodas e alguém disposto a empurrá-la. Lembrei do meu avô.

— Precisou, mas não sossegou não, viu? Foi entender o recado só depois de três — a senhora suspirou, resignada — Mas ficou tudo bem. Olha só para vocês, tenho tanto orgulho.

Ela desligou o fogão e perdi a partida. Pouco tempo depois, o resto da família chegou. Tios, tias, primas e mãe. Do grupo de 16 pessoas, o que não faltou foi alguém para levantar meu avô da cama e empurrar a cadeira de rodas até a mesa, para o seu lugar na cabeceira, onde um prato o espera todos os dias, no mesmo horário. 

Me perguntei se ele estaria almoçando conosco se ainda conseguisse andar, mas logo afastei os pensamentos. Sabia que, independente de onde meu avô estivesse, minha avó estaria ali, preparando o almoço. 

Ela colocaria o pedaço de carne congelado na panela, um pouco de água, tempero e a tamparia. Ligaria o fogo, nos contaria a mesma história e, por mais que o esperasse, não questionaria onde está o meu avô. Assim como nós, ela também saberia a resposta. 

Ele não estaria ali.

 

WhatsApp Image 2025-07-24 at 21.54.53

Juliana Carvalho

julianacarvalhojc251@gmail.com
23.2
23

Cacarejo

A cada dois meses lembro de checar a caixa de correio. Com tudo direto no e-mail, já até sei o que vou encontrar lá dentro. Um panfleto de alguma nova loja das redondezas, os boletos do condomínio e um cartão de visitas de um certo marido de aluguel. Mas dessa vez tem novidade: uma carta, ou melhor, uma folha sulfite branca dobrada em quatro com uma mensagem impressa. 

Ao que parece, uma moradora do meu condomínio não estava conseguindo descansar por causa do cacarejo de um galo da casa vizinha e resolveu mandar um apelo a todos os moradores do prédio para que denunciassem o animal. A carta continha nome completo da dona do galo e de seu filho, endereço e CEP da residência e, claro, o número do Ibama e da polícia para a denúncia. A moradora implorava:

Por favor, vizinhos, se todos cooperarem com a denúncia é mais provável que tomem alguma medida. Já liguei inúmeras vezes e nada se resolve. Conto com vocês.  

A reclamação tem fundamento, o animal tem hábitos peculiares, bem diferentes de um galo de fazenda – apesar de nem a ciência estar em consenso sobre o porquê destes animais cantarem. Em dias quentes, o cacarejo começa cedo, lá pelas 6h30 e intercala o silêncio com seu canto até às 11h. Durante a tarde é quando está mais ativo, acompanha o café da tarde quase como se reivindicasse um pedacinho de bolo de milho. Já nos dias de chuva, parece que o galo deixa de existir, além de não ouvi-lo, também não é possível vê-lo da varanda. 

Assim como a vizinha, logo que me mudei desejei inúmeras vezes que o galo sumisse. Imaginei um frango assado ou uma boa canja nos dias mais frios do inverno. Mas acontece que o galo é tratado como se fosse de estimação pela senhora que mora naquela casa, no centro do bairro Trindade. E se a polícia ou os ambientalistas chegarem a averiguar a situação provavelmente vão se deparar com uma mulher idosa apegada ao seu pet.

São tantos os outros barulhos da rua principal do bairro que o canto de galo traz um pouco de bucolismo para o dia a dia. As buzinas, freios impacientes, discussões de trânsito, latido de cães e até a máquina de lavar ligada de meu próprio apartamento são mais aborrecedores que os sons daquele animal nem um pouco adaptado à cidade. O fato é que sua companhia se tornou tão rotineira que o encaro como uma trilha sonora nada usual. 

Li pela terceira vez a mensagem da vizinha incomodada, amassei o papel e joguei fora. Há alguns meses atrás não pensaria duas vezes antes de fazer a denúncia, mas agora sua presença sonora traz conforto e compõe o que chamo de lar. Pode ser que daqui a um tempo minha vizinha também entenda esse sentimento.

 

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (2)

Isadora Camello

isadoram.camello@gmail.com
23.2
22

Bolsinha de moedas

Depois de uma semana inteira, notei que a cada dia uma nova colega de turma surgia com uma bolsa do tamanho de um celular para carregar o troco do lanche na hora do recreio. Era um movimento de moda aparecendo no colégio regido por freiras, onde não eram permitidos shorts curtos, calças jeans e muito menos algum calçado que não fosse tênis. Mas claro que não poderíamos reclamar, usar as unhas pintadas era permitido, ao menos na escola – em casa, apenas renda ou francesinha. 

Com o crescimento do clube de meninas usando bolsas na transversal do corpo como acessório pouco útil, notei que estava por fora. Já não era considerada popular, então senti que precisava do acessório, ou, ao menos, me enturmar. Tomei coragem e disse ao meu pai, sem maiores explicações, na saída da escola: 

– Eu preciso de uma bolsa para levar as moedas e notas de dois reais para comprar meu lanche da tarde. 

Um pedido desesperado que já anunciava a impaciência, teimosia e vaidade que ficariam evidentes na adolescência. De carro, nos encaminhamos ao shopping. Rodamos por várias lojas, mas aquelas bolsinhas minúsculas, especificamente aquelas com o chaveiro de macaquinho que as outras meninas tinham, custavam um valor totalmente desproporcional ao seu tamanho e qualidade. Ah, estar na moda aos 12 anos já era caro. 

Segui levando na mão, até o caixa da cantina, o dinheiro trocado, e, no coração, a certeza de que era amada. Sem bolsa ou carteira, o punhado de moedas nas minhas mãos era a lembrança do dia em que meu pai largou todos seus planos para atender meu pedido. Nenhuma demonstração de afeto, carinho, beijos e abraços vindos dos meus pais superou o sentimento que o gesto me proporcionou. 

Até aquela idade, aquele momento, o amor era uma abstração – sabia que devia amar meus pais, minha irmã e até aquelas parentes vistos uma vez ao ano -, mas a subjetividade do amor me fazia crer que dizer “eu te amo” era a única forma de descobrir se era amada, ou que amar era mais uma obrigação como escovar os dentes ou tomar banho. Era o tipo de coisa ensinada pelos pais que deve ser feita.

Dias depois, em meio a cadernos, canecas, itens de papelaria e uma enorme variedade de mochilas e bolsas, pude experimentar e escolher a minha companheira no caminho até a lanchonete durante o ano letivo, uma bolsa do tamanho da palma da mão, preta com florzinhas rosas e laranjas, que custou o que de fato valia. Lembro de agradecer meus pais pela bolsa, mas nunca contei o que a compra significou para mim. 

Mesmo desgastada depois de muito uso, me apeguei à aquele pedaço de amor palpável. Dez anos depois, me deparei com ela perdida dentro de um saco com meus bichinhos de pelúcia favoritos.  Tê-la nas mãos foi como ser transportada de volta para quando ganhei essa bolsinha. Com as costuras desfeitas, ela perdeu sua utilidade e beleza, mas sobrou como prova do dia em que me dei conta do que é amar, ser amada e demonstrar amor.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (2)

Isadora Camello

isadoram.camello@gmail.com
23.2
21

Bilhete premiado

— Ganhamos na loteria! 

Ouço os gritos da minha mãe lá do portão, acompanhados pelo som metálico das cadeiras de praia se chocando. O barulho era uma ruptura em um verão sem muito o que contar. O mar parecia que, naquele janeiro, tinha um vai e vem mais lento, o vizinho com música alta havia se mudado, o sol não ardia tanto e os salva-vidas pouco trabalharam. 

Foi então que ouvi os latidos cansados de uma cachorrinha. Os pelos emaranhados, talvez, em algum momento, foram brancos; com olhos lacrimejantes e tristes, ela apareceu nos braços da minha mãe. Enquanto providenciava água e comida, ela contava para o meu pai que a cachorrinha certamente tinha pedigree e que filhotes assim chegavam a custar até 4.500 reais. Ela foi apelidada de Belinha, na tentativa de acertar o seu nome real.

A verdade é que, apesar da inicial intenção da minha mãe de ficar com ela caso ninguém aparecesse, Belinha estava agonizante. Ela mal comia, apesar de sua clara desnutrição, passava o tempo choramingando sem forças e tinha uma cara tão triste que não combinava com aquele ambiente de férias. Fiz o que qualquer pessoa faria: pesquisei na internet sobre como fazer um cachorro feliz. Encontrei um tópico sobre passeios, peguei a coleira do meu outro cachorro e saímos para caminhar. Após apenas cinco minutos de caminhada, ela começou a ficar mais lenta. Com oito minutos, estava ofegante. Aos 10, simplesmente parou e, depois de 15 minutos, deitou no chão com as pernas trêmulas, espasmos e o corpo completamente fraco, um claro sinal de exaustão. Saí com uma cachorra triste e retornei com ela ainda mais triste e, agora, debilitada.

Na esquina da minha casa, um homem com a barriga à mostra por baixo da camiseta e segurando um cigarro me perguntou se a cachorrinha era minha. “Não, minha mãe a encontrou na praia,” respondi. Foi então que ele me contou sobre a vizinha, dona da cachorrinha, que estava desesperada, e que eu poderia levá-la de volta para ela. Ele se ofereceu para me indicar o caminho.

Quatro esquinas à frente, e eu estava diante de uma casa térrea, com um teto baixo e paredes pintadas de azul. Na área, havia cerca de cinco pessoas. Assim que apareci no portão com Belinha no colo, a cachorrinha, agora menos exausta, abanou o rabo. “É ele! É o Thor! Você o encontrou!”, elas gritaram.

Ele? Após algumas perguntas sobre como o encontrei, elas me contaram que haviam chegado antes da virada do ano, mas o cachorro não estava acostumado a andar de carro. Quando desceram do veículo, ele saiu correndo desesperadamente, e, desde então, não conseguiram mais encontrá-lo. Enquanto ouvia o relato, uma mulher de cabelos loiros pintados, presos em um coque desgrenhado, e vestindo um roupão rosa, com um esforço evidente em cada movimento, apareceu apoiada em outras duas mulheres. Elas trouxeram Rose, a mãe do Thor. Rose chorava, falava lentamente e deixava frases sem conclusão. Neste ponto, eu já estava achando que a história bonitinha estava se tornando um pouco dramática. Já dentro da casa deles, comecei a pensar que talvez fosse uma estratégia para atrair vítimas para o tráfico de órgãos. Foi então que o marido de Rose, o mais calmo naquela situação, se aproximou de mim e disse:

— Ela está dopada de calmantes, fazia dias que ela só chorava e não dormia. Não sabia mais o que fazer. 

Falei três frases genéricas de consolação. Ele continuou: 

— Ela o vê como um filho. O sonho da vida dela era ter filhos. Quando descobriu que não poderia engravidar, eu dei esse cachorrinho para ela. É por isso que ela está assim.

O verão continuou, ainda com os sons metálicos das cadeiras de praia, mas sem nenhum novo grito de empolgação. Acredito que, de fato, alguém tenha ganhado na Loteria, mas não foi a minha mãe.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.17.01

Laura Böger

lauraboger69@gmail.com
23.2
20

Argentinos e mortos a beira-mar

Fazia mais ou menos uns 40 minutos que eu estava andando de bicicleta enlouquecidamente na Zona Sul do Rio de Janeiro. Eu e Laura. As duas com o celular no peito, com medo de assalto. Gritando uma com a outra porque o som da cidade era alto demais. Pedalando rápido – a ponto da perna doer – para cobrir a maior área possível de terreno, já que na noite anterior choveu e não deu para fazer nada. Era dois de novembro. Finados. Uma quinta-feira atípica no Rio de Janeiro. Não só pelo feriado, mas porque faltavam dois dias para a final da Libertadores. Fluminense e Boca Juniors – um tópico sensível para mim, pois tinha comprado passagem para o jogo em agosto, com esperança de que o Internacional seria o vencedor do campeonato. Passamos Leblon… Ipanema… Copacabana. 

Cadê os argentinos? – Laura perguntou, surpresa. Na televisão, a repórter falara em 150 mil torcedores do Boca na Cidade Maravilhosa. 

Só naquele momento eu parei para olhar os arredores. Parecia tudo normal. Normal demais. A Avenida Vieira Souto estava fechada para circulação de carros. Pedestres e ciclistas aproveitavam para tomar a rua naquela tarde com gostinho de final de semana. 

Todo mundo tem cara de brasileiro. – complementou. Tinham mesmo.

Comecei a me questionar se eu tinha cara de brasileira. Chegamos no Leme. A pedalada continuava e a perna doía cada vez mais. Por um momento fiquei feliz com a dor, idealizando a vida fitness que eu tinha me prometido seguir. De repente, meus pensamentos foram interrompidos por um barulho. A primeira coisa que me veio à cabeça foi um canto de guerra. 

O que é isso? – indaguei.

Júlia, olha pra frente. – Laura falou, espantada. 

Isso é um… zumbi? 

Descemos das bicicletas. Do nada, estávamos no meio de uma passeata do Dia dos Mortos, de 150 mil argentinos e de dezenas de milhares de torcedores do Fluminense. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Vampiros, bruxas, lobisomens, policiais, fanáticos do futebol, eu e Laura. Apesar de caótico, existia uma divisão: a passeata era na rua, os fãs do Boca ocupavam a praia e os do Flu, o calçadão. A polícia estava ali para intervir caso essas fronteiras fossem cruzadas. E claro que foram. Teve briga, beijo, desmaio, paquera e confusão. 

Chicas, por eso amo el Brasil. – falou um desconhecido, em um portunhol puxado. 

Não continuamos a pedalada. Nos integramos ao maravilhoso caos do Rio de Janeiro.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (1)

Júlia Duvoisin

juliaduvoisin1803@gmail.com
23.2
19

Antítese

Quinta de manhã, recebi uma mensagem. Era de Cássia, uma velha amiga com quem eu costumava dividir meus sonhos mas, ultimamente, compartilhava apenas recados retóricos para que não nos convertêssemos em novas estranhas.

“Mari, quer vir no estudo de hoje? Vamos falar sobre a volta de Jesus”, dizia.

Nascida em uma família católica, cresci rezando pelo paraíso, mas a correria da vida fez com que eu parasse de me preocupar com tudo aquilo que viria depois dela.

Aceitei seu convite.

Rezar não me fazia falta, mas a companhia de Cássia, me fazia muita.

20 horas. Liguei meu computador. Abri a chamada de vídeo.

Seu rosto era tão familiar. Me sentia perto de casa, ainda que 700 quilômetros nos separassem.

Que bom te ver, Cá!

Eu tô muito feliz que você tá aqui, Mari! E Jesus também. 

Ela abriu sua bíblia e perguntou se eu ainda carregava a minha. 

Faz muito tempo que não vejo uma. Se Jesus voltar, eu tô ferrada!

(Meu nome é Mariana e meu sobrenome é fazer-piadas-em-momentos-desnecessários)

Quando ele voltar – me corrigiu. Mas não tem problema, a gente faz com a minha.

Começamos. 

Lemos versículos e versículos. 

Confesso que, por mais que já quase nem me lembrasse do “Pai Nosso”, no fundo, eu estava rezando para que parte de mim ainda acreditasse no seu significado.

Desliguei o telefone com a sensação de que me faltava algo. E, naquela noite, nada havia preenchido.

No outro dia, segui a rotina. Manhã fria. Sol brilhante. Céu azul. 

Me benzi quando acordei – por hábito, não de forma sincera. Peguei minha mochila, chaveei a porta. No caminho para o trabalho, me deparei com um homem estirado no chão. Sozinho. Não tinha cama. Não tinha cobertas. Não tinha comida. Talvez até tivesse documentos mas, com certeza, já não tinha identidade.

Do lado dele, resquícios da noite anterior: algumas embalagens abertas e garrafas vazias. Sujeira. Aquilo era um bar para uns e um teto para outros.

Mas essa cena não me soava estranha. Seu corpo, mal-vestido, estava machucado. Seus olhos pareciam tristes. Seus braços se mantinham abertos em forma de cruz. Seus pés, um sobre o outro. Na cabeça, não havia coroa de espinhos mas, de longe, eu conseguia sentir o peso da cruz que aquele homem carregava.

Olhei para ele, respirei fundo. Ainda me faltavam respostas mas, ali, me sobravam perguntas. Meu silêncio gritou. 

E se, na verdade, Jesus nunca tiver ido?

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47

Mariana Franco

rosafrancomari@gmail.com
23.2
18

AMA-SECA

12:15h. Quinto dia útil do mês.  Eu me dou o luxo de comer em um restaurante quase chique. O estabelecimento fica dentro de um clube, que é chique de verdade. O ambiente estava lotado. Enquanto espero para fazer meu prato, percebo duas crianças correndo e gritando. Os meninos, gêmeos idênticos, tinham bastante energia e não queriam deixar ninguém no recinto almoçar em paz. Os cabelos cacheados loiros e os olhos azuis até passavam uma impressão angelical, que logo se desfez. Deram voltas em torno do buffet, passaram as mãos em todas as colheres da mesa de sobremesas, driblaram o garçom. “Olé!”, pensei. Depois de tanta diversão, acho que bateu a culpa. Um deles se ajoelhou no chão e começou a chorar, alto. Aquele choro infantil que escutamos na sessão de doces do mercado ou na sala de vacinação do posto de saúde. Mesmo atordoada com a situação, me sento para comer, mas, antes disso, tento caçar com os olhos onde estão os pais das ferinhas à solta. Será que só eu as notei? 

Neste momento, uma mulher negra de roupas simples e cabelos desgrenhados sai de uma das mesas e tenta acalmar a situação, sem sucesso. Os meninos fogem, se escondem atrás das cadeiras, enquanto os  pratos esfriam. Inclusive o dela. Nesta mesma mesa, um homem segue sentado. Ele dá algumas garfadas na comida, enquanto mexe no celular, com uma calma invejável. A mulher finalmente consegue capturar os garotos e colocá-los sentados para comer. O semblante dela parece até aliviado, uma vencedora, de fato. Percebo que eles vestem o uniforme de um colégio renomado, que segue os preceitos de González Pecotche, um dos maiores pedagogos da história recente. Queria muito saber da opinião dele sobre essa cena do restaurante. 

Poucos instantes depois da trégua, o homem à mesa termina de comer e se levanta. Ele pega um menino pela mão e o outro no colo, em direção ao caixa. 

Quer um chocolate, filho?

A mulher enche um garfo, coloca na boca, dá duas mastigadas apressadas e vai embora junto com a família. No prato dela, ainda sobraram algumas boas gramas de arroz e feijão. Além da sobremesa, que ela não pode experimentar. A salada de frutas estava deliciosa, mas me desceu amarga.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.46 (3)

Luana de Almeida Angelo

luanadealmeidaangelo@gmail.com
23.2
17

Tainha não, Manezinhos

Eu sou paulista e vegetariana. Logo de cara, preciso deixar essas informações bem claras. Em Florianópolis, uma das atividades mais tradicionais é a pesca da tainha. Não, eu nunca comi tainha. Comecei a entender um pouco mais sobre a importância comercial e cultural desse peixe depois que comecei a trabalhar na televisão e tive que cobrir a abertura da temporada. 

Alguns meses depois, uma iniciativa privada construiu para os pescadores do norte da ilha pequenos ranchos de pesca mais modernos do que os que eles tinham anteriormente. Eu já sabia que a pesca nesse ano estava difícil. Nem o frio nem os peixes tinham chegado e já estávamos no começo de junho. Apesar do céu meio nublado, fazia bastante calor. 

“Vai ser difícil conseguirmos imagens desses pescadores em ação”, pensei, durante o trajeto.  

Um senhorzinho bastante simpático, o seu Luciano, frequentava o primeiro rancho no nosso mapa. Lá dentro, na pequena cozinha, a mesa estava posta.

Entra, entra. Tem cafézinho e polenta.

Eu me apresentei e ele começou a me contar sua história de vida. Pescador desde os dez anos de idade, a relação íntima do Luciano com o mar era bem clara. Enquanto me contava sobre a briga com o poder público para manter os ranchos, que até o momento eram provisórios, nas areias da praia após o fim da temporada, ele começou a observar o mar. 

Tu me dá licença? Preciso ver um negócio. 

Eu não costumo acreditar em coincidências, mas aquele dia mudou minha percepção. Como minha colega dizia, “Nossa Senhora das Pautas sempre ajuda a Gabriela”. Ele se arremessou no mar atrás de um cardume dentro da embarcação que era minha xará.

Parecia uma cena saída de um quadro. A luz do Sol refletia nas ondas do mar, enquanto Luciano remava e jogava a rede na água. Os pescadores puxavam a rede e comemoravam enquanto os peixes se debatiam. 

No fim, não eram as tainhas que estavam dando as caras. Eram os “manezinhos”, que, segundo o seu Luciano, eram ainda mais gostosos. Ele veio se despedir de mim, todo contente. 

– Vê se volta com mais calma no fim de semana. Vamos pro mar pegar uns peixes e fazer ali no rancho pro almoço, daí.

– Volto sim, seu Luciano!

O cinegrafista riu.

– Vai te embora, mentirosa. Tu nem come peixe!

 

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.46 (1)

Gabriela Mariotto

gnmariotto@gmail.com
23.1
16

Sinta a Magia

Sento em um restinho de sombra que bate em um dos bancos de concreto próximo ao Mercado Público. Espero impacientemente por meia hora. Ela não chega. Mas não preciso ter outra conversa com ela, sei exatamente o que fazer. Retiro da bolsa meu bloco de notas e começo a anotar tudo o que aconteceu nesse tempo de espera.

Uma figura bem conhecida aqui no Largo da Alfândega aparece com o mesmo sorriso de sempre. “E aí, minha querida? Querex um alfajorzinho hoje?”. Não sei o nome dele, mas sempre que estou por aqui ele aparece para vender seus alfajores de dulce de leche, ou doce de leite uruguaio. Reconheço ele pelo bordão “Educação vem de berço, né?” que solta sempre que alguém decide escutá-lo. Não tem como deixar de comprar seu alfajor uruguaio. Ele segue abordando outras pessoas e eu sigo esperando por ela. 

Uma senhora, suponho que tenha cerca de setenta anos, para em minha frente. “Um docinho pra ajudar a vovó?”. Seus cabelos loiros misturados com os fios brancos voam em seu rosto, mas ela não parece se importar. Compro uma bala de goma. “Ah, se eu contasse minha história para você… Tô tentando a aposentadoria há alguns anos, mas enquanto não consigo me viro do jeito que dá, né?”, fala erguendo o suporte vermelho de doces que está ligado ao corpo por uma corda no pescoço e outra na cintura. Tento conversar por mais tempo, mas a necessidade e a pressa para correr contra o relógio não a deixam permanecer. 

Um pouco depois, um senhor surge vendendo piercings, alargadores, anéis e colares. Ele para do meu lado e pergunta se eu não quero dar uma olhadinha. “Você não quer trocar esse seu piercing da boca? Eu sou body piercing já faz uns cinco anos”. Com seu óculos escuro, cabelo grisalho cortado na máquina dois e todo estiloso, sempre está pelo entorno do Mercado Público. Ele também é trabalhador de rua. “Não tem como manter um estúdio em Floripa, sabe? É muito caro o aluguel da sala. E a gente precisa se manter também”. 

Quando estava quase desistindo de esperar, outra figura aparece. O encontrei diversas vezes no Centro, mas ainda não sei seu nome. Na primeira vez em que nos vimos ele parou para me vender seu CD de Reggae. Com seu cabelo inconfundível, dreads que alcançam a cintura, um abrigo verde e chinelo de dedo, sempre andando sem nenhuma pressa, ele senta ao meu lado e acende um cigarro. “Opa, nossa vereadora! Tudo bem, querida?”. Dessa vez ele não está sozinho. Com ele vêm mais três pessoas. “Você fuma? Chega aí com a gente.” Entre conversas com temas pessoais e preocupações sociais e políticas, a roda do beck é evitada por todos aqueles que passam pelo Largo. Não é a primeira vez que reparo o medo e a repulsa das pessoas em volta dele. Questiono o motivo do meu apelido e descubro que é porque paro para conversar com as pessoas que, normalmente, não recebem atenção por ali. Se eles soubessem que sou jornalista talvez o apelido fosse diferente. O cigarro acaba, e eles seguem para suas casas. Eu continuo à espera da senhora da paçoca.

Estou esperando há meia hora. Combinei de conversar com ela aqui, onde costumamos nos encontrar, enquanto ela vende suas paçocas para ajudar na renda de casa. Desde que foi demitida do seu antigo emprego, seu trabalho tem sido esse. Pelo o que conversamos anteriormente, seu marido é quem paga o aluguel da casa em que moram no Norte da ilha. Mas essa é a única conta que têm certeza que vai ser paga no fim do mês, graças à aposentadoria dele. Enquanto isso, ela espera pela sua aposentadoria vendendo as paçocas no Largo da Alfândega.

Não posso ficar por mais tempo. Guardo meu bloco de notas e a caneta na bolsa. Levanto do banco e sigo em direção ao Terminal de ônibus. São três da tarde e, no caminho, passo por alguns trabalhadores da peixaria do Mercado Público. O cheiro de peixe faz com que eu ande mais rápido que o normal e acabo escutando apenas uma pequena parte da conversa deles. “Se eu pudesse estaria em casa. Mas a gente precisa colocar comida na mesa, né?”. É. 

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.45

Jéssica Schmitt

jessica_schmittsilva@hotmail.com
23.1