Percebi que estou ficando velha. Isso não é ruim, não, mas é engraçado pensar em como as coisas estão mudando. Faz cinco anos que eu pego o mesmo ônibus, quase todos os dias, com praticamente as mesmas pessoas. Ninguém conversa entre si, ninguém sabe o nome de ninguém, mas reconheço grande parte dos rostos daqueles que usam aquela linha. Tem gente que eu sei que já se formou no ensino médio, que já mudou de emprego e que mudou até de casa. Tem gente que eu vi mudar a cor de cabelo, o estilo de roupa e até o estilo musical, só pelo som estrondoso que sai dos fones de ouvidos. Mas dia desses, quando peguei o ônibus no Terminal de Integração do Centro de Floripa, não reconheci duas figuras femininas. Uma criança, com não mais que cinco anos, e uma moça jovem. As duas tinham o mesmo cabelo encaracolado e pareciam mãe e filha. Sentada no colo da mãe, a menina estava com as costas apoiadas no vidro que divide a porta do ônibus dos bancos de passageiros, sorrindo, sapeca. Depois de ter notado a presença delas, percebi, mesmo de costas e em pé no busão, que elas brincavam de alguma coisa.
– STOP! – a menina gritou, vitoriosa.
– Que rápida! Eu só consegui pensar em um nome, animal e objeto com essa letra – disse a mãe, sorrindo.
– Ahhh eu pensei em uma cor, sabia?
– Mas e o resto?
Silêncio e mais risadinhas da criança.
– Esqueci.
– Ah, assim não vale!
E as duas caíram na gargalhada.. A mulher ao lado delas dormia, apesar da conversa entre as duas. Acho que ela não se incomodaria em ser acordada por uma risada de criança.
A brincadeira continuou. Elas não usavam papel para anotar as categorias do jogo, só pensavam e falavam. O improviso deu certo, mas eu sabia que a mãe só estava tentando distrair a menina. Eu sabia porque minha mãe fazia isso comigo. Não, a gente não jogava STOP. Mas quando nós íamos para o centro da cidade, há 40 minutos da nossa casa, ela falava e me fazia falar também, tudo para que eu não pensasse no balançar do ônibus, que sempre me causou enjoo. Lembrei, então, das nossas conversas sobre a escola, sobre o trabalho dela, e também de quando as conversas não adiantavam e nós tínhamos que puxar a cordinha para sair do ônibus o mais rápido possível. Vomitei muitas vezes, e levei muitas broncas por causa disso, mas ela sempre esteve ali para segurar meu cabelo.
Eu continuo enjoando no ônibus, mas agora tenho que puxar a cordinha do transporte sozinha. Afinal, estou ficando velha, e não sou mais uma menina como aquela criança sentada no colo da mãe.



















