Abro a porta de casa depois de mais um dia desses em que o trabalho aperta, o ônibus sufoca e o cansaço pesa. A cidade parece mastigar a gente. Na cozinha, uma manga me espera. Amarela, fiapenta, dessas que já entregam, na cor, que não vão sair do caroço sem luta.
Não sei nem porque a comprei. Se me perguntassem em qualquer outro dia se gosto de manga, eu diria que não, sem pensar muito. Um “não” automático, antigo, que fui repetindo sem perceber. E, ainda assim, lá estava ela. Descasco como dá. Não consigo desgrudar a polpa do caroço e, no fim, acabo mordendo-a inteira. O azedo me faz fechar os olhos, os fiapos irritam nos dentes, a meleira escorre pelos braços. Fiz uma careta, como sempre.
E, de repente, ele me vem à cabeça.
Meu avô não se irritava com as manchas na camisa, com o caldo escorrendo até o cotovelo, com os dentes, marcados pela nicotina, cheios de fiapos. Ele cortaria um pedaço da fruta e entregaria às mãos pequenas das netas que não desgrudavam dele. Elas também estariam rindo da sujeira.
A neta que recebia os pedaços já não tem mais as mãos tão miúdas. Agora, eu reclamo dos fiapos. Reclamo do azedo, da meleira, do incômodo. Como se a fruta tivesse culpa pela vida ter ficado mais ácida nos dez anos sem ele.
Inesperadamente, o gosto muda. O azedo ficou doce. O doce mais doce como apenas a manga mais saborosa pode oferecer. Olho para o céu limpo. Um azul raro em dias que insistem no cinza, como quem diz que sabe que estou comendo a nossa fruta. Parece que, quando a como, me vem à cabeça o sorriso, as camisas preferencialmente brancas, o nariz que parecia ter levado mais quedas do que deveria, a voz áspera ecoando dentro da memória. Doutor Oscar iria achar tão bobo: de todos seus feitos como pediatra, o que mais me faz lembrar dele é um caroço de manga, fiapento, impossível de domar.
Pego outra fruta, amarela como gema.
Descasco devagar.
Repito todo o ritual.
Sempre gostei de mangas.










