– A vó tá muito diferente. Será que é por causa da terapia?
Passo um pouco de creme sobre as unhas e as coloco na água morna.
Do outro lado da mesa minha mãe dá de ombros. A agulha sobe e desce. Ela continua costurando.
– Eu não sei, mas ela está muito diferente mesmo. Ela vai no shopping comigo e com a Paula, fica sentada vendo a gente provar roupa e rindo.
– Tô precisando do contato dessa psicóloga.
Eu tiro minha mão da água morna e começo a secar. A agulha para no ar.
– Por que, filha? Você tá depressiva?
– Não. – respondo de imediato, sem pensar. – Mas eu sou muito ansiosa. Penso muito sobre tudo. Fico sempre me preocupando com o futuro. E lembrando do passado.
– Ah, tá! Pensei que eu tinha te traumatizado.
Ela volta a costurar a cabeça do Papai Noel. A agulha fura e remenda. Fura e remenda. De novo e de novo. Eu pego a espátula e começo a empurrar minha cutícula com força. Tenho duas opções agora: posso esconder a cutícula ou arrancá-la. Aprendi com a minha mãe há muitos anos que coisas feias precisam ser escondidas. Ou cortadas. Não falo nada.
Minha mãe me encara.
– Você e a Victória alguma vez já sofreram algum preconceito na rua?
Eu pego o alicate e começo a tirar minha cutícula. Não olho para minha mãe e demoro a responder. Quando finalmente falo, minha voz quase não sai.
– Ah, às vezes, quando a gente tá se beijando na rua um homem vem e pede para participar.
Meu dedo começa a sangrar e só então percebo que me cortei com o alicate. Já não dói muito, mas incomoda. Pego um pedaço de algodão e pressiono sobre o machucado. Preciso ser mais cuidadosa.
– O padrasto da Victória também me tratava mal. Ele nem me olhava quando eu ia pra casa dela.
– Ah, mas é difícil. Eu também não devo ter tratado a Victória muito bem.
Minha mãe não ergue os olhos, não me vê. Ela continua costurando. Fura e remenda. É natural para ela, instintivo. Não precisa pensar, só faz igual às outras mulheres da família. Aprendeu com a mãe dela que aprendeu com a mãe também. Eu nunca aprendi a costurar.
Procuro uma base pra passar sobre a unha. Tem várias: uma meio amarelada, outra meio rosada e uma completamente transparente. Escolho a transparência, o que me surpreende. Sempre escolhi as meio turvas.
– Você não tratou.
– Você é minha princesinha. Eu esperava que você fosse aparecer em casa com um príncipe, não com….
O final da frase fica no ar.
Me corto de novo. O sangue escorre pelos cantos da minha unha. Dessa vez, eu não me mexo pra limpar. Deixo sangrar. Eu continuo a me machucar, mesmo que tome cuidado. Empurro mais minha cutícula com a espátula. Sangra mais e eu continuo a empurrar.
– Ah, esse alicate é novo. Tá bem afiado.
Parece que a culpa é minha. Afinal, eu escolhi o alicate. Mas não importa. Qualquer alicate que eu escolha, sempre acaba me machucando.






