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Fiapo de manga

Abro a porta de casa depois de mais um dia desses em que o trabalho aperta, o ônibus sufoca e o cansaço pesa. A cidade parece mastigar a gente. Na cozinha, uma manga me espera. Amarela, fiapenta, dessas que já entregam, na cor, que não vão sair do caroço sem luta.

Não sei nem porque a comprei. Se me perguntassem em qualquer outro dia se gosto de manga, eu diria que não, sem pensar muito. Um “não” automático, antigo, que fui repetindo sem perceber. E, ainda assim, lá estava ela. Descasco como dá. Não consigo desgrudar a polpa do caroço e, no fim, acabo mordendo-a inteira. O azedo me faz fechar os olhos, os fiapos irritam nos dentes, a meleira escorre pelos braços. Fiz uma careta, como sempre. 

E, de repente, ele me vem à cabeça.

Meu avô não se irritava com as manchas na camisa, com o caldo escorrendo até o cotovelo, com os dentes, marcados pela nicotina, cheios de fiapos. Ele cortaria um pedaço da fruta e entregaria às mãos pequenas das netas que não desgrudavam dele. Elas também estariam rindo da sujeira.

A neta que recebia os pedaços já não tem mais as mãos tão miúdas. Agora, eu reclamo dos fiapos. Reclamo do azedo, da meleira, do incômodo. Como se a fruta tivesse culpa pela vida ter ficado mais ácida nos dez anos sem ele. 

Inesperadamente, o gosto muda. O azedo ficou doce. O doce mais doce como apenas a manga mais saborosa pode oferecer. Olho para o céu limpo. Um azul raro em dias que insistem no cinza, como quem diz que sabe que estou comendo a nossa fruta. Parece que, quando a como, me vem à cabeça o sorriso, as camisas preferencialmente brancas, o nariz que parecia ter levado mais quedas do que deveria, a voz áspera ecoando dentro da memória. Doutor Oscar iria achar tão bobo: de todos seus feitos como pediatra, o que mais me faz lembrar dele é um caroço de manga, fiapento, impossível de domar.

Pego outra fruta, amarela como gema. 

Descasco devagar. 

Repito todo o ritual.

Sempre gostei de mangas.

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Maria Eduarda Vieira

vmariaeduarda898@gmail.com
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Atenção

Quando a nutricionista me deu a infeliz notícia de que, para fazer valer o plano alimentar que estou (supostamente) seguindo com rigor, eu precisaria iniciar a musculação, decretei meu atestado de óbito. Oh, céus. Fui condenada ao purgatório contemporâneo.

Sempre odiei a ideia de fazer academia. Imaginava um ambiente digno de pesadelo.
Aparelhos que me remetem a métodos de tortura medieval. Exercícios com nomes esquisitos (em inglês, ainda, para dar um tchan). Cheiro de suor misturado com uma quantidade desproporcional de desodorante masculino. Gente exibida, de nariz empinado, fazendo o tal do pump para tirar uma fotinho enquanto amaciam o próprio ego.

Para completar: todos estariam na espreita, ansiosos para que eu – o peixe fora d’água – cometesse um singelo deslize e puft, virasse o centro das atenções. 

Enquanto mastigava essa amarga derrota, todas as humilhações possíveis cruzaram minha cabeça. Rasgar a calça enquanto faço uma das vinte possíveis variações de um agachamento. Fazer força demais e soltar um pum sem querer. Me apoiar indevidamente num aparelho que cai e, como um dramático dominó em slow motion, derruba todos os que estão em volta. Deixar um pesinho cair no chão e todo mundo me fuzilar com os olhos. Ficar presa num exercício e, pasmem, pedir ajuda ao instrutor que está sendo pago para me auxiliar. Tropeçar no próprio cadarço e me espatifar no chão (vexame bônus se derrubar outra pessoa junto). Usar o aparelho de alguém que está descansando, me gravarem, eu viralizar no Instagram e acabar cancelada por desrespeito a algum dos mandamentos sagrados da comunidade maromba.

Opa, tem mais. Suar muito e marcar minha axila, embaixo do peito e nas papinhas da bunda. Não suar e parecer que não estou treinando o suficiente. Soltar um grunhido semelhante a um gemido inapropriado e deixar todos atordoados. Ficar quieta e levar uma bronca por estar indiferente demais. Meu short preto ser meio transparente e todo mundo descobrir que sou mulher e uso calcinha. Jesus.

Demorei duas semanas para marcar a bendita aula experimental. Foi numa quinta-feira, às 06h da manhã. Considerei que seria o horário com maiores chances de sobrevivência da minha reputação. Já estava preparada para virar a palhaça deste grande circo. Pagar o mico do século.

Cheguei. Uma hora passou. Não morri. Ninguém riu do meu glúteo subdesenvolvido. Nem um pitaco sobre o meu percentual de gordura estar acima da média. Nem um olhar minimamente torto em direção aos baby hairs que não consigo prender no rabo de cavalo.
Caramba.

Nada. Nadinha mesmo.

Que estranho. Como assim?

Voltei pra casa. Mandei mensagem para o pessoal da academia: “2x na semana. Vou fechar o plano anual”. Afinal, quem precisa de terapia quando se tem leg day?

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Maitê Silveira

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Não importa o alicate

– A vó tá muito diferente. Será que é por causa da terapia?

Passo um pouco de creme sobre as unhas e as coloco na água morna. 

Do outro lado da mesa minha mãe dá de ombros. A agulha sobe e desce. Ela continua costurando. 

– Eu não sei, mas ela está muito diferente mesmo. Ela vai no shopping comigo e com a Paula, fica sentada vendo a gente provar roupa e rindo. 

– Tô precisando do contato dessa psicóloga. 

Eu tiro minha mão da água morna e começo a secar. A agulha para no ar. 

– Por que, filha? Você tá depressiva? 

– Não. – respondo de imediato, sem pensar. – Mas eu sou muito ansiosa. Penso muito sobre tudo. Fico sempre me preocupando com o futuro. E lembrando do passado. 

– Ah, tá! Pensei que eu tinha te traumatizado. 

Ela volta a costurar a cabeça do Papai Noel. A agulha fura e remenda. Fura e remenda. De novo e de novo. Eu pego a espátula e começo a empurrar minha cutícula com força. Tenho duas opções agora: posso esconder a cutícula ou arrancá-la. Aprendi com a minha mãe há muitos anos que coisas feias precisam ser escondidas. Ou cortadas. Não falo nada. 

Minha mãe me encara. 

– Você e a Victória alguma vez já sofreram algum preconceito na rua? 

Eu pego o alicate e começo a tirar minha cutícula. Não olho para minha mãe e demoro a responder. Quando finalmente falo, minha voz quase não sai. 

– Ah, às vezes, quando a gente tá se beijando na rua um homem vem e pede para participar. 

Meu dedo começa a sangrar e só então percebo que me cortei com o alicate. Já não dói muito, mas incomoda. Pego um pedaço de algodão e pressiono sobre o machucado. Preciso ser mais cuidadosa. 

– O padrasto da Victória também me tratava mal. Ele nem me olhava quando eu ia pra casa dela. 

– Ah, mas é difícil. Eu também não devo ter tratado a Victória muito bem.

Minha mãe não ergue os olhos, não me vê. Ela continua costurando. Fura e remenda. É natural para ela, instintivo. Não precisa pensar, só faz igual às outras mulheres da família. Aprendeu com a mãe dela que aprendeu com a mãe também. Eu nunca aprendi a costurar. 

Procuro uma base pra passar sobre a unha. Tem várias: uma meio amarelada, outra meio rosada e uma completamente transparente. Escolho a transparência, o que me surpreende. Sempre escolhi as meio turvas.  

– Você não tratou. 

– Você é minha princesinha. Eu esperava que você fosse aparecer em casa com um príncipe, não com….

O final da frase fica no ar. 

Me corto de novo. O sangue escorre pelos cantos da minha unha. Dessa vez, eu não me mexo pra limpar. Deixo sangrar. Eu continuo a me machucar, mesmo que tome cuidado. Empurro mais minha cutícula com a espátula. Sangra mais e eu continuo a empurrar. 

– Ah, esse alicate é novo. Tá bem afiado. 

Parece que a culpa é minha. Afinal, eu escolhi o alicate. Mas não importa. Qualquer alicate que eu escolha, sempre acaba me machucando. 

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Maria Eduarda Furlanetto

mariaed.furlanetto@gmail.com
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Agulha de crochê


Eu posso ter só 20 anos, mas desde que me entendo por gente, quando penso na minha bisa, a vejo com um saquinho de supermercado cheio de linhas e uma agulha de crochê. Na casa dela, até o vaso sanitário tem uma daquelas capinhas bordadas típicas de casa de vó. Minhas primas mais velhas aprenderam com ela: sentavam ao seu lado, observavam em silêncio e, com o tempo, foram pegando o jeito.

Hoje, no auge dos seus 90 anos, ela ainda senta todos os dias na varanda para fazer o tão amado crochê. Adora bordar paninhos de louça com cores diferentes, para presentear a família ou só para passar o tempo e ocupar a mente.

O marido já se foi, os filhos já não moram mais ali, os irmãos têm suas próprias famílias. O que ficou foram as visitas de fim de semana dos filhos, netos e bisnetos enchendo a casa, e claro, o seu inseparável kit para bordar.

Ela até perdeu um pouco do jeito depois de uma cirurgia para retirar um câncer, mas nunca desistiu. Se erra um ponto, desfaz tudo e começa de novo, sem reclamar.

Dia desses, ela perdeu a agulha. Procurou pela casa inteira: revirou gavetas, armários, livros da sala.. Chamou as filhas para ajudar. Com a movimentação, perguntei o que estavam procurando há tanto tempo. Minha tia-avó respondeu:

— Bebe, a Wawá não está achando a agulha dela, tadinha.

Levantei do sofá e falei:

— Ué, gente… tá aqui na poltrona do lado de vocês, olha! — e entreguei para a minha bisa.

Acho que nunca a vi tão feliz. Deu uns pulinhos e até me abraçou – o que, vindo dela, é raro.

No fim,disse:

— Quando eu morrer, quero que coloquem uma agulha de crochê no meu caixão.

Aí eu entendi. Para ela, aquele não era só um objeto. Era companhia, era memória, era o jeito de seguir ocupada, mesmo quando tudo à volta já não era mais a mesma coisa.

E percebi que, às vezes, o que parece pequeno pode ser justamente o que segura a vida de alguém pelas bordas.

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Beatriz Perrone

beaaperrone@gmail.com
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Eu sou a velocidade

Passei uma semana em Aquiraz, no Ceará, num resort onde já havia estado em
vários momentos com a família. Dessa vez, a viagem foi diferente: só eu e dois
amigos, curtindo a liberdade de aproveitar aquele mar de piscinas e cadeiras de sol.

Uma tarde, enquanto descansamos à beira d’água, começou uma atividade com o
tio da recreação. Tocavam músicas de filmes e, cada vez que acertasse, a pessoa
tinha o número do quarto colocado num pote para um sorteio. O jogo era claramente
feito para crianças, com os pais soprando respostas no ouvido delas. Eu assistia só
por diversão, afinal, quando era dessa idade, nunca tinha conseguido ganhar nada
nessa brincadeira.

As primeiras rodadas foram previsíveis: Harry Potter, Frozen e outras trilhas óbvias.
Mas percebi que as crianças não sabiam algumas músicas. Pensei que essa
geração estava perdida.

Foi aí que veio o momento que mais me irritou. Tocou Life is a Highway, de Carros,
meu filme favorito da infância, e um dos que ainda guardo com carinho até hoje.
Esperei a reação. Nada. Nem uma vozinha hesitante. Silêncio absoluto. Como
assim, ninguém sabia? Não aguentei:

– Carros! – gritei, indignado.

– Acertou! Qual o apartamento? – perguntou o tio.

– 3304. – respondi.

Depois desse insulto ao Relâmpago McQueen, decidi entrar de vez na disputa.
Vieram mais cinco músicas. Acertei todas, sem pestanejar.

Na hora do sorteio, o recreador começou com as pistas:

– O apartamento termina com número par.

As crianças se entreolhavam. Eu ria por dentro.

– O apartamento começa com número ímpar.

O destino já estava escrito.

– O vencedor é o 3304!

Levantei como quem tinha acabado de ganhar uma Copa Pistão. Algumas pessoas
me olharam com certa inveja, mas a verdade é que aquele prêmio era questão de
honra pelo filme.

No fim, o troféu foi um bombom e um vale caipirinha. Combinação que revelava o
truque dos pais: usavam os filhos como desculpa para beber de graça, deixando o
doce como consolo. Sendo bem sincero, achei uma troca justa. No meu caso,
melhor ainda: fiquei com os dois.

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Pedro Fattah

pedrofattah03@gmail.com
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