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Início de mês

Era início de mês, o salário tinha acabado de cair na conta e eu estava no cinema, esperando para comprar um ingresso, quando notei uma movimentação. A mulher que aparentava ser mãe, e estava acompanhada de uma menina, que devia ter uns 11 anos, abordava pessoa por pessoa naquele espaço. Ela perguntava algo e recebia sinais negativos. Como a fila não andava, consegui acompanhar as abordagens por tempo suficiente até chegar em mim:

– Oi, tudo bem, querida? Você passaria o cartão pra eu e minha filha assistirmos o filme do Stitch? – ela disse (bem) rápido – Eu te faço o pix agora mesmo. Viemos só para assistir o filme, mas eu esqueci o cartão em outra bolsa. 

A filha parecia envergonhada. Ela colocava a mão na cabeça, se escondia atrás da touca de cachorrinho e falava: “não acredito que a gente esqueceu o cartão, mamãe”. A mulher sorria sem graça e repetia: “é, deixamos na outra bolsa”.

– Claro. Imagina, passo sim. – respondi.

Caminhamos até o caixa juntas. Eu pagava com o cartão, enquanto ela me passava o valor pelo pix e a menina continuava a repetir de maneira envergonhada: “não acredito que esquecemos, mamãe”. 

Assim que a máquina terminou de imprimir os ingressos, ela os pegou e entregou à filha, que sorriu pela primeira vez dentro da nossa rápida  interação.

– Obrigado, viu? É que o cartão não virou ainda e eu só tinha dinheiro no pix. Sabe como é, início de mês é quando eu tenho mais condições de trazer ela ao cinema. 

Eu só concordei e desejei bom filme, não perguntei seu nome, nem o da filha. Quando me sentei sozinha na sala de cinema, dei-me conta do que queria ter dito: “Eu entendo. Minha mãe também só conseguia me levar ao cinema no início do mês”.

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Luiza Feppe

luizafepe23@gmail.com
25.1
43

Ônibus lotado

Estava, com outros cinco amigos, bebendo cerveja e jogando conversa fora no bar do Silvinho, que fica no começo do Morro da Cruz. O lugar é do lado das emissoras em que trabalhamos e, ao invés de voltar para a casa direto,  encontrei os guris às 22h15, um pouco depois do fim do meu turno.

Quando bateu meia noite, um deles lembrou que o último ônibus Volta ao Morro passava dali  a 15 minutos. Aquela condução é a que pegamos diariamente para voltarmos para a região da UFSC, onde a maioria de nós moramos. Descemos o morro correndo e rindo da situação. Chegamos no ponto junto do ônibus e, ao contrário da nossa expectativa, estava cheio.Tive que sentar a duas cadeiras de distância dos meus amigos, já que não havia espaço mais próximo. 

A gente começou a conversar e a falar besteira, enquanto eu observava as pessoas na condução. Um menino de boné, que estava na minha frente, observava pela a janela como se tentasse evitar encarar o resto das pessoas ao seu redor. Uma menina de fone, mais para a frente, olhava para baixo, aparentando estar muito cansada. Enquanto isso, dois rapazes conversavam fazendo o mínimo de barulho.

Nesse tempo, meus amigos estavam no fundo do ônibus causando o caos. A contradição entre a emoção deles e a falta de contato do resto das pessoas era cômica, mas eu acho que se não fosse amigo deles talvez estivesse um pouco incomodado.

Fui me dando conta: quando  pego aquele ônibus todo dia me comporto igual ao resto das pessoas, seco, vazio, sem cumprimento, sem ideias e sem relações. Mas, com eles, eu me expressava, me comportando como eu sou. As pessoas com as quais  divido o espaço no transporte público todos os dias são as mesmas, mesmo assim, não sei nada sobre elas. Seus nomes, suas ideias e nem porquê pegam aquele ônibus. Ao invés disso, assim como elas, tento evitar o contato de um jeito ridículo, já que temos de sentar juntos ou  permanecemos em pé muito próximos uns dos outros.

Talvez se no dia a dia eu me comportasse como se estivesse numa mesa de bar, brincando e contradizendo todo mundo, mostrando interesse pelas histórias, a vida fosse  mais leve. Talvez.

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João Francisco Ribeiro

joaofrancisco.rir@gmail.com
25.1
48

Descascando batatas

Aconteceu num dia comum. Entre uma pausa e outra, abri o Floripa Mil Grau e dei de cara com um vídeo difícil de ignorar: pessoas em situação de rua sendo agredidas por policiais, em plena “Ilha da Magia”.

O vídeo já era revoltante. Mas os comentários o tornaram ainda pior. Reviraram o meu estômago. 

“Isso mesmo! Criminosos a gente tem que queimar vivo.”

Corri pro meu Instagram falso e comecei a responder. Um por um. Não sei se adiantou. Fiquei um pouco menos engasgada.

No dia seguinte, mais um vídeo. Mais uma pessoa em situação de rua apanhando, em Florianópolis. Viralizou.

Abri o fake de novo. O primeiro comentário dizia:

“Deveriam estar afastados da sociedade, em uma fazenda cheia de amor. Presos a uns 300 km daqui, pra aprenderem a se comportar que nem gente.”

Bloqueei o celular. Ainda não aprendi que é melhor não ler os comentários.

Era sábado. Dia de visitar minha mãe. Ia ter churrasco.

Tomei banho, me arrumei, apressei meu colega de apê. No mercado, compramos pão de alho e batata. Antes do caixa, pegamos flores pra ela.

Chegando lá, minha mãe está ocupada, ansiosa com a salada de batata, ou maionese, como chamam aqui no Sul. Vou ajudar. Noto que ela descasca as batatas de um jeito estranho, meio exagerado.

— Ô mãe, tu tira quase metade da batata quando descasca, né?

— Ah, filha, não sei fazer diferente. Aprendi com a tua avó e nunca mudei.

— Mas por que ela fazia assim?

— Acho que foi costume. Quando a gente morava na rua, comia resto de mercado. Ela cortava bem para tirar qualquer parte estragada.

— E tu tinha quantos anos?

— Uns cinco.

Ficamos em silêncio por um instante, mas logo voltamos à conversa. Fofocas, risadas, a lida na cozinha segue. As batatas ficaram prontas, nos sentamos. O almoço era simples, gostoso, cheio de barulho e cheiro bom.

Ao dar a primeira garfada, senti  um alívio. Era a melhor maionese que já tinha comido.
Por sorte, ainda tenho estômago.

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Vitórya Navegantes

vitorya.jornalismo@outlook.com
25.1
42

O melão

Entrei pela porta dianteira do ônibus, passei meu cartão, girei a catraca e
sentei em uma poltrona ao lado da janela. Os dias na ilha são tão quentes que
ardem a pele, e tem momentos que os passageiros chegam a ficar com febre. Sou preparada e levo um leque na bolsa para me abanar durante o trajeto inteiro.


Naquela manhã, sentou ao meu lado uma senhora de um metro e meio de altura,
cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, regata e calça legging até o
joelho. Ela me ofereceu um sorriso, coisa rara no transporte público. Percebi que reparou em mim, especificamente no meu leque, e certamente no meu estado,

suada e vermelha.

– Tá muito calor, né?

Faço que sim com a cabeça, o espaço abafado do ônibus me deixa com
preguiça de conversar.

– Sabe o que é bom pro calor?

Taí, a senhorinha bacana vai me passar um conhecimento milenar, desses
que se passa de vó para neta. Diga-me, então – penso – o que amenizaria o
sentimento inevitável do desespero frente ao aquecimento global.

– Melão! Sabia que o melão é a fruta da mulher?
Não, eu não sabia, nunca tinha ouvido falar.

– Eu comi muito melão quando era novinha, e, agora, minha temperatura tá
ambiente, não sinto calor!

Tento acreditar na senhora, espero que seja verdade. Ficamos em silêncio de
novo, mas ela não para de reparar em mim.

– Você é ansiosa?

Fico assustada no assento do ônibus, não sei porque me tornei tão
interessante pra ela. Lembrei que os passageiros também ouviam aquela conversa,
e não soube como responder. Mexi a cabeça sem jeito, ela entendeu como um sim.

– Quantos anos você tem? Deve ter uns vinte, né? Você é muito nova pra ter
ansiedade – fico ainda mais encabulada, ela acertou minha idade e ainda me
repreendeu.

– Sabe o que é bom pra ansiedade? Passar argila natural nas palmas das
mãos antes de dormir, e, às vezes, até nos pés.

Tenho agora as soluções dos dois maiores problemas do século XXI, a
ansiedade e o calor. Digo que estou surpresa, não sabia de tudo isso.

– É que eu gosto de ajudar as pessoas como posso, sabe? Eu gosto de
ensinar o que sei – agradeço e voltamos ao silêncio. Ela dorme na poltrona, mas
preciso acordá-la para ir embora. Ela me dá tchau, e diz pra eu lembrar do que ouvi.
Chego no trabalho e anoto na agenda: essa semana preciso fazer mercado.

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Iara Rocha

rochaiararegina@gmail.com
25.1
3

Gatus Rock Bar no sábado?

Minhas amigas dizem que eu sou de me apaixonar fácil, talvez eu seja mesmo. Dessa vez, porém, não tinha paixão. Tinha atração, tinha diversão, tinha ansiedade, mas paixão não tinha. Por isso que dentre os homens de Floripa, decidi falar desse. Numa manhã de sábado qualquer recebi pelo direct do Instagram: “Oi, gatinho. Como você tá?”. Parei por alguns segundos. A mensagem era do menino que eu já havia beijado, nada além disso. Nunca tínhamos conversado, era tudo muito físico e só. Naquele dia, um convite. “A gente falou sobre isso ontem e eu pensei que realmente poderíamos sair juntos”. Meu coração parou e, de pronto, respondi que seria uma ótima ideia. Afinal, o que poderia dar errado? 

A semana que antecedeu ao nosso encontro ou, na linguagem jovem, o “date”, foi desesperadora. Segunda-feira foi dia de compartilhar a informação com as minhas amigas… “Ai, amigo. Eu não acho boa ideia você sair com ele” , disse Aléxia, sem pestanejar. Manuella foi mais esperançosa: “Acho que não tem problema, não. É só um date”. Na terça-feira não teve jeito, eu continuava a pensar e falar sobre isso a quase todo momento. Estávamos na tentativa de decidir onde iríamos. “Gatus Rock Bar é uma boa opção. Tem a melhor caipirinha de maracujá do Centro Leste”. O bar tem sido meu favorito nos últimos meses e talvez tenha sido arriscado querer levá-lo no local onde sempre estou. Vai que ele também se apaixone, não por mim, mas pelo bar – como eu disse, nessa história não há paixão. Na quarta-feira comprei uma blusa: “Essa vai ficar perfeita com uma calça que eu tenho para usar no sábado quando for sair com ele”. Nesse dia fui engolido por vários pensamentos e criei alguns cenários na cabeça. Pensei em que roupa ele usaria, arrisquei que seria camisa de algum time de futebol. Pensei sobre o tipo de conversa que a gente teria. Era 8 ou 80: a gente ia se gostar muito ou se odiar. 

Na quinta-feira, fui ao Gatus Rock Bar comemorar o aniversário da Ana Beatriz. Lá pelas tantas decidi que era hora de tomar mais um “pancadão”, a bebida promocional da noite.  O pior é que eu já havia tomado alguns “pancadões”. Na fila do bar, senti a necessidade de dizer para a dona que no sábado estaria novamente ali. 

– Eu amo o Gatus. Sábado eu venho aqui e vou trazer o rapaz que pode ser o homem da minha vida. 

Ela deu risada: 

– A gente fica feliz de ver vocês vivendo seus amores por aqui. 

Sexta-feira chegou. Ufa! Contei os segundos para aquele dia passar mais rápido. E, pela primeira vez em semanas, decidi que não ia fazer nada demais.. Optei por preservar a minha integridade para o dia seguinte. “Gatus Rock Bar no sábado, 19h30?” – era o texto da minha última mensagem para ele, sexta à noite.

Finalmente sábado! O momento que eu tanto esperei e o acontecimento que seria pauta da semana seguinte entre nosso grupo. Durante a manhã, decidi que era hora de botar em dia os trabalhos da faculdade. Assim fiz. Escrevi tentativas de crônicas, almocei no RU, tomei um sol, voltei para os trabalhos. As horas iam passando e nada da confirmação do date, mas estava tentando não ficar aflito. “Homem é assim mesmo, devagar. Sempre confirma em cima da hora”, foi o que me disse Ana Beatriz. Ela estava certa. Eu sou homem e sempre confirmo “em cima do laço”. Separei a roupa nova que ia usar e decidi quais acessórios estariam na composição do look. Pensei em nada muito espalhafatoso para não destoar dele com a camisa do Avaí. No sábado , a bebida da noite era caipirinha de maracujá e eu tinha certeza que falaríamos sobre o placar do jogo, sobre como é fazer jornalismo, sobre os caminhos que nos levaram até aquele momento após tantos beijos durante o ano. Mas a vida é feita de incertezas. 

Um pouco antes das 17h recebo um “Oii, é que acabou rolando um imprevisto. Não vou ter como sair hoje”. Fico no aguardo que ele continue e fale o motivo de desmarcar tão em cima, mas nada vem. Apenas um pedido de desculpas. A minha roupa nova não foi usada. A caipirinha não foi tomada. Ele não ia com a blusa do time do coração. Mas se engana quem pensa que naquela semana eu não tive um encontro. Ele não apareceu, mas ela, sim. 

Tive um date com a ansiedade.

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Roberto Roberto Amazonas

23.1