Despedida

Despedida

Faltam três meses para o casamento da minha irmã mais velha. 

O lugar, lista de convidados, vestido, maquiagem, vai estar muito frio?, site dos presentes, pessoas com dificuldades para entender o site dos presentes. Tudo parece ir bem, mas uma coisa não sai da minha cabeça. Ela vai embora e não vamos mais morar juntas.

De certa forma, já estou familiarizada com a despedida e com a distância. Tenho duas outras irmãs que vivem longe, em Minas Gerais. Na última terça, liguei para uma delas e tivemos uma ótima conversa. Desliguei e senti o coração apertar… lembrei como eu a amo.

A partir do dia 16 de agosto, terei meu próprio quarto (ideias do Pinterest vêm aí) e atenção redobrada da mamãe. Minha bagunça organizada não será um problema. Com o passar dos dias tão acelerados e cheios, a ausência dela no lar será aceitável, despercebida, até virar normal. Certamente ao ouvir sua banda favorita ou tomar sorvete pensarei nela, porém não com aquele sentimento que dói.

Mas aí, quando ela for almoçar em casa num domingo, me provocando como de costume, reclamando que o marido deixou a toalha na cama de novo e querendo dar ordens — como todo bom irmão mais velho faz —, vou sentir o peso de sua ausência. 

O que causa a saudade em mim nunca é a falta. É a presença.

Deborah

Deborah Caetano

dcocaetano@gmail.com
26.1
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Plantão 24h

Ser estudante de jornalismo é uma experiência curiosa. A pessoa entra na faculdade acreditando que vai investigar grandes escândalos ou entrevistar pessoas importantes, mas, sem perceber, se torna a Alexa da família. Só que sem botão de desligar.

Na primeira semana de aula, tudo vira comemoração. Surgem perguntas sobre as matérias, os professores ou comentários que qualquer dia vão te ver na televisão.

 Mas o encanto dura pouco. 

— Vai chover amanhã?

— A previsão é de frio?

— É verdade que a temperatura vai cair para vinte graus?

A resposta é simples. Olha o aplicativo do clima, fala alguma coisa sobre frente fria e segue a vida.

Só que esse é o início do fim.

Porque basta UMA resposta certa para as pessoas concluírem que você sabe absolutamente tudo. Quando percebe, foi promovida ao plantão permanente de informações.

Esses dias, meu tio mandou um áudio de quatro minutos  no grupo da família dizendo que tinha visto “num site muito confiável” que um meteoro passaria perto da Terra e talvez derrubasse a internet mundial.

Em menos de dois minutos meu celular já vibrava.

— Isso é verdade?

— Tem perigo?

Alguns familiares riam da situação. Outros acreditaram imediatamente.

— Se não é verdade, por que o Wi-Fi aqui de casa caiu?

— Gente, isso é fake news.

 — Claro que eles vão dizer que é mentira. Se fosse verdade, não iam divulgar.

— Tio, aquele “cientista da NASA” foi gerado por inteligência artificial.

 — Mas você tem certeza?

 — Tenho.

— É claro que tem. Ela é jornalista.

Ainda estou no quinto semestre da faculdade. Mas, pelo visto, isso é só um detalhe.

Tamiris

Tamiris Flores

florestamiris020@gmail.com
26.1
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Tiros na saída

Uma pessoa morreu, mas como era um criminoso, então estava tudo bem. Era um tiroteio em frente à escola, mas como o bairro era perigoso, então não havia surpresa. 

No finalzinho da manhã, após o barulho estridente do sinal de saída, eu e os demais alunos ficamos presos dentro das salas de aula. A confusão chegava a ser palpável. Uma menina do meu lado chorava, desesperada. Já outro colega tratava como contratempo inoportuno.

– O que está acontecendo? – perguntei.

– Tiroteio. Tão atirando dentro da escola. 

– Quem?

– Ninguém sabe.

Momentos depois, todos fomos liberados. O que aconteceu foi um confronto entre a polícia e possíveis traficantes, um deles, como forma de escapar, pulou o muro do colégio e os policiais foram atrás. As pessoas contavam como se fosse algo trivial.

Peguei o ônibus em frente à escola, aliviada por sair viva. Não era a primeira vez que a violência atravessava aqueles portões, mas nunca passou pela minha cabeça que ia presenciar esse cenário. Não imaginei que as pichações de CV – Comando Vermelho, nas casas ao redor fossem algo mais que duas letras nas paredes.

Até pensei que a direção fosse cancelar as aulas do turno da tarde, mas não. Afinal, uma pessoa morreu, mas como era um criminoso, então estava tudo bem. Era um tiroteio em frente à escola, mas como o bairro era perigoso, então não havia surpresa. 

Eliza

Eliza Freire

elizafreirejor@gmail.com
26.1
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Copo pesado

Todo encontro entre três jovens mulheres regado a bebida barata chega, uma hora ou outra, ao tópico inevitável: sexo.

– O maior pau que eu já vi. Juro pra vocês, era enorme. – contava minha amiga Alice, no auge dos 20, sobre sua última transa.

– E o daquele cara foi o menor que eu já vi. – digo.

– Mas o tamanho nem importa tanto se pensar que eles não conseguem fazer a gente gozar só com penetração. – Sara argumenta, fazendo um sinal para que eu pegue o copo de sua mão, antes que ele caia.

– Isso é. Mas o dele era tão grande que eu quase cheguei lá. – Alice rebate.

– E como é? – pergunta Sara.

– Como é o quê? – questiono.

– Chegar lá.

Silêncio.

– Amiga, mas você… nunca?

– Nunca. Não chego lá sozinha.

– Ah.

Silêncio.

– E se você comprar um vibrador?

– Já pensei nisso, mas precisaria ser adaptado, porque eu não tenho força no braço pra alcançar.

– Mas não existe nenhum modelo adaptado pra PCD?

– Não que eu saiba.

– Mas como que ninguém nunca pensou em fazer um troço desses?

– Pois é. Aí eu acabo sempre dependendo de outra pessoa, o que não tá fácil de arrumar também.

– Tá. E se usar alguma coisa comprida e amarrar o vibrador na ponta? Tipo uma colher de pau, sei lá.

– Eu pensei uma vez em fazer um adaptado, mas sozinha eu também não consigo, dependo muito da mãe pra essas coisas. Como que você vai chegar na sua mãe e falar “mãe, me ajuda aqui rapidinho a prender esse vibrador nessa colher de pau pra eu conseguir gozar sozinha?”. Não rola, né? A gente tem intimidade, mas nem tanto. Pode pegar o copo aqui? Tá ficando pesado de novo.

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Raissa Hübner

raissahubnerr@gmail.com
26.1
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Fiapo de manga

Abro a porta de casa depois de mais um dia desses em que o trabalho aperta, o ônibus sufoca e o cansaço pesa. A cidade parece mastigar a gente. Na cozinha, uma manga me espera. Amarela, fiapenta, dessas que já entregam, na cor, que não vão sair do caroço sem luta.

Não sei nem porque a comprei. Se me perguntassem em qualquer outro dia se gosto de manga, eu diria que não, sem pensar muito. Um “não” automático, antigo, que fui repetindo sem perceber. E, ainda assim, lá estava ela. Descasco como dá. Não consigo desgrudar a polpa do caroço e, no fim, acabo mordendo-a inteira. O azedo me faz fechar os olhos, os fiapos irritam nos dentes, a meleira escorre pelos braços. Fiz uma careta, como sempre. 

E, de repente, ele me vem à cabeça.

Meu avô não se irritava com as manchas na camisa, com o caldo escorrendo até o cotovelo, com os dentes, marcados pela nicotina, cheios de fiapos. Ele cortaria um pedaço da fruta e entregaria às mãos pequenas das netas que não desgrudavam dele. Elas também estariam rindo da sujeira.

A neta que recebia os pedaços já não tem mais as mãos tão miúdas. Agora, eu reclamo dos fiapos. Reclamo do azedo, da meleira, do incômodo. Como se a fruta tivesse culpa pela vida ter ficado mais ácida nos dez anos sem ele. 

Inesperadamente, o gosto muda. O azedo ficou doce. O doce mais doce como apenas a manga mais saborosa pode oferecer. Olho para o céu limpo. Um azul raro em dias que insistem no cinza, como quem diz que sabe que estou comendo a nossa fruta. Parece que, quando a como, me vem à cabeça o sorriso, as camisas preferencialmente brancas, o nariz que parecia ter levado mais quedas do que deveria, a voz áspera ecoando dentro da memória. Doutor Oscar iria achar tão bobo: de todos seus feitos como pediatra, o que mais me faz lembrar dele é um caroço de manga, fiapento, impossível de domar.

Pego outra fruta, amarela como gema. 

Descasco devagar. 

Repito todo o ritual.

Sempre gostei de mangas.

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Maria Eduarda Vieira

vmariaeduarda898@gmail.com
25.2
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Atenção

Quando a nutricionista me deu a infeliz notícia de que, para fazer valer o plano alimentar que estou (supostamente) seguindo com rigor, eu precisaria iniciar a musculação, decretei meu atestado de óbito. Oh, céus. Fui condenada ao purgatório contemporâneo.

Sempre odiei a ideia de fazer academia. Imaginava um ambiente digno de pesadelo.
Aparelhos que me remetem a métodos de tortura medieval. Exercícios com nomes esquisitos (em inglês, ainda, para dar um tchan). Cheiro de suor misturado com uma quantidade desproporcional de desodorante masculino. Gente exibida, de nariz empinado, fazendo o tal do pump para tirar uma fotinho enquanto amaciam o próprio ego.

Para completar: todos estariam na espreita, ansiosos para que eu – o peixe fora d’água – cometesse um singelo deslize e puft, virasse o centro das atenções. 

Enquanto mastigava essa amarga derrota, todas as humilhações possíveis cruzaram minha cabeça. Rasgar a calça enquanto faço uma das vinte possíveis variações de um agachamento. Fazer força demais e soltar um pum sem querer. Me apoiar indevidamente num aparelho que cai e, como um dramático dominó em slow motion, derruba todos os que estão em volta. Deixar um pesinho cair no chão e todo mundo me fuzilar com os olhos. Ficar presa num exercício e, pasmem, pedir ajuda ao instrutor que está sendo pago para me auxiliar. Tropeçar no próprio cadarço e me espatifar no chão (vexame bônus se derrubar outra pessoa junto). Usar o aparelho de alguém que está descansando, me gravarem, eu viralizar no Instagram e acabar cancelada por desrespeito a algum dos mandamentos sagrados da comunidade maromba.

Opa, tem mais. Suar muito e marcar minha axila, embaixo do peito e nas papinhas da bunda. Não suar e parecer que não estou treinando o suficiente. Soltar um grunhido semelhante a um gemido inapropriado e deixar todos atordoados. Ficar quieta e levar uma bronca por estar indiferente demais. Meu short preto ser meio transparente e todo mundo descobrir que sou mulher e uso calcinha. Jesus.

Demorei duas semanas para marcar a bendita aula experimental. Foi numa quinta-feira, às 06h da manhã. Considerei que seria o horário com maiores chances de sobrevivência da minha reputação. Já estava preparada para virar a palhaça deste grande circo. Pagar o mico do século.

Cheguei. Uma hora passou. Não morri. Ninguém riu do meu glúteo subdesenvolvido. Nem um pitaco sobre o meu percentual de gordura estar acima da média. Nem um olhar minimamente torto em direção aos baby hairs que não consigo prender no rabo de cavalo.
Caramba.

Nada. Nadinha mesmo.

Que estranho. Como assim?

Voltei pra casa. Mandei mensagem para o pessoal da academia: “2x na semana. Vou fechar o plano anual”. Afinal, quem precisa de terapia quando se tem leg day?

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Maitê Silveira

25.2
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Não importa o alicate

– A vó tá muito diferente. Será que é por causa da terapia?

Passo um pouco de creme sobre as unhas e as coloco na água morna. 

Do outro lado da mesa minha mãe dá de ombros. A agulha sobe e desce. Ela continua costurando. 

– Eu não sei, mas ela está muito diferente mesmo. Ela vai no shopping comigo e com a Paula, fica sentada vendo a gente provar roupa e rindo. 

– Tô precisando do contato dessa psicóloga. 

Eu tiro minha mão da água morna e começo a secar. A agulha para no ar. 

– Por que, filha? Você tá depressiva? 

– Não. – respondo de imediato, sem pensar. – Mas eu sou muito ansiosa. Penso muito sobre tudo. Fico sempre me preocupando com o futuro. E lembrando do passado. 

– Ah, tá! Pensei que eu tinha te traumatizado. 

Ela volta a costurar a cabeça do Papai Noel. A agulha fura e remenda. Fura e remenda. De novo e de novo. Eu pego a espátula e começo a empurrar minha cutícula com força. Tenho duas opções agora: posso esconder a cutícula ou arrancá-la. Aprendi com a minha mãe há muitos anos que coisas feias precisam ser escondidas. Ou cortadas. Não falo nada. 

Minha mãe me encara. 

– Você e a Victória alguma vez já sofreram algum preconceito na rua? 

Eu pego o alicate e começo a tirar minha cutícula. Não olho para minha mãe e demoro a responder. Quando finalmente falo, minha voz quase não sai. 

– Ah, às vezes, quando a gente tá se beijando na rua um homem vem e pede para participar. 

Meu dedo começa a sangrar e só então percebo que me cortei com o alicate. Já não dói muito, mas incomoda. Pego um pedaço de algodão e pressiono sobre o machucado. Preciso ser mais cuidadosa. 

– O padrasto da Victória também me tratava mal. Ele nem me olhava quando eu ia pra casa dela. 

– Ah, mas é difícil. Eu também não devo ter tratado a Victória muito bem.

Minha mãe não ergue os olhos, não me vê. Ela continua costurando. Fura e remenda. É natural para ela, instintivo. Não precisa pensar, só faz igual às outras mulheres da família. Aprendeu com a mãe dela que aprendeu com a mãe também. Eu nunca aprendi a costurar. 

Procuro uma base pra passar sobre a unha. Tem várias: uma meio amarelada, outra meio rosada e uma completamente transparente. Escolho a transparência, o que me surpreende. Sempre escolhi as meio turvas.  

– Você não tratou. 

– Você é minha princesinha. Eu esperava que você fosse aparecer em casa com um príncipe, não com….

O final da frase fica no ar. 

Me corto de novo. O sangue escorre pelos cantos da minha unha. Dessa vez, eu não me mexo pra limpar. Deixo sangrar. Eu continuo a me machucar, mesmo que tome cuidado. Empurro mais minha cutícula com a espátula. Sangra mais e eu continuo a empurrar. 

– Ah, esse alicate é novo. Tá bem afiado. 

Parece que a culpa é minha. Afinal, eu escolhi o alicate. Mas não importa. Qualquer alicate que eu escolha, sempre acaba me machucando. 

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Maria Eduarda Furlanetto

mariaed.furlanetto@gmail.com
25.2
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Agulha de crochê


Eu posso ter só 20 anos, mas desde que me entendo por gente, quando penso na minha bisa, a vejo com um saquinho de supermercado cheio de linhas e uma agulha de crochê. Na casa dela, até o vaso sanitário tem uma daquelas capinhas bordadas típicas de casa de vó. Minhas primas mais velhas aprenderam com ela: sentavam ao seu lado, observavam em silêncio e, com o tempo, foram pegando o jeito.

Hoje, no auge dos seus 90 anos, ela ainda senta todos os dias na varanda para fazer o tão amado crochê. Adora bordar paninhos de louça com cores diferentes, para presentear a família ou só para passar o tempo e ocupar a mente.

O marido já se foi, os filhos já não moram mais ali, os irmãos têm suas próprias famílias. O que ficou foram as visitas de fim de semana dos filhos, netos e bisnetos enchendo a casa, e claro, o seu inseparável kit para bordar.

Ela até perdeu um pouco do jeito depois de uma cirurgia para retirar um câncer, mas nunca desistiu. Se erra um ponto, desfaz tudo e começa de novo, sem reclamar.

Dia desses, ela perdeu a agulha. Procurou pela casa inteira: revirou gavetas, armários, livros da sala.. Chamou as filhas para ajudar. Com a movimentação, perguntei o que estavam procurando há tanto tempo. Minha tia-avó respondeu:

— Bebe, a Wawá não está achando a agulha dela, tadinha.

Levantei do sofá e falei:

— Ué, gente… tá aqui na poltrona do lado de vocês, olha! — e entreguei para a minha bisa.

Acho que nunca a vi tão feliz. Deu uns pulinhos e até me abraçou – o que, vindo dela, é raro.

No fim,disse:

— Quando eu morrer, quero que coloquem uma agulha de crochê no meu caixão.

Aí eu entendi. Para ela, aquele não era só um objeto. Era companhia, era memória, era o jeito de seguir ocupada, mesmo quando tudo à volta já não era mais a mesma coisa.

E percebi que, às vezes, o que parece pequeno pode ser justamente o que segura a vida de alguém pelas bordas.

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Beatriz Perrone

beaaperrone@gmail.com
25.2
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Eu sou a velocidade

Passei uma semana em Aquiraz, no Ceará, num resort onde já havia estado em
vários momentos com a família. Dessa vez, a viagem foi diferente: só eu e dois
amigos, curtindo a liberdade de aproveitar aquele mar de piscinas e cadeiras de sol.

Uma tarde, enquanto descansamos à beira d’água, começou uma atividade com o
tio da recreação. Tocavam músicas de filmes e, cada vez que acertasse, a pessoa
tinha o número do quarto colocado num pote para um sorteio. O jogo era claramente
feito para crianças, com os pais soprando respostas no ouvido delas. Eu assistia só
por diversão, afinal, quando era dessa idade, nunca tinha conseguido ganhar nada
nessa brincadeira.

As primeiras rodadas foram previsíveis: Harry Potter, Frozen e outras trilhas óbvias.
Mas percebi que as crianças não sabiam algumas músicas. Pensei que essa
geração estava perdida.

Foi aí que veio o momento que mais me irritou. Tocou Life is a Highway, de Carros,
meu filme favorito da infância, e um dos que ainda guardo com carinho até hoje.
Esperei a reação. Nada. Nem uma vozinha hesitante. Silêncio absoluto. Como
assim, ninguém sabia? Não aguentei:

– Carros! – gritei, indignado.

– Acertou! Qual o apartamento? – perguntou o tio.

– 3304. – respondi.

Depois desse insulto ao Relâmpago McQueen, decidi entrar de vez na disputa.
Vieram mais cinco músicas. Acertei todas, sem pestanejar.

Na hora do sorteio, o recreador começou com as pistas:

– O apartamento termina com número par.

As crianças se entreolhavam. Eu ria por dentro.

– O apartamento começa com número ímpar.

O destino já estava escrito.

– O vencedor é o 3304!

Levantei como quem tinha acabado de ganhar uma Copa Pistão. Algumas pessoas
me olharam com certa inveja, mas a verdade é que aquele prêmio era questão de
honra pelo filme.

No fim, o troféu foi um bombom e um vale caipirinha. Combinação que revelava o
truque dos pais: usavam os filhos como desculpa para beber de graça, deixando o
doce como consolo. Sendo bem sincero, achei uma troca justa. No meu caso,
melhor ainda: fiquei com os dois.

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Pedro Fattah

pedrofattah03@gmail.com
25.2
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A casa caída

Eu tenho uma casa de estimação. Ou melhor, tinha: a casa caiu. 

Na esquina da rua onde moro, uma charmosa residência térrea com paredes cor-de-rosa encantava quem passava por ali. Perdi a conta de quantas vezes falaram que ela parecia uma casa de boneca. Ela ficava bem no centro do terreno, com lindos adornos de gesso nas bordas do telhado, e era separada da rua por um caminho cuidadosamente calçado. A casa era rodeada por um florido jardim e muros tão baixos que o tornavam praticamente decorativos.  Tudo isso fazia aquele lugar parecer muito convidativo.

Quase toda manhã, um dos moradores da casa se sentava no banquinho do quintal para observar atentamente o movimento da rua. Na maioria das vezes, o meu “bom dia!” era respondido com um aceno de cabeça muito tranquilo, acompanhado de um tímido sorriso de canto de rosto. Quando passávamos por ali ao entardecer, quem nos cumprimentava eram as cheirosas damas-da-noite, um cheiro que até hoje me faz pensar em “lar”. Aquela casa era um pouco minha, também.

Segundo a minha vó, a casa cor-de-rosa está há mais tempo na nossa rua do que o asfalto. Sua delicadeza resistiu à construção de grandes prédios no seu entorno, às idas e vindas dos comércios que, em algum momento, não conseguiam mais sustentar o valor do aluguel. Em especial, as tantas farmácias passageiras que apareceram ali por perto. Ela presenciou, também, muitas mortes. E só não resistiu a uma delas.

Dona Adélia morava na casa, e em um de seus aniversários, minha avó a presenteou com uma flor. Achei engraçada a ideia desse presente para alguém que cultivava dezenas de plantas diferentes em seu quintal. Ela o recebeu como quem ganhara uma enorme riqueza, e dividiu algumas palavras bondosas com minha vó. Ali pensei que gostaria muito de conhecer aquela senhora e sua casa. 

Mas a realidade nem sempre respeita nossos planos. Em um dia qualquer, uma placa agressiva e indelicada de “vende-se” foi fincada no terreno, amargurando meu ritual diário de passagem pela casa. O terreno estava sendo oferecido por R$8 milhões, nos disseram.

O motivo da venda só foi informado depois. Dona Adélia morreu sem que eu pudesse ouvir o que ela tinha a dizer sobre nosso bairro e sua vida. Sua casa foi demolida antes mesmo de nós, os vizinhos, sabermos a causa de seu falecimento. Jamais imaginei que a casa que existia desde antes de eu nascer poderia deixar de existir. Muito menos que sua história, seus jardins floridos e as memórias de Dona Adélia seriam trocados pelo que mais tarde descobri ser uma briga da família.

Um dia, minha mãe foi sanar a curiosidade coletiva e perguntou aos vizinhos o que seria construído no lugar.

– Uma farmácia.

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Isadora Dymow

"isadoradymow@gmail.com"
25.1