Fazia mais ou menos uns 40 minutos que eu estava andando de bicicleta enlouquecidamente na Zona Sul do Rio de Janeiro. Eu e Laura. As duas com o celular no peito, com medo de assalto. Gritando uma com a outra porque o som da cidade era alto demais. Pedalando rápido – a ponto da perna doer – para cobrir a maior área possível de terreno, já que na noite anterior choveu e não deu para fazer nada. Era dois de novembro. Finados. Uma quinta-feira atípica no Rio de Janeiro. Não só pelo feriado, mas porque faltavam dois dias para a final da Libertadores. Fluminense e Boca Juniors – um tópico sensível para mim, pois tinha comprado passagem para o jogo em agosto, com esperança de que o Internacional seria o vencedor do campeonato. Passamos Leblon… Ipanema… Copacabana.
Cadê os argentinos? – Laura perguntou, surpresa. Na televisão, a repórter falara em 150 mil torcedores do Boca na Cidade Maravilhosa.
Só naquele momento eu parei para olhar os arredores. Parecia tudo normal. Normal demais. A Avenida Vieira Souto estava fechada para circulação de carros. Pedestres e ciclistas aproveitavam para tomar a rua naquela tarde com gostinho de final de semana.
Todo mundo tem cara de brasileiro. – complementou. Tinham mesmo.
Comecei a me questionar se eu tinha cara de brasileira. Chegamos no Leme. A pedalada continuava e a perna doía cada vez mais. Por um momento fiquei feliz com a dor, idealizando a vida fitness que eu tinha me prometido seguir. De repente, meus pensamentos foram interrompidos por um barulho. A primeira coisa que me veio à cabeça foi um canto de guerra.
O que é isso? – indaguei.
Júlia, olha pra frente. – Laura falou, espantada.
Isso é um… zumbi?
Descemos das bicicletas. Do nada, estávamos no meio de uma passeata do Dia dos Mortos, de 150 mil argentinos e de dezenas de milhares de torcedores do Fluminense. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Vampiros, bruxas, lobisomens, policiais, fanáticos do futebol, eu e Laura. Apesar de caótico, existia uma divisão: a passeata era na rua, os fãs do Boca ocupavam a praia e os do Flu, o calçadão. A polícia estava ali para intervir caso essas fronteiras fossem cruzadas. E claro que foram. Teve briga, beijo, desmaio, paquera e confusão.
Chicas, por eso amo el Brasil. – falou um desconhecido, em um portunhol puxado.
Não continuamos a pedalada. Nos integramos ao maravilhoso caos do Rio de Janeiro.






