40

Tempo

O caminho entre a Praia da Armação e o centro de Florianópolis nunca havia sido tão longo. 

Buzinas, pneus arrancando, murmurinho: eu conseguia ouvir muita coisa, mas só o que eu enxergava era o teto branco da ambulância. 

Fechei os olhos. Quando os abri, estava entre as paredes do Hospital Governador Celso Ramos, em uma maca no corredor. Junto a mim, outros vários como eu. 

Na minha frente, um menino vestido todo de branco: camisa branca, calça branca e botas brancas. A única coisa que destoava era a faixa tingida de vermelho que estancava uma amputação no braço direito. O que me chamou atenção, no entanto, era o que ele segurava. Em sua mão esquerda havia um celular. Nele, o garoto assistia vídeos de outros garotos, tão jovens quanto ele, andando de skate. Interrompido por uma enfermeira, foi levado para fazer exames. Nesse momento, as paredes conversaram alto e eu, esperando por atendimento, prestei atenção. Seu nome era Miguel. Miguel tinha 17 anos e trabalhava num açougue com o pai. 

Para ocupar o lugar dele no corredor, entrou outro homem, de vinte e poucos anos. Seu cabelo estava, em partes, raspado e seu rosto carregava hematomas. Nessa hora, me faltavam forças até para chorar – a dor insistia em me lembrar do porquê de eu estar onde estava.

Calma, moça – ele me consolou. Eu quase morri. Eles me deixaram vivo porque quiseram. Eu poderia estar morto agora. 

Obrigada – agradeci, com a voz embargada.

Miguel, então, voltou ao cômodo abarrotado de gente, à espera de um leito. Entra turno, sai turno e minhas roupas molhadas já haviam secado.

Vamos te colocar na cadeira de rodas para facilitar a locomoção – me avisou uma enfermeira.

Vai ser agora! – pensei, tentando me conformar.

Então fomos, desviando de gente deitada com semblantes entristecidos, que me faziam questionar qual era o preço da dignidade. 

Agora você vai esperar aqui. Tem algum familiar lá fora?

Balancei a cabeça, para avisar que sim, me referindo aos meus pais, que aguardavam em frente ao hospital desde que cheguei.

Mais espera. Aquilo, definitivamente, não era o que eu queria ouvir. 

Assim, os minutos se converteram em horas, as horas pareciam semanas… E lá estava eu, ainda, entre o barulho das sirenes. 

Mais rostos, mais histórias. Histórias essas que, naquela altura, quem podia contar, contava. Quem não podia…

Moça – parei uma enfermeira no corredor. Falta muito? Eu já estou aqui há cinco horas sem atendimento. Eu nem pude ir ao banheiro por conta do meu acidente.

Tem mais quatro pacientes na sua frente, que estão aqui desde a manhã. 

Alcança a comadre para ela – disse outra enfermeira, vestida de azul, que passava por ali. 

Eu não vou conseguir fazer xixi na frente de todas essas pessoas – avisei.

Meu pai, então, foi, finalmente, liberado para entrar. Veio até mim com um olhar incrédulo, se agachou e me ajudou a suspender a perna, que eu mal conseguia mexer. Com um lençol branco sobre meu corpo machucado, esperamos os dois, ao lado da sala de sutura. 

Enquanto isso, uma mulher de meia idade, que parecia ansiosa, nos mostrou seu celular. Era uma foto de seu irmão. 

Ele tá aberto assim desde de manhã. Deve ter uns 20 centímetros esse corte. E tá sendo atendido só agora. Caiu andando de moto e me chamou porque não tem esposa – desabafou ela.

Logo, aquele homem saiu por aquela porta que eu tanto ansiava entrar. Socorrido. Suturado. Medicado. O tempo de espera dele havia acabado.

Então, ouvi meu nome.

Mariana? Sua vez – disse um médico, que parecia tão jovem quanto eu.

Então fui. Entrei na sala. Era minha hora. Socorrida. Suturada. Medicada. E, pela primeira vez, algo ali tinha passado rápido. Saí, cruzei a fachada daquele hospital e, honestamente, me senti livre. 

Pude ir para casa e deitar em uma cama decente. Sozinha. Em silêncio. No entanto, que inocência a minha achar que aquele terror me deixaria livre tão cedo. Hoje, exatos dois meses depois, não há uma noite sequer que eu não pense em Miguel e em todos aqueles que ficaram.

Esperando.

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Mariana Franco

rosafrancomari@gmail.com
23.2
39

Sinal de vida

Mãe: Bom dia, filha querida. Deus te abençoe. 

Conferi minhas notificações e deixei o celular de lado. Precisava me arrumar para a aula, às pressas. Não voltei a olhar para a tela nesse meio tempo. Vivo correndo e as pequenas pausas que dou são dedicadas a pequenos prazeres: um café, Tiktok, um tempo no Instagram. 

Mãe: Eii, psiu. Cadê você? 

No momento estava no meio do estágio. Peguei o celular para responder, mas me distraí com algum pedido do meu chefe. Não vi o tempo passar e cheguei em casa cansada, sem cabeça para conferir o celular. Pedi um cachorro-quente por delivery, fiz minhas tarefas, jantei e dormi — nessa ordem. 

No dia seguinte, repeti a rotina. Me lembrei da mensagem depois do almoço e vi que tinha uma nova me esperando, junto com uma ligação. Ah, ela podia estar preocupada. Eu precisava entrar no ônibus, então mandei uma resposta rápida.

Eu: Ontem foi uma correria, desculpa a demora. Te amo.

Assim segui meus dias. Em meio à pressa, vez ou outra me esquecia de enviar um sinal de vida – sentia cansaço – me lembrava – mandava uma mensagem – ia para a faculdade – ia para o estágio – fazia uma ligação de vídeo – resetava o ciclo. Até que certa manhã a mensagem de ‘bom dia’ não veio. 

Quando me dei conta, parei de mexer no computador e peguei o celular. Abri a conversa e verifiquei que nossa última interação foi às nove da manhã do dia anterior. Fazia mais de 24 horas. Mandei uma mensagem. 

Eu: Oi mãe, bom dia! Tudo bem com a senhora?

Apenas um tracinho apareceu na tela. Esperei pelo segundo, mas ele não veio. Por que ela estaria sem internet? Será que desligou o celular? Será que roubaram o celular dela?

Abri os contatos e procurei o seu número na lista de salvos. Ela só precisava de rede para receber ligações, então poderia atender, certo? Se estivesse bem, iria me atender. Ouvi o bipe da chamada. Uma, duas, três, quatro vezes. Na oitava já estava roendo a unha do dedão. Onde se meteu essa mulher? 

Respirei fundo, me obrigando a organizar os pensamentos. Meu chefe estava na sala, então ponderei enquanto fingia que lia algo no computador com muita atenção. Minha mãe não tinha motivos para não me dar bom dia em uma manhã comum. Não era feriado e nem aniversário de ninguém da família e, que eu soubesse, não tinha nenhum evento que ocupasse o seu tempo a ponto de ela não ter um espaço para me mandar um sinal de vida. 

Decidi ligar de novo, mas a nova tentativa também foi mal sucedida. Era hora de apelar para minhas armas mais fortes. Mandei mensagem para minhas tias. Não falava com elas havia mais de um mês, mas era uma emergência, então poupei palavras.

Eu: Oi tia, bom dia! Tudo bem? Sabe onde está minha mãe? Ela não está respondendo e não atende o telefone. 

Tia: Oi querida, não sei não. Vou tentar falar com ela e te aviso. 

Agora precisava esperar, mas esperar era uma tortura. As horas passavam e não conseguia me concentrar por muito tempo no trabalho. Saí do estágio com a produtividade baixa de um dia ruim e tive o mesmo desempenho na faculdade. Ao final da tarde, já havia incomodado metade da minha família, mas ninguém sabia o paradeiro de minha mãe. 

Por fim, acionei meu irmão. Deixei ele por último porque reconhecia que era pior que eu: às vezes, demorava cinco dias para responder um ‘bom dia’. Era tão ruim que minha mãe me fez prometer, antes de me mudar de cidade, que nunca seria como ele. Até então estava conseguindo cumprir minha promessa, meus sumiços nunca duravam mais de quarenta e oito horas. 

Eu: Oi maninho, falou com a mãe hoje? 

Enviei a primeira mensagem sabendo que a resposta seria negativa. Quando ele confirmou minhas suspeitas, contei:

Eu: Ela não responde e nem atende ligações o dia inteiro. 

E foi o suficiente para fazê-lo ficar tão preocupado quanto eu.  Começou querendo perguntar se minhas tias tinham notícias, mas avisei que já havia tentado e não deu em nada. Ligou e não foi atendido. Mandou mensagem para minha avó, que o respondeu com um ‘não’ e uma foto de uma oração. Passou por toda a procissão que eu passei até acabar no mesmo ponto torturante: a espera. 

Quando cheguei em casa, perto das sete da noite, já estava considerando acionar a polícia. O que uma senhora de 54 anos pode estar fazendo sem internet o dia inteiro? Só imaginava um sequestro, um derrame ou coisa até pior. Fiquei insone com meu pessimismo — o caminho que minha mente sempre segue quando a deixo livre —, e senti raiva de mim por não conseguir ser mais tranquila e relaxada. Mas não há o que fazer, é só ler meu histórico de crônicas para notar minha inclinação para tragédias. 

De repente, mais ou menos às dez da noite, recebi uma notificação. 

Mãe: Oi filha linda, boa noite, Deus te abençoe. 

O alívio da mensagem se misturou com a raiva. Respondi com as mil perguntas que rondaram minha cabeça durante o dia. Onde ela esteve? Por que não tinha internet? Por que não me avisou antes?

Mãe: Eu fui na praia e a bateria do meu celular acabou, voltei agorinha. 

Simples assim. Um dia de buscas reduzido a uma explicação de uma linha. Pedi para que ela nunca mais sumisse e fui dormir. 

No dia seguinte, acordei com a mensagem usual de bom dia. Respondi no mesmo instante.

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Juliana Carvalho

julianacarvalhojc251@gmail.com
23.2
38

Sequestro relâmpago

Em uma noite de sexta-feira, após ter jantado no RU, pretendia voltar para casa para colocar os trabalhos em dia quando fui atacado por dois sequestradores. Fui forçado a sentar-me no bar mais próximo de casa e pegar o copo que me foi oferecido. Disse a mim mesmo que seria rápido, apenas o necessário para não desagradá-los, pois não tinha como saber se me machucariam caso recusasse. Se fingiam amigáveis, me levando a questionar se, talvez, não seriam pessoas ruins. Repreendi o pensamento e, enquanto pediam outra garrafa, planejei fugir. Por azar, o atendente marcou o pedido em minha comanda – agora, seria obrigado a pagá-la e, portanto, bebê-la. 

Estava procurando tomar o controle da situação, quando um comparsa dos sequestradores surgiu. Um advogado. Como uma técnica de coerção, pagou para todos nós uma porção de pastéis, me obrigando a ficar mais, afinal, comida de graça não se nega. Por sorte, a operação criminosa não parecia tão bem planejada e o recém-chegado, já bêbado, fazia da mesa do bar um tribunal, defendendo um caso aleatório sem ninguém para debater de volta, exibindo todo seu juridiquês e incomodando os donos do estabelecimento. Possivelmente os criminosos tivessem se arrependido de envolvê-lo, pareciam incomodados e discutiam uma forma de se livrarem dele, dando-me uma chance de fugir enquanto estavam distraídos. 

Foi quando o estudante de direito inquieto fez outra vítima, um homem perdido e confuso que percebi ser mexicano. Abortei minha fuga e fui ao seu resgate, jamais poderia permitir que outra pessoa sofresse o mesmo destino trágico que o meu. Em nossa conversa furtiva revelou-me ser um turista em viagem pelo Brasil, estava convencido de que o povo do Sul não era tão receptivo quanto os cariocas ou paulistas. Um senso de bairrismo me tomou. Meu orgulho não deixaria minha terra ser mal vista, mesmo eu não sendo exatamente daqui e na realidade nem gostando tanto assim do estado. Decidi ser seu herói não requisitado, protegendo-o dos males desses sequestradores. Não o deixaria vir até aqui para ser feito refém, podemos até não ser receptivos, mas orgulhosos, com certeza! 

Cheguei a pensar se não seria uma armadilha, talvez o estranho turista fosse um infiltrado. Afinal, sempre que via o atendente, encomendava mais uma rodada. Olhei as horas pela primeira vez em muito tempo, já passava da meia-noite e havia uma quantidade comicamente grande de garrafas cheias na mesa. Seria esse o plano deles? Me fazer perder os sentidos enquanto o valor do resgate, marcado em nossas comandas, crescia? 

Quando mais um comparsa do grupo surgiu – um suposto morador de rua – percebi que já havia passado dos limites, era hora de fugir! Corri o mais rápido possível para o caixa com a intenção de pagar os 10 reais marcados ali e evitar ser cobrado pelo que não pedi, apenas consumi. Com os olhos na maquininha, fui cercado pelo grupo criminoso mais uma vez, tendo que lutar pela minha liberdade. 

Até que tudo escureceu. 

Despertei em casa, sem saber para onde todos tinham ido. Sumiram tão prontamente quanto surgiram, provavelmente fugindo da polícia. Não me lembrava de como havia escapado, sequer lembrava se o dinheiro do resgate fora pago. Chequei meu extrato, antecipando estar zerado. Para minha surpresa, nem um único centavo havia sumido, nem mesmo o valor de minha comanda. Lembrava-me vividamente de ter acertado a conta com o atendente e dele confirmar que não faltou nada. Teria sido tudo um sonho? Foi então que recebi uma mensagem pelo WhatsApp de um turista mexicano que não me lembrava bem como conheci. 

– Bar hoje? 

Entendi os sinais do universo. Naquela noite, após cumprir um juramento de responsabilidade acadêmica durante a tarde, deixe-me ser sequestrado novamente.

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Natan Balthazar

natanbalthazar@gmail.com
23.2
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Quem tem medo da polícia?

No dia em que pensei em escrever uma crônica sobre ser preto em uma sociedade racista, aconteceu. Senti medo de morrer por causa da minha cor. Pra ser sincero, acontece sempre. Era 11 de agosto de 2023, uma sexta-feira. Tive minha primeira aula de Texto V nesse dia. Saí do trabalho às 19h e estava indo encontrar dois amigos em um barzinho da Avenida Hercilio Luz. É meu “sextou” preferido. 

O camburão da PM estava parado a algumas ruas do meu trabalho. Dois policiais, para dobrar o meu medo. Lembro que minhas mãos suaram e meus olhos desnortearam. Contato visual nunca é uma opção. Atravessei para o outro lado da rua e a cada passo tentava tranquilizar a mim mesmo.

Calma, Carlos. Você está bem vestido. Está voltando do trabalho.

Isso é ilusão, eu sei. Um preto pode estar de terno, ser bem sucedido e mesmo assim estará fadado ao medo, à truculência da polícia. Talvez até a alguns tiros de advertência por existir.

 O camburão cruzou por mim depois que atravessei a rua. Foi para a via de cima, como quem rodeia sua presa. É uma sensação de insignificância. Parece que serei mais um “caso isolado” a qualquer momento.

Cresci em uma vila simples, em São José (SC). A polícia batia direto na frente da casa do Vando, meu quase vizinho. Era o point, se é que me faço entender. Eu conseguia ver tudo, pois o lugar onde eu morava fica em uma subidinha com vista privilegiada para a esquina. Precisava passar pela casa dele para ter acesso à rua principal. Toda vez pedia a Deus para não trombar com a polícia e ser “confundido”. Sim, esse texto faz mais sentido com aspas. 

Tive a “sorte” de ser enquadrado apenas duas vezes em 23 anos. Algo me protege. Com meus dois amigos de infância e vizinhos não foi a mesma coisa. Eles são irmãos e tomavam enquadros seguidos, com xingamentos e agressões. Nunca se envolveram em nada ilícito. Seu crime é terem a pele escura.

Desde quando entendi o que minha cor significa em uma sociedade racista, lá pelos meus 16 anos, comecei a sentir receio de lugares e de pessoas brancas. No dia 11 de agosto, eu cheguei no bar. Me enchi de cerveja e de risadas pra fingir que estava bem. Temo não conseguir chegar a tempo algum dia – no bar, em casa ou num destino seguro qualquer.

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Carlos Venâncio

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23.2
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Quatro minutos e 17 segundos

O semáforo da rua Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, demora quatro minutos e 17 segundos para abrir para os pedestres. Como eu sei disso? Cronometrei. Passei cinco dias tendo que esperar essa eternidade para conseguir me locomover na cidade. O tempo passa devagar demais quando a gente está parado e precisa ir para qualquer lugar. No dia cinco de novembro, o destino era a praia de Ipanema. Caminhei até a rua, já preparada para lidar com a frustração que este pequeno intervalo de 257 segundos causaria na minha vida.  

De longe, vi o vermelho mudar para o verde. O eterno verde para os automóveis. Olhei tanto que, naquela hora, a cor deixou de ser a minha favorita. Ao lado de umas dez pessoas, comecei a esperar. A senhora ao meu lado estava falando no telefone com a filha, Luisa.

Você tem que dar um jeito nesse teu marido, Lu. Assim não dá. – entoava em voz alta, tornando impossível para quem estava perto não ouvir a fofoca.

A garotinha na minha frente devia ter uns 11 anos. Estava com o uniforme do Colégio de Aplicação da UFRJ, com fones de ouvido rosa e a música “Cruel Summer”, da Taylor Swift, tocando no celular. Ela era bem mais baixa do que eu, por isso consegui invadir a sua privacidade e observar a escolha sonora. Meus olhos estavam procurando qualquer coisa que me distraísse da realidade. Quatro minutos e 17 segundos. Pensei que a menina iria escutar a canção inteira e o sinal ainda estaria fechado. Quem sabe, até terminar outra, caso fosse essas produções novas, mais rápidas, feitas para bombar nas redes sociais.

Recebo uma mensagem de áudio. É o Dudu, repórter do Globo Esporte que trabalha comigo, em Florianópolis. 

Ju, meu Deus, tu não vai acreditar. Acabei de te ver parada na sinaleira. Cheguei no Rio agora e tô indo de Uber para o hotel. Que coincidência absurda. – disse, surpreso. 

Não é possível, pensei. De todos os lugares maravilhosos da cidade, no meio de quase sete milhões de pessoas, Eduardo me avistou na esquina da rua Pacheco Leão, onde o tempo estava congelado. 

Se no início éramos dez, com o passar do tempo já tínhamos nos tornado 25, 30. A calçada era pequena para tanta gente. O fluxo de carros não diminuía e a angústia era palpável no ar. 

Não empurra, porra. Não tá vendo que se eu for mais pra frente uma moto me pega? – gritou um homem, vestido com uma camiseta do Fluminense, número 16, com um enorme “VILMAR” nas costas.

A animação crescia dentro de mim. Faltava pouco. Dava para sentir. Do nada, surgiu um cheiro de queimado. Olhei para trás, uma correria dentro da padaria que beirava a rua.  Algo tinha acontecido com o forno de assar os pães. Me aproximei do estabelecimento. Péssima ideia. Virei para a sinaleira. Vi a garotinha do fone rosa no meio da faixa de pedestres. Era a minha hora. Tentei passar pelas pessoas que tinham me acompanhado naquela eternidade. Quando coloquei o pé na rua, olhei para cima e vi o verde novamente.

Ele só fica sete segundos aberto. – ouvi uma voz. Me virei. 

Como você sabe? – perguntei. 

Eu cronometrei.

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Júlia Duvoisin

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23.2
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Parquinho

— Juliana Carvalho — a coordenadora da escola chamou — Sua mãe está te esperando na secretaria.

Um nó se formou na minha garganta. Não deveria ser surpresa nenhuma, minha bisavó estava inconsciente havia duas semanas. Foram quatorze dias sem nenhuma notícia de melhora. Aos 18 anos, já sabia que a próxima atualização do seu quadro tinha grandes chances de ser ruim. Ainda assim, chorei. 

Passamos em casa para vestir roupas pretas. Seguimos a viagem até o cemitério da cidade vizinha em silêncio. Meus pensamentos me levavam de volta às lágrimas vez ou outra, até retornarem às memórias de anos atrás, parando em um parquinho colorido no canto de um cemitério. 

O encontrei no primeiro velório que compareci, aos cinco anos. Ver tantos adultos chorando juntos foi um choque, porque, na época, adultos não sucumbiam à emoções como crianças da minha idade. Mas lá estava um bando deles, chorando de soluçar. 

Demorou para que eu fosse capaz de entender o que era aquela reunião de pessoas vestidas de preto. O clima triste pesava no ambiente. Me mantive quieta, seguindo  meu papel na procissão mórbida. Até ver o parquinho. 

Em meio à monocromia da tarde, o espaço no canto do cemitério parecia brilhar em cores. Enquanto os adultos seguiram seu caminho para enterrar o caixão, eu e outras crianças aproveitamos para fugir do peso daquele ritual. Brincamos até o fim da cerimônia. Quando todos estavam deixando o local, minha mãe me buscou e mostrou onde colocaram sua amiga. Não consegui acreditar. Para mim, era só um pedaço de terra batida com uma pedra lapidada em cima. Não dava para ver nem um pouco da mulher alegre que me maquiava, me deixava vestir suas roupas e brincar com as perucas que usava por conta da quimioterapia. 

Voltei a olhar para o parquinho. Pedi à minha mãe para que me deixasse brincar mais um pouco, mas já estava na hora de ir embora. 

Anos depois, enterrei meu bisavô. Algum tempo mais tarde, aos onze anos, foi o meu pai. Todas as vezes, realizei o mesmo ritual: vestia roupas pretas, aceitava palavras de pesar, evitava encarar a morte dentro de um casulo de madeira, deixava que o fechassem e esquecessem debaixo de um punhado de terra —, mas não chorava. Essa parte do ritual eu não cumpria. 

Dessa vez, no entanto, algo estava diferente. Não parei para procurar um rosto amigo que pudesse aliviar o peso do ambiente. Não tive medo de encarar a minha bisavó, sabendo que nunca mais teria oportunidade de vê-la. Não evitei as lágrimas e nem o carinho que me ofereciam. Pela primeira vez, ofereci o meu também. 

— Odeio isso — disse, mais tarde, para minha mãe. — Quero ser cremada. 

Notei que para odiar algo é preciso entender um pouco sobre aquilo, mas não desejo esse entendimento para ninguém. Se pudesse, nunca mais iria a nenhum velório, nem ao meu próprio. Mas, ah, sei que irei de novo, algum dia. 

E não haverá outro parquinho esperando por mim.

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Juliana Carvalho

julianacarvalhojc251@gmail.com
23.2
33

Mega-sena

Dia de sorte

Você jogou na Mega-Sena. Era para estar economizando, mas gastou cinco reais num bilhete para ter a chance de mudar de vida. Você assinalou os mesmos seis números da sorte que escolheu todas as vezes em que jogou, mas continuou confiante. É quarta-feira, nove da noite, e você continua atualizando a página do Google para ver o resultado do sorteio, na esperança de que os seus seis números sortudos apareçam na tela. 

A página atualiza. Você segura o fôlego e imagina que conseguiu. Depois do azar de não ter nascido herdeiro, finalmente chegou o seu momento. O momento em que os humilhados foram exaltados. 03-06-13-26-47-52. Você agradece a todos os deuses ao ver seus números escolhidos sendo sorteados. Nem consegue pregar o olho naquela noite e antes que o sol nasça, você já se arruma para ir até o banco buscar seu dinheiro.

Você não se lembra se o prêmio era de 30 milhões ou 15 milhões de reais. Só torce para que não sejam 3 milhões, porque é muito pouco. A riqueza já subiu à cabeça. No caminho até o banco, você pensa no apartamento à beira-mar que vai comprar. Começa a ficar nervosa pensando se vai conseguir encontrar um designer de interiores que realmente capte o seu estilo. Será que é melhor comprar uma BMW ou uma Mercedes? Você não entende muito de carros, mas Mercedes é um nome mais bonito, então decide que vai comprar umas três dessas. 

Quando entra no ônibus, olha para todas as pessoas ali e percebe que elas não sabem que estão do lado de uma milionária. Você sente pena. Todos aqueles trabalhadores indo bater ponto no trabalho enquanto você está a caminho do bem-bom. Você se lembra dos pobres coitados que existem no mundo. Seria bom doar um pouco do dinheiro, né? Se o prêmio for de 30 milhões, talvez você doe um milhão de reais. Mais que isso, já é muita bondade!

Durante o caminho, pensa em todas as comidas chiques que vai comer. Até na academia você vai se matricular e, dessa vez, não vai ter desculpa para faltar. Nunca mais vai trabalhar na vida. Daí, você lembra que um dia o dinheiro pode acabar. Vai ter que investir. Você passou a vida inteira pensando que investimento é coisa de homem rico branco, então não faz ideia de como fazer. Vai ter que contratar alguém para cuidar das finanças. E se te roubarem? Talvez seu amigo rico, Victor, saiba indicar um contador.

Descendo do ônibus, você percebe que mesmo que não diga para ninguém que ganhou na loteria, haverá sinais. Pensou em todos os sanguessugas que vão se aproximar de você por 

causa do dinheiro. Vai ter que ajudar todo mundo próximo, para não fazer desfeita. Ser rico deve ser muito difícil. Vai ter que se consultar com uma psicóloga. Só nessa brincadeira, já gastou metade do prêmio. 

Bufando, você chega no banco. Decide conferir no celular o verdadeiro prêmio. Três milhões de reais. Só isso? Sério? Podia ter ganhado quando o prêmio fosse maior… Nem um apartamento na beira-mar vai dar de comprar. Você percebe que estava divagando demais, e se vê encarando a tela do celular, às nove da noite. O Google atualizou. Você não ganhou na Mega-Sena. Bem, assim era melhor. Você não queria doar um milhão para a caridade.

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Julia Gotz

juliaagotzz@gmail.com
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MAX-7073

Fazia 20 anos que eu assistia meu pai acompanhar a odisseia de um fusca vermelho desbotado. Com frequência ele chegava em casa ansioso para contar as boas novas, que para nós, pouco importavam. Contava que o Fusca tinha sido adquirido por uma pedagoga da cidade vizinha que havia ocorrido uma troca de proprietários e agora um jovem garçom era o atual dono do seu carro preferido.

O Fusca já era um velho conhecido seu. Em 1975, poucos minutos após sair novinho da concessionária da Volkswagen, meu pai já havia deixado sua marca nele fazendo xixi nos bancos recém-desembalados. O Fusca foi uma troca entre o meu avô e um vizinho por algumas toras de lenha. Nele, aprendeu a dirigir, viajou, pegou chuva pelo basculante, desafiou buracos das não-asfaltadas ruas de Grão-Pará e levou minha mãe para o meu pré-natal. Apelidou o carro com as três letras que compunham a sua placa: MAX.

O ano de 2003, porém, chegou com o meu nascimento e a sua modernidade aniquiladora personificada em um Gol branco. O carro era pálido, silencioso e a decisão de que seria melhor do que o Fusca fez sentido. Meu pai, ocupado na época com o meu nascimento e escolhendo suas batalhas, concordou: 

— Ele já está muito velho mesmo. 

Acontece que visões utilitaristas param de fazer sentido diante do teste do tempo.  MAX percorreria quilômetros, dirigido por outros condutores, sempre sob a vigilância atenta do jovem, agora vendedor de automóveis. A nossa vida parecia apenas um passatempo enquanto o Fusca não voltava para o meu pai. Quando perdia o carro de vista — não que fosse fácil perder um fusca vermelho e barulhento em uma cidade pequena —,  ia perguntar na praça sobre o paradeiro, daquilo que, na sua opinião, era a obra-prima da Volkswagen.

Quando o carro finalmente voltava para suas mãos na revenda em que trabalhava, era com um sorriso de canto, como quem desafia o destino a separá-lo da máquina vermelha e barulhenta, que ele respondia: só venderia o carro pelo dobro do que ele valia. Assim, um por um, espantava os interessados. Chegava em casa e contava como  MAX conquistava a todos.

Quando um agricultor aposentado, motivado por uma pequena dose de insanidade, ofereceu o dobro do valor pela relíquia, deixou-o sem espaços para poréns. Já com o dinheiro vivo em mãos, as duas filhas para as quais ele prometera dar o melhor pareceram fazer mais sentido do que o velho MAX. Sem muito direito de escolha, aceitou:

— Ele já está muito velho mesmo. 

Meu pai chegou em casa, naquele dia, melancólico. Nas mãos do agricultor, o Fusca permaneceria por anos. Até que, com a ajuda do destino, caprichoso e implacável, o Fusca voltou para meu pai  em uma negociação. Max, outrora tão mais vermelho e útil, havia envelhecido como ele. Diversas foram as visitas à oficina, seguidas de uma frase esperançosa:

— Agora resolvemos de vez o problema.

A partir dali, todos os domingos eu era acordada com o barulho do polidor polindo a cor desbotada que agora lembrava muito um alaranjado. Escutávamos as rádios com toda a qualidade que um fusca de quase 50 anos podia oferecer. Como quem anuncia um novo integrante na família, a nossa programação de domingo passou a ser visitar as pessoas que guardavam memórias do MAX. Assim que reconheciam o fusca e o meu pai dentro dele, sorriam, saudosistas. Seus tios mais velhos, que muito entendem sobre memórias, pouco compreendiam o valor do automóvel, olhavam com pena, achando que o sobrinho havia empobrecido. Quando chegávamos, após os elogios, perguntavam: 

— Mas vocês têm outro carro, né?

Em algum momento daquela conversa, como já sabíamos, o meu pai soltaria: “Esse Fusca aí não tem preço, tem é valor!” De fato, não tem

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Laura Böger

lauraboger69@gmail.com
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Identidade

– Ora pois, precisamos cantar alguma música bué da fixe juntos. 

Senti um turbilhão de emoções com aquele rapaz que tinha acabado de conhecer. Era a primeira vez em dois anos que eu escutava o sotaque de Portugal e isso me trouxe um sentimento de identificação que eu jurei que nunca teria. Cresci em Cabo Verde. Um país rico em cultura, tradições e valores. Porém, percebo que devido ao pouco tempo de independência, ainda lidamos com muitas influências da colônia que recaem na construção da nossa identidade. Isso despertava em mim um misto de rebeldia e resistência, alimentando um sentimento de desprezo pela cultura, pela língua e até mesmo pelos nativos portugueses.

Quando cheguei no Brasil, um país com a mesma história, mas que se desvencilhou, de certa forma, das amarras culturais portuguesas, foi um alívio muito grande. É lindo ver a autenticidade da cultura brasileira e a língua portuguesa falada de forma única. Quando me deparei com um português, cidadão que representava tudo o que eu repudiava e criticava, e senti algo tão familiar, me espantei. Eram sentimentos muito confusos. O ódio se misturava com a familiaridade e a resistência confrontava a saudade. Sempre soube que quem está longe costuma dar mais valor às virtudes da sua terra. Nunca precisei disso para valorizar a minha cultura. Só não achei que a minha questão seria reconhecer e admitir as minhas raízes. 

Enquanto eu estava muito perplexa, o português estava muito animado. Ele me mostrou uma lista de músicas em seu celular que eu não ouvia há quase dois anos. Meu coração se preencheu com uma nostalgia que derrubou todas as paredes de orgulho que havia construído a vida toda. Era uma noite de karaokê como toda quinta-feira. Enquanto eu cantava aquela música portuguesa que eu ouvia repetidamente quando adolescente, percebi como o verdadeiro desafio não é negar completamente os elementos impostos, mas, sim, entender que a identidade não se limita a rótulos pré-estabelecidos. Ela é uma junção de experiências, memórias afetivas e construções individuais. A verdadeira liberdade está na capacidade de abraçar as nuances da nossa história, aceitando que a identidade é um espectro de sentimentos, no qual o amor e a repulsa podem coexistir, revelando um caminho de aceitação e compreensão de nós mesmos.

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Kelly Patricio

kellypatricio98@gmail.com
23.2
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Hora do rush

Tem gente que diz que a ponte Hercílio Luz lembra a Golden Gate, em São Francisco, na Califórnia. Eu não acho. A velha senhora é única. Mas, apesar da distância, se tem uma coisa capaz de unir duas grandes metrópoles, essa é a agitação de fim de tarde na região central. Ainda mais em uma quarta-feira, véspera de feriado prolongado. Por aqui não temos o famoso Pier 39 que vejo pelas telinhas, mas opção turística é o que não falta. Perto das 18h, as badaladas do sino da catedral anunciam o fim do expediente. A essa hora já é difícil encontrar um bom lugar nos bares. As mesas invadem as ruas na disputa por espaço com os carros. Em um dos estabelecimentos, avaliado no Google como local que serve bebidas “estupidamente” geladas, trabalhadores da construção civil com uniformes azuis se unem a homens de terno e gravata que aparentam ter acabado de sair de um filme com James Bond.

A garoa fina e o céu cinza anunciam que o feriado será molhado. Desânimo para aqueles que ainda estão com as torres de Chopp intactas sentados à beira da calçada,  mas não para os vendedores de capa de chuva. Três deles surgem como num passe de mágica junto da multidão que atravessa na faixa entre o Mercado Público e o terminal de ônibus. O tempo que o semáforo fica fechado para os carros, suficiente para travessia no meio tarde, agora já não dá conta de deixar fluir as dezenas de pessoas que se agrupam nos dois lados da via. Para sorte de quem aguarda a leva de veículos passar, “três pacotes de bolacha é dez”, anuncia o vendedor de polvilho. Quando o semáforo fica verde para os pedestres, a inquietação daqueles que mal têm tempo para uma cerveja se traduz em passos apressados rumo ao terminal. Afinal, os ônibus já estão partindo do outro lado da Avenida.

Perto das 19h, é a vez do Rei encerrar o expediente. Hoje quem encontrou uma mesa vazia para beber nas proximidades do Mercado, escolheu curtir o happy hour no embalo de samba e pagode. De paletó azul, o cover de Roberto Carlos segue despercebido rumo à plataforma de ônibus. Nem mesmo a rosa, presa ao bolso direito da roupa, faz com que os passantes o reconheçam. Assim como o caminhar frenético dos pedestres, rapidamente a vida boêmia toma conta da região. A essa hora o caminho que leva até o terminal já não tem mais aglomerações. Os vendedores de capa de chuva e polvilho se foram. E o semáforo, que foi o centro das atenções durante o dia todo, voltou a lidar com a falta de gente.

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Robson Ribeiro

ribeiro.robson.grad@gmail.com
23.2